Cretos

 Cretos sentara-se naquele banco estampando um largo sorriso em seu rosto de expressões ligeiras. Seus olhos cintilavam pela absoluta certeza da glória. Todo este sentimento foi ampliado pela visita de uma soturna e sombria criatura, que sem rosto, protegida por um capuz

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A BÍBLIA DEMON’S [TRADA] -Versão do Diretor

 

Livro Primeiro
 
ORIGENS

 

 
[Para oeste, norte, sul e leste ele andava]
 
Mesmo local. Não se vê a árvore. Um homem anda de um lado para o outro visivelmente entediado.
 
 
Não obstante estes eventos anteriores, já agora havia um ser semelhante àquele que o prisioneiro da árvore havia imaginado. Tudo havia corrido exatamente como o previsto por ele em seus cálculos, e, o, agora, senhor exclusivo do universo, conseguiu fazer uma criatura semelhante a ele mesmo e prometeu para este Ser, que logo lhe faria, de uma parte retirada do corpo dele (a criatura), uma daquelas outras mais arredondadas, mais cheirosas e mais macias como o prisioneiro da árvore admitia ser possível. O primeiro Ser criado a partir das fórmulas do “outro”, não tinha rigorosamente nada o que fazer e por isso ficava andando ocioso por todos os lados. Por este motivo havia recebido do seu senhor o nome de ANDÃO. O senhor então, cansado da falta do que fazer de Andão teve uma idéia.
 
  1. Andão, onde estás? Andão!? Ô Andãaao!!
  2. Estou aqui senhor. Mas tu já não o devias saber, uma vez que és onisciente?
  3. Nada de críticas hoje Andão. O fato é que encontrei um ótimo passatempo para você.
  4. Ah Ráh, vai finalmente fazer pra mim aquela criatura?
  5. Mulher, Andão, o nome que daremos é mulher, já te disse. Não, não, mas ainda não.
  6. Mas não é possível!
  7. Tem tempo para isso Andão.
  8. Disso não há a menor dúvida, pois não vivemos em uma eternidade?
  9. Então, por isso mesmo achei por bem dar lhe uma atividade antes que se transforme em funcionário público.
  10. O que é então? Revele-me senhor qual é este passatempo que se te agradar eu o farei.
  11. Bem é o seguinte. Eu pensei cá comigo, que você poderia se sentar ali embaixo daquelas árvores e enquanto eu que sou o Eu Sou, faço desfilar diante de ti, que é o Não É, todos os outros seres vivos de todas as outras espécies para que você os vá nomeando, criando nomes para cada um deles, não é legal?!
  12. Oh, Burro!
  13. Boa, Andão! Está se referindo àquele animal orelhudo que está pastando ali, né? Vejo que tem talento para a coisa!
  14.  ?
  15. Bem, então vamos começar. Eu darei a ordem para que se inicie o desfile e você fica ali sentado colocando os nomes nos bichos.
  16. Mas, meu Deus…
  17. Não tem mais meu Deus nem meio Deus, vamos, anda logo Andão, isso é uma ordem!
  18. Mas senhor, uma dúvida paira sobre o meu semblante.
  19. Ta, o que é agora?
  20. Todos os animais da terra virão até aqui para que eu lhes dê um nome?
  21. Pois não é isso mesmo que eu estou dizendo, lerdeza!
  22. Mas senhor, o senhor não acha que alguns poderão levar muitos anos para chegar aqui? E que outros talvez nem mesmo consigam vir devido às águas dos oceanos? Ou por acaso estamos na época da Pangéia?
  23. Sei lá o que é isso que está dizendo? Ora vamos ao que interessa.
  24. E os animais aquáticos, senhor, vou mergulhar para dar nomes a eles, ou eles evoluirão para respiração pulmonar?
  25. Não me fale em evolução, Andão! Eu já te disse que não tolero este assunto!!
  26. Tudo bem, tudo bem, me perdoe senhor. O senhor é que é o Eu Sou, viu? Só o senhor, ninguém mais. Não fique bravo comigo.
  27. Hummm… assim ta melhor. Então vai lá, vai, senta lá, pra nomear os bichos.
E então o senhor Deus começou a fazer desfilar diante de Andão todos os bichos que tinha à mão por ali no momento, pois embora não quisesse admitir, sabia que Andão (mesmo sem ter provado ainda do fruto da árvore do conhecimento) estava coberto de razão, pois não seria possível e nem prático que todos os animais da terra viessem ter ali naquelas paragens paradisíacas apenas para ganhar um nome.
 
