TERÇA, A ESTRANHA

Muitos aproveitam o período de festas para falar de amor, fraternidade, união e harmonia. Serei voz destoante e declararei meu ódio pela terça-feira, esse diazinho à toa que merece a implicância e a repulsa de toda a raça humana.

Repare como todos os dias da semana têm sua cara e sua personalidade muito bem definidas, desde o início dos tempos. Sua função, digamos assim, dentro da folhinha.

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A curiosidade matou o gato

O silêncio noturno era quebrado pelo ronronar. As unhas afiadas cravavam contra o caule da velha figueira, iluminada parcamente pela luz de um estreito e tímido luar. A excitação do felino de pelagem negra e olhos incandescentes como as brasas da lareira da casa de sua estimada dona, vinha pelo olfato, como se o cheiro de pássaros novos no ninho de sabiá o intimassem a tal empreitada. Era seu extinto de caçador que o impelia a aventura.

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A BÍBLIA DEMON’S [TRADA] -Versão do Diretor

 

De Como Jacu, não Satisfeito de Ter Ludibriado o Irmão para Roubar-lhe a Primogenitura, passou também a Perna nele para conseguir para Si a Benção que por Direito era do Irmão.
 
 
 
EuqasI ficou velho e seus olhos enfraqueceram. Não enxergava mais nada. Chamou Isauh, que era o mais velho e disse:
 
                             
1.     Meu filho.
2.     Aqui estou meu pai.
3.     Veja. Estou velho e não sei quando vou morrer. Pegue suas armas, flechas e arco, vá ao campo e traga-me alguma caça. Prepare-me um bom prato do jeitinho que eu gosto, e traga para eu comer e aí eu te abençôo antes de bater as canelas.
 
 
Re[bola à beça]beca ouviu tudo e mandou Jacu ir pegar dois cabritos que já tava no jeito para ela preparar pro velho, enquanto Isauh ralava na caçada, e ela falou pra Jacu se passar pelo irmão para ganhar a benção no lugar dele.
 
 
 
Nova Indignação de um Leitor: Eta Gentalha Sagrada! Só sabem mentir e fazer trapaça!
 
 
1.     Mas mãe, por que estás assim contra Isauh?
2.     Ará!
3.     Ele também é seu filho. Ta fazendo isso só porque ele é feio e peludo?
4.     É. Ele é feio, muito feio e peludo. O seu pai não sabe, mas ele é filho do empregado do seu avô Abraãocagão. Aquele servo que foi me buscar pra casar com o seu pai. Sabe como é. Você já é bem crescidinho agora, já posso contar. O servo do seu avô Abraãocagão não era nenhum bobão e seu pai EuqasI é meio pastel. Então enquanto a gente estava viajando pra eu encontrar o seu pai pra casar com ele, o servo chegava o reio em mim direto! Pronto, contei! Ah que saudade… Bem… Bem então vai lá.
5.     Ah então é por isso que ele é peludo desse jeito e eu não? Mas mãe, ô mãe, nós não somos gêmeos?
6.     Bem aí já é mistério de Deus e não devemos questionar.
7.     ?
8.     Agora vai logo antes que o seu irmão ganhe a benção.
9.     Está certo mãe, to indo lá.
10.Então Jacu foi e depois do prato preparado ele levou a comida até seu pai.
11.Pai!
12.Aqui estou.
13.To vendo, o cego aqui é o senhor, veio.
14. É tu, meu filho?
15. Sim pai, sou eu seu filho Isauuh o seu primogênito [disse Jacu].
16.  Mas como você encontrou a caça tão depressa, meu filho?
17.  Ora, pai, o senhor Deus colocou ela lá de jeito pra mim [disse , dando uma risadinha à parte].
18.Eh, eh, este nosso deus é bão mesmo, hem?
19.Se é, meu pai, se é.
20.Então chegue aqui pra eu te apalpar e sentir se é você mesmo o meu fio Isauuh.
21. Mas pra que isso pai? Sou eu sim.
22. Então vem cá, uai.
23. Pai, este teu sotaque não ta errado não? O senhor ta falando como se fosse caipira, mas o senhor é judeu.
24. ‘Bôcha’ vida ‘minha filhinha tu está certinha’, EuqasI, ‘seu babai’, já tinha esquecido até da ‘sodaque’. Então chega aqui ‘brá eu’ te abençoar.
 
  
Então EuqasI apalpou sobre as roupas que eram de Isauh e que Jacu tinha vestido e pensando que era Isauh que ali estava o abençoou.
Assim que terminou Isauh voltava correndo com um saboroso prato para o seu pai e disse:
 
