Sempre assim
Longe de mim
Costumeiro vaivém da vida
Que leva e traz coisas boas e ruins
Porque insistes em privar-me do amor sem fim

A busca, cândida e árdua, do coração de mulher
Quer, quer, quer
Pra ontem, pra hoje e pra amanhã
Sem tardar por demais, nem pensar na semana que vem, mês que vem, nem vem que não tem
O quanto antes melhor
O quanto de amor maior
O quanto de cor que puder

Inspiração

Olhos doces que olham pra mim e me vêem
Sem dó nem piedade
Sem pena da vaidade
Sem medo de ser feliz

Onde estão, os olhos doces de pecado e visão?

Sensação

Onde quer que esteja, agora surja e apareça e acabe pra já com a minha solidão


Quéli Giuriatti, nem drogada nem prostituída, jornalista, 25 anos. Pessoa séria que não deve ser levada muito a sério. Gosta de rir, andar em bandos de amigos e amigas e escrever coisas. Principalmente, de gente e seus relacionamentos. Sobretudo, de amor.

Pensamentos Privados

Faço força para não pensar

Enquanto caem das minhas entranhas

Sentimentos digeridos e absorvidos

Que já não me servem mais

Libero, em toda minha impaciência

O vil odor que agora assola o ambiente

O hálito pensante sobrenada cansado,

Inerte, só, desesperado

Não quero mais essa angústia

Limpo minh’alma e sigo andando

Há muito que sei o meu caminho

Ele eu sigo, sorrindo contente


(esse poema foi o primeiro de uma série de 5 poemas escritos para participar de um concurso nacional promovido pela Editora Shan. Está publicado em “Antologia Poética Brasileira 1999”, da Série Gaivota. O mesmo foi literalmente escrito sentado em uma privada, durante o ato de evacuar, e é uma reflexão profunda sobre o referido ato.)

Os patos

Quando o inverno chegar
Ou o outono se for
Chegará o frio do mar
Mudará o ar sua cor

E assim também os ânimos
Daqueles que vivem sozinhos
Cabisbaixos e tristonhos
A seguirem seus caminhos

Pisando o chão de orvalho
E vendo a chuva a escorrer na janela
Ou a molhar seu agasalho
Enquanto o vento enegrece a vela

Pois já partiram para o sul
Os que sabiam de antemão
Que mais difícil que este azul
Seria a solidão

Ah! Quando o inverno chegar
Ou o outono se for
Congelará a alma a estar
Sem par a tremer de dor

E sem poder partilhar segredos
Ao ver a noite cair no dia
Tomarão conta os medos
Bem mais cedo que se previa

“Coragem” dizem dos que esperam
Sem nenhuma pressa em existir
Alheios ainda mais do que eram
Mas com a ânsia de resistir

E deixam estar até voltar ao que eram
E outro mesmo rumo seguir
Certos que sempre estiveram
Da primavera chegar quando o inverno de partir

“Mas eu vou mudar…”

Auxílio-paletó, auxílio-moradia, auxílio-transporte e auxílio-gravata, quem sabe… Nossos deputados ganham uma bela grana somento com seu salário para “trabalhar” 3 dias por semana, além de receber até auxílio-quitanda (sem contar os incontáveis que eu desconheço), sem que um silvo longo seja proferido. Geralmente, quando nossos legisladores aumentam seus próprios benefícios, a mídia nacional até divulga o acontecimento, mas dificilmente é feita uma crítica ou uma apreciação mais profunda do assunto, dificilmente a propagação da notícia ultrapassa dois dias. Um “auto-aumento” dos salários e benefícios, além de ser uma das coisas mais anti-éticas que eu posso imaginar, é um desrespeito completo com o povo, com a Nação brasileira. Se tem um ser humano que deveria compadecer de seus irmãos é esse nosso “amigo” deputado. É por questões como essa que desrespeito a politicagem que se faz por essas bandas. Nada tenho contra política, pelo contrário, sou um devorador moderado de livros e textos como “A República”, de Platão, “A Política” de Aristóteles, “Do Cidadão” de Thomas Hobbes, “O Espírito das Leis”, de Montesquieu, “Dois Tratados Sobre o Governo”, de John Locke, “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel, só para citar alguns “clichês”, sem contar tantos outros escritos anarquistas de Paul Feyerabend, Bakunin, Lakatos, Kropotkin e Malatesta, sem esquecer Thomas Morus e Henry David Thoreau, deveras inspiradores. Já pensei até em fazer mestrado em Ciência Política… Quem sabe… Mas o que lamento “de montão” é essa “festa que armaram pra me convencer” de que a importância desses dito cujos é tamanha que merece qualquer sujeição por nossa parte, sujeição essa que nos faz permanecer atônitos frente a tamanha falta de escrúpulos, sensibilidade e percepção social, e nos deixa, imóveis, catatônicos (inertes é um termo realmente bom!) em relação a essa absurdidade! Tudo bem o dono do mercadinho aumentar o preço do salgadinho pensando na crise que virá no governo Lula, mas o “senhor deputado”?!?!? (Alguém já comeu a lingüiça extra-forte do Bola? Dizem que é uma patada na orelha!) Dos livros que citei acima, para quem não os leu, apresentarei pequenos excertos comentados em edições vindouras do Simplicíssimo. Quem os leu, atreva-se a escrever algo, por favor. Ah! Está aberta a partir de hoje uma espécie de “Seção de Cartas”, via e-mail, é claro, para críticas e sugestões, além de comentários e outras breves intervenções. O e-mail todo mundo já sabe, é superjazz7@terra.com.br (sem acento!). Ainda tem um espacinho para quem quiser enviar sua(s) poesias para a edição especial do Simplicíssimo da próxima semana! Vamos lá!