[Andão sozinho, recostado à sombra de algumas árvores, observa o desfile dos bichos e vai nomeando-os com visível dificuldade].
 
Começou, pois, Andão, a nomear os animais um por um, como Deus havia determinado que ele fizesse, apesar de não compreender porque Ele mesmo (Deus), com um simples estalar de dedos não o poupava de tamanho trabalho. E como eram por demais os bichos, Andão teve sono e dormiu. Sonhou então que estava em um outro Reino, mas que era muito parecido com o jardim do seu Deus. Viu, no entanto, que neste outro paraíso havia algo muito melhor para se fazer do que ficar andando de um lado para o outro ou dando nomes a bichos. Andão percebeu que ali naquele jardim já existia inúmeros Seres iguais ao tipo que o senhor seu Deus já havia lhe descrito e prometido que faria um pra ele, para fazer-lhe companhia. Eram exemplares magníficos! Tinham uns corpos muito belos, alguns corpos eram claros, outros morenos, negros, uma grande variedade de tons. Os cabelos eram lindos, dos mais variados estilos e exalavam um perfume inebriante. Havia também preponderantes elevações na altura do tórax que pareciam pequenos vulcões terminando estes em uns bicos muito interessantes e atraentes. Eram as criaturas mais extraordinárias que Andão já havia botado os olhos em cima. Ainda não era tudo. Os Seres traziam também uma cintura fina com uns quadris largos e os traseiros eram de uma inclinação estupenda! Todas estas criaturas estavam acariciando e servindo um ser igualzinho a ele, que estava confortavelmente deitado numa rede de cipó entrelaçado. Andão resolveu se aproximar mais, e percebeu que além de bonitas, as criaturas eram alegres, agradáveis e simpáticas, pois sorriam e piscavam para ele, acenando com o dedo como se o chamassem a aproximar mais. Andão então se sentindo encorajado, chegou mais perto e estendendo uma das suas mãos, tocou uma delas em uma parte próxima à virilha. Era algo muito diferente de tudo que já havia tocado, algo muito macio e acolchoado, com uma leve penugem muito agradável de acariciar. Porém, enquanto Andão sentia aquela textura tenra e suavemente inusitada com a ponta de seus dedos sentiu de repente umas fortes pancadas no seu flanco esquerdo. (Era Deus que o acordava aos pontapés).
 