        1.  Que meu pai se levante e coma da caça que eu preparei,e me abençoe.
     2.     Quem é você?
3.     Ora, além de cego ta caduco? Sou eu seu filho Isauh que o senhor pediu pra ir caçar e preparar um prato para o senhor para que o senhor me abençoasse.
4.     Mas então quem veio antes? Eu já abençoei o que veio antes e abençoado ele ficará.
5.     Pô pai, nos tapearam, me abençoa também, me abençoa!
6.     Então foi seu irmão Jacu que veio com astúcia e tomou a benção que era sua.
7.     Então não é com razão que ele se chama Jacu, pois é esperto.
8.     Não se esqueça que o nome Jacu lhe foi dado também por causa dele nascer logo atrás de você e então ele Já podia avistar o seuCu!
9.     Ah é.. ka.. ká..ká! Mas pai, vai lá vai, me abençoa aí também então. Não é possível que o senhor só tenha uma benção.
10.Nada disso.
11.E dizendo isso EuqasI ficou em silêncio.
12.Pai! Abençoa-me, abençoa…, isso não é justo! [gritava Isauh batendo o pé no chão fazendo birra].
13. EuqasI então lhe disse:
14. A sua morada será longe da terra fértil e sem o orvalho que desce do Céu. Você viverá da sua espada e servirá a seu irmão. Mas quando você se revoltar sacudirá o jugo do seu pescoço.
15.Que merda é essa que o senhor ta falando aí? Não to entendendo nada. Além de não abençoar, ainda roga praga! Putaquepariu, meu, é isso que eu ganho de te feito tudo que o senhor me pediu, enquanto o velhaco do meu irmão que já me tapeou uma vez nessa história de primogenitura me passou a perna de novo, e trouxe uns cabritos que ele nem teve trabalho de cozinhar, pois aquela sem vergonha da sua mulher, a minha mãe, é que preparou pra ele. Pois antes do senhor morrer é bom que saiba que esta sua benção também não deve valer porcaria nenhuma, pois nós somos filhos é do servo do vovô, aquele que foi buscar a mamãe pra casar com o senhor, pois ele me contou um dia que ele trepou com ela a viagem inteira e ainda por cima comia ela quase toda noite quando o senhor tava dormindo, e… Pai… Pai? Xiii acho que foi demais pra ele esta notícia, o veinho bateu com as dez. Vamos lá cadê aquele safado do Jacu!
 
 
Então Isauh!! Começa a odiar Jacu. Re[bola]beca, mãe dos dois protege o trapaceiro do Jacu e manda que ele vá morar com seu tio Lambão. Isauh!!! Vê que o irmão foi buscar esposa nas terras do tio, pois seu pai abominava as Cananéias [como todo bom homem santo que não faz acepção de pessoa]. Este Isauh!! Então foi para a casa de IS MY WELL (Ismael), que assim se chamava por ser dono da primeira agência matrimonial, e seu slogan era este que dizia que na sua agência encontrariam sempre quem “é seu bem”. Ali Isauh!! Apesar de já possuir outras esposas, arranjou mais uma chamada Maelet (Má eleita), que se revelaria uma má escolha, o que é bem feito tanto para a agência pretensiosa do Is My Well, quanto para o próprio Isauh!! Pela sua gulodice de querer tantas pererecas, o que ficou, desde então, e até antes disso, estabelecido como normal uma vez que os patriarcas antigos do livro santo assim procediam, para glória de Deus e a felicidade dos Mórmons!

Naomi

Junichiro Tanizaki (1886-1965), tal qual nosso genial Machado de Assis, jamais saiu de sua patria e, ainda assim, construiu uma obra de caráter universal – admirada até hoje por grandes autores contemporâneos – caso do escritor turco Orhan Pamuk, Nobel de Literatura em 2006; que, certa vez, em visita a Kyoto, revelou inspirar-se muito na obra do autor japonês – ele próprio candidato ao maior prêmio da Literatura mundial em várias ocasiões.
E não é para menos. Tanizaki desvenda as camadas da psicologia de suas personagens como poucos autores sabem fazer. E isso é muito bem demonstrado na obra Naomi, publicada em 1924, logo após um grande terremoto ter atingido Tóquio.
Coincidindo com um período em que a cultura japonesa começava a sofrer influências da ocidentalização; a obra nos apresenta o personagem-narrador Jōji, um tímido (e típico) assalariado japonês, que, com vinte e oito anos de idade, conhece Naomi, jovem de quinze anos, de origem humilde, que trabalha em um bar. O nome exótico – algo incomum para os nomes-padrões japoneses da época – e as características físicas eurasianas da jovem acabam por atrair a Jōji; que decide cuidar da educação de Naomi, levando-a para morar com ele em Ōmori, na periferia de Tóquio.
Apostando inicialmente no potencial da jovem para os estudos; começam então as decepções de Jōji para com aquela que viria a ser sua esposa: Naomi revela-se mais interessada em danças, festas e a companhia de amigos mais jovens – principalmente de dois deles: Hamada e Kumagai – do que propriamente nos estudos. E aqui surge uma característica de Naomi que fará o leitor brasileiro lembrar-se da Capitu, de nosso Machado: o olhar dissimulado e, no caso da personagem de Tanizaki, mesclado a um certo ar de inocência. Uma dubiedade que a permite fazer o que quer, não somente de Jōji, mas de todos os homens a sua volta. Interessante observar também que, na transição para a vida adulta, a ocidentalização em Naomi assume até mesmo proporções físicas; o que, ao mesmo tempo que assusta ao pacato Jōji, termina também por fasciná-lo.
Como igualmente estará fascinado o leitor que se aventurar no ambíguo e, por isso mesmo, maravilhoso mundo de Naomi.
Boa leitura! (e Boas Festas!)

HOLY NIGHT

I
Quanto ao acontecido, não pairava nenhuma dúvida: o Menino Jesus de gesso tinha virado os olhinhos na minha direção, dando ainda por cima um risinho de canto de boca. Estávamos os oito na igreja, não podia fazer nada a não ser esperar o fim da missa pra contar a todo mundo. De joelhos na hora da Consagração, eu desacreditava e pedia ao Menino Jesus de verdade pra que o seu clone do presépio parasse de brincadeira.

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