A propósito: dia 8 de fevereiro ocorrerá o “Primeiro Rafting Oficial do Simplicíssimo” em Três Coroas. Para maiores informações, e-mail-me acima! Para menores informações, o endereço é o mesmo! Não há restrição de idade, sexo, crença, ou qualquer outra, mas pessoas com fratura cervical não consolidada ou sem boa imobilização do pescoço são recomendadas a assistir tudo da margem do rio! Grande abraço!

Rafael Luiz Reinehr

“O verdadeiro propósito do governo é a liberdade” (Benedict Spinoza)

Escrever por Escrever IV (excertos)

{06/06/2000 – Terça-feira – 19:28}

Quem está prestando atenção no horário deve notar que eu geralmente começo a escrever mais ou menos nesse horário. Isso porque nessa hora eu já cheguei em casa da Faculdade, já jantei e estou deitado na minha caminha com a televisão ligada deixando passar qualquer coisa, para fazer um barulhinho de fundo. Isso provavelmente vai mudar no segundo semestre desse ano, quando, se tudo der certo, estarei fazendo Ciências Sociais e Políticas na UFRGS, curso noturno. Certamente o curso vai aprimorar bastante meu senso crítico ( e acabar com o resto do meu tempo livre!) e aguçar minha capacidade de observação da realidade social mundial.

Não sei por quanto tempo vou estar escrevendo diariamente estes escritos. Já sei que amanhã não conseguirei pois estarei de plantão no Conceição. Na Quinta vou para Curitiba representar o Conceição e o Rio Grande do Sul no Congresso Nacional de Residência Médica, que entre outras coisas, vai decidir a nova presidência da Associação Nacional de Residentes mas, principalmente, discutirá problemas e proporá mudanças necessárias para melhoria dos serviços de residência e votará uma possível greve nacional dos residentes de Medicina. Estou feliz em poder participar dessa atividade. Em relação à escrita diária ou não “disto” que estás/estão lendo (ainda não achei uma pessoa definida à qual escrever – e isso tampouco me incomoda), não irei me estressar. Escreverei quando tiver vontade, sem regras, sem quantidade mínima ou máxima de linhas… seguirei apenas a minha vontade. Por falar em vontade, vou incluir um textinho que eu escrevi há um tempinho atrás e era originalmente para ser incluído em algum dos meus Joe Volume (minha revista de variedades on-line). Aí vai:

((( ((( (((o texto que incluí aqui é “Quando dá aquela vontade”, já publicado na edição número 1 do Simplicíssimo Online, de 01/11/2002))) ))) )))

… Bom, pelo menos divertido esse testículo é… Hoje eu ainda ia falar de algumas diferenças entre Hobbes, Locke e Rousseau, mas como estou cansado, deixo para outra hora. {06/06/2000 – Terça-feira – 19:49}

{09/06/2000 – Sexta-feira – 00:15}

Vocês nem adivinham onde estou! Estou em Curitiba, participando do XXXIV Congresso Nacional de Médicos Residentes. Hoje foi bem legal! Conheci pessoal do Rio de Janeiro, um residente do Acre, pessoal aqui de Curitiba… O coquetel foi bom… Bebi vinho… Agora estou vendo o Jô e estou pronto para dormir. Amanhã às 8:15 tenho que estar pronto para pegar o ônibus para o Congresso. Temos que discutir vários assuntos bem importantes. Escrevo na seqüência, pois agora estou muito cansado. Estou de pós-plantão e fui dormir às 5:00 da manhã de ontem e acordei às 9:00. Tô morto! Aqui em Curitiba me emocionei e comprei um fone de ouvido profissional e alguns livros de Filosofia: “A Política” de Aristóteles, “Como Tirar Proveito de Seus Inimigos” de Plutarco, “Discurso do Método” e “Meditações Metafísicas” de René Descartes, “Do Cidadão” de Thomas Hobbes, “Dois Tratados Sobre o Governo” de John Locke e “O Espírito das Leis” de Montesquieu, todos da Editora Martins Fontes. Agora chega de papo que eu vou ver o Jô e depois vou dormir… {09/06/2000 – Sexta-feira – 00:29}

