Pra ver se cola

                   Palavras carregam em si significados construídos historicamente, ainda que sejam os significados recentes. Elas podem denotar alegria, tristeza, raiva, emoção e muitos outros sentimentos humanos, refletindo opiniões ou contando casos. Palavras podem ser confiáveis ou não, a depender do tom com que se falam ou do contexto em que são escritas e, claro, de quem as profere. Continue lendo “Pra ver se cola”

Mar de amar

Quando sob meus olhos se balança o mar
De lágrimas, minha pele salgando vem
E na tormenta dessa maré de amar
Respingam lembranças de amar alguém.
Com os açoites de ondas se agitando
No infinito de águas em meu peito
Vem à tona destroços de amor boiando
Misturando-se ás brumas de meu leito
Enevoa-se a retina de minh’alma
Garoando de saudade e mais além
visualizo você
a navegar com calma
pelas vagas colossais
de mais ninguém
acenando debaixo do arco-iris
diz- te espero
eternamente meu bem.

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Do nada para o nada?

No início, não tinha nada. E o nada, assim, é muito vazio, e muito chato. Deus ficava andando de um canto pro outro, mas o mundo não tinha cantos, porque não era plano, nem quadrado: era infinito, em todas suas direções. Já cansado de vagar pela escuridão plena, Deus começou a criar pontinhos de luz, e chamou esses pontinhos de estrelas. Criou muitas, muitas, muitas! E então se desencantou de novo. Continue lendo “Do nada para o nada?”

FOME ZERO

  Inácio
           Início
                   Inócuo
                              Inércia
                                        Inanição.

   Nota: O poema “Fome Zero” recebeu menção honrosa no I Concurso Minirrevista Literária (Rio de Janeiro, Outubro de 2009).
 

Edição 351 – 08/11/2009 – Todas as nossas ações refletem no mundo em que vivemos

"Nossos pés deixam pegadas na areia do tempo. Se estivermos no caminho errado, muitos nos seguirão, desviando-se do que é correto. Quando pensamos que uma ação é só por aquele momento e esquecemos que ela deixa um rastro atrás de si, não estamos sendo responsáveis.
Todas as nossas ações afetam os seres humanos, dando-lhes alívio ou tristeza. Podemos fortalecê-los ou não. Podemos causar ferimentos ou curas. Podemos gerar conflitos ou resolvê-los. Podemos criar cataclismas ou algo nobre para a sociedade.
" B.K.Jagdish

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O Pedinte

Em meio à rotina do dia a dia, surgem aqueles personagens que de longe ignoramos, ou desprezamos. É assim que eles aparecem nos transportes coletivos que circulam nas cidades. Rostos já conhecidos, textos que os passageiros provavelmente já sabem decorados, mostrando o quão são miseráveis ou querendo que os vejamos como tal. Pedintes, retratos de uma sociedade desigual.

 
Certo dia, algo me chamou a atenção, um ser que aflorava em algumas pessoas um sentimento de solidariedade e em outras de nojo. Essa pessoa que subia nos ônibus para pedir uma ‘ajudinha’ tinha algo diferente dos outros pedintes. Sua voz era enrolada como a de alguém que sofreu um AVC; ao falar babava e tinha dificuldade de se segurar ao balançar do ônibus. Quando aquele Ser diferentemente especial subia no ônibus, as faces indigestas dos passageiros eram notáveis, aquela situação não era nada agradável para ninguém, principalmente para aquele que vergonhosa e necessariamente estava pedindo.
 
Com um corpo frágil, devido a alguma doença que não consegui identificar, aquele pedinte sentia a necessidade de se sentar o mais rápido possível. A pessoa que estava sentada no banco logo se levantara, com receio de que a saliva do pedinte lambuzasse suas roupas, deixando-o solitário, sempre solitário. Essa foi uma cena que se repetiu durante muito tempo… mas, algo havia mudado…
 
Algum tempo depois, aquele pedinte subiu no ônibus, e vi o seu semblante diferente. Usava farda, tinha uma pasta de trabalho e um crachá pendurado no pescoço. Fiquei imaginando quem teria dado uma oportunidade àquela pessoa? Os olhares dos passageiros não mais o incomodavam, ele estava feliz. Sentou-se à janela, mais uma vez sozinho, e simplesmente esperou que o ônibus desse partida.
 
Enquanto os passageiros se acomodavam, um rapaz ofereceu-lhe uns trocados, e o ex-pedinte simplesmente rejeitou. Disse que não precisava. O rapaz insistiu para ele aceitar, talvez ainda sentisse pena daquela rosto tão conhecido nos ônibus. O ex-pedinte olhou firme no rosto do jovem, sorriu, abraçou a bolsa, e só então aquele gesto fez o rapaz perceber que alguém tinha acreditado que ele era capaz, mesmo com todas as suas limitações. Eu o observava, e durante a viagem, mesmo sentado solitário naquele banco, ele apenas sorria.
 
Infelizmente, vivemos em uma sociedade que pedir virou emprego, e que o limite entre a caridade e a miséria é muito curto.