 
1.     Aí, aí, aí! Porque me chutas meu senhor?
2.     Você dormiu em serviço idiota, dormiu enquanto nomeava os animais sua Lesma! Lesma… Lesma… ah…olha ali Andão, este é um bom nome para aquele vermezinho asqueroso e molenga que já vai rastejando ali, olha!
3.     Não vem não que eu já coloquei nome nisso aí de Escargot.
4.     Escargot? …hummm, é, tem razão, é um bom nome pra ele. Mais elegante até. Afinal o coitadinho só vai ter de bonito o nome mesmo.
5.     Mas senhor deixa eu te contar um sonho que eu tive ainda agorinha!
6.     Ah, Andão, este negocio de interpretação de sonhos é bem mais lá adiante que vai começar. Se eu não me engano, lá na história de José no Egito é que ela vai ser mais importante. Depois vai aparecer um monte de charlatão por aí com esta mania… Ah… pera aí. Parece que a coisa volta a ter alguma seriedade lá bem mais na frente, no século… Hummm… xii sou ruim para datas viu. Bem, um tal de Doutor Freud vai cismar com isso aí. Aliás, gente nossa Andão, gente nossa! Ou não?
7.     Mas senhor, Deus meu, não precisa interpretação não. Foi um sonho muito claro e maravilhoso! Havia um montão daquelas criaturas iguais as que o senhor já me prometeu tantas vezes que vai fazer uma pra mim.
8.     Mulher, Andão, mulher… Lembra? Você homem e ela mulher.
9.     Ta, ta bom, é isso mesmo, mulher. Mas o nome naquilo ali é o que menos importa! Mas este nome ficou muito bom mesmo para aquela criatura. Foi o senhor mesmo que escolheu?
10.   Mas é evidente não é Andão? Quem mais poderia ser?
11.  Uai, o senhor tem jeito pra dar nomes, hem? Não quer dar uma mão com a bicharada aqui não? Isso aqui é uma trabalheira do Cão! Ah, pensei mais um! Podemos chamar assim aquele bicho ali que fica abanando a cauda, cheirando tudo que encontra e latindo sem dar trégua! Ô bicho impertinente viu!
12.   É, ta bom, mas cuidado com este nome aí, pois ele é também o nome do meu arquiinimigo e tem que ser o seu inimigo também. Procura inventar um apelido pra chamar este bicho aí mais pela alcunha. Que tal cachorro?
13.   É, é bom também. Só não entendo porque é que eu tenho que ser inimigo de alguém que eu nem conheço só porque o senhor não gosta dele.
14.  Andão, Andão! Pra quem ainda não comeu da árvore do conhecimento você ta bem espertinho e questionador.
15.   Comer, comer. Javé, eu não sei por que, mas esta palavra me faz lembrar da tal da mulher lá. Então. Deixa eu te contar o sonho, vai O senhor precisa saber como elas eram.
16.   Eu sei muito bem como elas são, Andão.
17.   Mas tinha um monte lá senhor. Eram, eram, ah… Deixa ver… mais ou menos umas sessenta!
18.   Setenta e duas.
19.   Ora, que isso? Como o senhor sabe? Ta informado, hem? Mas pro senhor é fácil saber, o senhor é Deus, né? Mas meu senhor, meu senhorzinho querido, será que eu não posso ter setenta e duas também não?
20.    Isso não.
21.   Ah, mas por que, senhor?
22.    Porque não pode, não é certo na nossa religião.
23.    Por quê?
24.   Andão, o negócio é o seguinte. Aquele jardim que você viu no seu sonho é o paraíso dos muçulmanos.
25.   Quê!?
26.   Olha, deixa isso pra lá. Visto que tens sido um servo obediente e segue todas as minhas orientações, e não te esqueces de me adorar, hoje, depois que você dormir, eu vou lhe fazer uma mulher para que você não esteja mais sozinho neste maravilhoso jardim que eu fiz.
27.   Ta brincando, né? Jura?
28.    Juro. Mas já vou te avisando que quando chegar à hora de comer a fruta que ela vai te dar, você não come não viu?
29.   Aí o diabo da palavra de novo… comer.
30.    Já te falei pra não mencionar este nome.
31.     Comer?
32.     Não, o outro.
33.     Ah, diabo?
34.      Não fala, não fala!
35.       Epa, perdão senhor, mas espera aí, não vem com essa não. Como assim eu não vou poder comer a fruta que ela me der? Que sacanagem é essa? Vai dar a rapadura e tirar os dentes? Vem com essa não, veio!
36.  Não, não. Não é nada disso não. To falando de outra coisa, de outra fruta. Está vendo aquela árvore lá longe? Ah mas deixa isso pra lá por enquanto, pois eu tenho que explicar isso pra vocês dois juntos. Anda, vai dormir, que quando acordar já terá uma mulher.
37.  Oba! O senhor é um deus tão bonzinho pra mim! O senhor é o melhor deus que tem, com certeza! Vou fazer um cartaz bem grande para pregar na porta da minha tenda, escrito assim, ó: “Como Deus é bom”! Mas senhor será que eu não podia ganhar pelo menos umas quatro mulheres? Puxa vida, o tal do muçulmano lá tem setenta e duas, meu. É mulher a dar com o pau!
38. Andão, não ofendas o Senhor teu Deus!
39.    Está bem senhor, está bem, não está mais aqui quem falou. Mas o senhor poderia me dar uma ajudinha pra eu dormir hoje? Logo hoje eu estou sem sono, e quero descansar bastante, pois eu tenho a impressão que amanhã à noite eu não vou pregar o olho.
 
 
E então Deus fez cair pesado sono sobre Andão e tirando dele uma costela (que ele escolheu por já estar quebrada, por causa dos chutes que ele havia aplicado no homem, quando este dormiu ao nomear os bichos), fez para ele uma mulher.