{11/06/2000 – Domingo – 10:16}

Curitiba, dia 4: a despedida. Hoje é dia de voltar para Porto Alegre. Agora estou no ônibus pronto para ir para o Congresso para a votação da chapa para presidência da Associação Nacional de Residência Médica (ANMR) e para a Plenária final que reunirá às conclusões e propostas dos grupos de discussão. Entre outras coisas temos que decidir sobre um dia de paralisação nacional e meios para aumentar a mobilização a nível local e nacional. Continuarei escrevendo durante a plenária, após as decisões terem sido votadas. {11/06/2000 – Domingo – 10:25}

{11/06/2000 – Domingo – 20:27}

Não escrevi sobre a plenária e o Congresso pois achei que o assunto seria chato demais para quem estivesse lendo. De qualquer forma, ficou decidido que haverá uma paralisação nacional dos médicos residentes em 20 de julho. Vamos ver no que vai dar! Agora estou no avião da TAM, já jantei e estamos à meia hora de Porto Alegre. Comecei a ler a Crítica da Razão Pura do Immanuel Kant novamente. Dessa vez vai. O Gaúcho da Fronteira está sentado logo ali em frente. É uma figuraça! Acho que estou meio sem inspiração para escrever sobre reflexões filosóficas…

No Congresso, conheci pessoas de Curitiba (é claro!), do Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais, do Ceará, de Pernambuco, de Campinas, de Ribeirão Preto e até do Acre! Muito legal o choque de culturas, todos aqueles sotaques característicos bem marcados… Gostei da experiência! {11/06/2000 – Domingo – mais ou menos 20:45 (o avião começou a descer)}

A Cartilha do Simplicíssimo – lição III

Lição número 3

O avô viu o ôvo da ave.
O avô viu a ave.
O ôvo voava?
Duvido.
A ave voava.

Ada ia ao edifício.
O avô ia ao edifício.

O avô dava a ave à Ada.
O avô dava o ôvo à Ada.

ia oa ai iu ou eu
dia voa vai viu vou deu

lima mala tatu
li ma ta
Li Ma Ta

A lima é do vovô.
A mala é do vovô.
Tudo é do vovô.
O tatu é do vovô?
Duvido.
O tatu é do mato.

a i o u e
ta ti to tu te
ma mi mo mu me
la li lo lu le

“A linguagem não é um dos meios pelos quais a consciência se comunica com o mundo”*

Na tentativa de conceituar a linguagem, muitas pessoas a classificam como sendo um dos meios pelos quais a consciência se comunica com o mundo. Com essa afirmação estamos cometendo um grave erro de pensar que a linguagem possa ser um instrumento, e de que temos consciência dele. Se quisermos ver a linguagem como um instrumento deveríamos conceber que ela teria um fim último e, alcançado seu objetivo, a colocaríamos de lado. Poderíamos concebê-la como, por exemplo, um martelo que ao nos auxiliar a pregar o prego na parede é guardado na caixa de ferramentas, para quando for necessário, utilizarmos novamente. Esse é um erro grave porque pressupõe que poderíamos controlar quando quiséssemos e quando não quiséssemos utilizar nossa linguagem. É como se pudéssemos guardá-la para ocasiões especiais em que precisaríamos dela. Essa visão de pensamento permite que concebamos erroneamente a linguagem como um terceiro elemento acompanhado da consciência e do signo. Permite pensarmos que a linguagem está fora da consciência e faz parte dela como um programa de computador que pode ser instalado e da mesma forma deletado. O erro está também aqui, uma vez que não podemos pensar consciência e linguagem senão apenas linguagem ou apenas consciência. A linguagem e a consciência são uma só coisa, não existem em separado. A dificuldade em pensar nelas como um só ente está no fato de que a linguagem está sempre nos ultrapassando; ela está desde sempre a nossa frente uma vez que é a linguagem que nos permite o pensamento sendo o pensamento a própria consciência. Por isso não existe só consciência ou só linguagem; mas são interdependentes uma da outra e só existem quando unificadas. Mas a linguagem não tem seu fim ao nível da consciência sendo que também nos enganamos ao pensar que temos consciência da linguagem. Um dos princípios dessa faculdade é o fato de esquecer de si mesmo, isto é, só nos damos conta da nossa linguagem quando com um movimento de reflexão sobre nossa própria consciência, o que já é demasiado difícil. Isso porque a linguagem está sempre antes da consciência por isso não pode ser entendida completamente pelo homem; deveríamos para isso poder pensar o inconsciente da linguagem. Assim, percebe-se que a linguagem é antes de tudo algo que engloba e transcende a consciência. Com isso podemos concluir que a linguagem como meio, e meio da consciência, são afirmações errôneas uma vez que a linguagem não pode ser reduzida ao equivalente de um instrumento. O que possibilitaria pensar que poderíamos ficar sem ela quando, por exemplo, dormimos. Nem tampouco pode ser considerada como fazendo parte da consciência uma vez que é ela a consciência, e ainda assim traz sempre um componente inconsciente que permite, entre outras coisas, sua veiculação.


* Gadamer, Hans-Georg – Homem e Linguagem In:” Verdade e Método II”.