1001 – Décadance Avec Élégance (final)

Desci do ônibus e não vi nenhuma das duas moças. Simples assim. Eu estava finalmente na minha terra natal, onde as pessoas sumiam e apareciam de repente e todos os sonhos e planos feitos em bancos de ônibus, praças e hospitais eram engolidos por um buraco-negro ambulante sem maiores explicações.

Desci do ônibus e não vi nenhuma das duas moças. Simples assim. Eu estava finalmente na minha terra natal, onde as pessoas sumiam e apareciam de repente e todos os sonhos e planos feitos em bancos de ônibus, praças e hospitais eram engolidos por um buraco-negro ambulante sem maiores explicações. Parei na frente da rodoviária e observei: uma avenida perimetral e vai e vem da direita para esquerda e duas ruas q vão para frente em diagonal, quase em formato de “_V_”. Quem chegasse aqui pela primeira vez iria observar os prédios antigos e provavelmente se perguntaria o que significa um cubo apoiado por uma de suas arestas no meio da praça no final da perna direita do “_V”_. Ninguém sabe. Quem chegasse aqui pela primeira vez iria ficar perdido e não saberia qual rua seguir. Mas não eu. Eu sabia exatamente por onde e para onde ir. De bicicleta, pode-se ir de qualquer lugar a qualquer lugar dessa cidade em dez minutos. Uma cidade que todos reclamam que não tem NADA, mas no fundo gostam dela porque TUDO é perto. Um estranho ficaria perdido. Eu não, eu sei qual rua pegar. Sei onde tem lombada, curva, buraco. Posso dirigir em alta velocidade de olhos fechados e saber onde estou.

Chego na rua de casa, os cachorros da vizinhança sorriem para mim. Por algum motivo, não tenho mais medo dos marginais daqui. Sinto como se mandasse em algo, mas entro em casa e ela parece querer me cuspir de dentro dela. Não acho os talheres, não sei mais mexer no controle remoto, as roupas não estão no lugar, tenho que desfazer as malas, botar a roupa pra lavar, abrir as janelas, sair aos sábados, dar uns telefonemas, pagar contas, fazer outras, ir no correio, na farmácia, na zona… Eu estava novamente na vida rela, todos os sonhos da cidade grande se acabaram.

Bicho-do-mato, quando vai pra cidade grande, não tem grana pra andar de táxi. Anda dez, vinte quilômetros num só dia sem se dar conta disso. Mas na sua terrinha natal, vai na festa da esquina de carro, para ostentar a riqueza que acha que tem, para se achar grande bosta perto dos mais fodidos. Solidão na cidade grande faz sentido, andar ao lado de milhões de fodidos procurando emprego, descanso, buceta, é normal. É normal estar quebrado onde o custo de vida é alto, é normal não querer sair por medo de ser assaltado mas, numa cidade pequena, todo mundo aponta, todo mundo sabe seu nome, seu apelido, suas broxadas, suas chupadas, pra quem você deve, pra quem você deu. Solidão no vigésimo andar, ouvindo os carros passarem, faz você se sentir o centro do universo. Solidão numa rua deserta, faz você achar que tá no fim do mundo. E ninguém nunca vai te visitar. Em casa novamente. Vou ter que me adequar a isso. Um lugar onde seus amigos fazem bandas, festas, acampamentos e não te convidam. Vez ou outra te ligam, perguntando se você tem maconha, como se você tivesse cara de traficante. Raramente alguém irá lembrar de você, todos têm vários amigos e todos moram tão perto. Na cidade grande, seus amigos moram longe, muito longe, mas vocês só têm um ao outro. Você pode fugir, se esconder, é um em um milhão, mas sabe onde achar seus conterrâneos, seus amigos, seus vícios.

O rock saiu do coma, virou purpurina e está órfão outra vez. E nunca mais será o mesmo.