Acrômica

Levantou-se e foi até a moldura da janela espiar o fio do horizonte que mantinha toda imensidão de cores apartada de seu mundo escuro. Notou uma paisagem diferente, pardacenta. Não havia o azul do mar nem o dourado do sol. As pessoas passeavam pálidas e olhavam-na com ar de espanto e comoção. Tornara-se uma estranha. Não enxergava mais os antigos…

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"Imagem, vida última dos seres…"
[Drummond]

Levantou-se e foi até a moldura da janela espiar o fio do horizonte que mantinha toda imensidão de cores apartada de seu mundo escuro.

Notou uma paisagem diferente, pardacenta. Não havia o azul do mar nem o dourado do sol: as pessoas passeavam pálidas e olhavam-na com ar de espanto e comoção.

Tornara-se uma estranha. Não enxergava os antigos companheiros de janela, tão tristes quanto ela.

Detectava, sim, uma vidraça a mais e um céu a menos. Onde era mar, agora era muro cheio de grades altíssimas, intransponíveis. Porém, no muro, havia uma assinatura cujas letras tinham aclive familiar.

Houve um tempo em que o dono das letras não estava perdido para sempre. Houve um tempo de desaparecer sem avisos. Houve um tempo de mudar a paisagem. Ela sobrevivera a todos os tempos.

Agora, restava-lhe apenas a memória, a moldura empoeirada – janela dela! – e a sempiterna assinatura do outro no muro das grades, onde antes havia mar.

Dentro da moldura, haverá sempre uma lágrima translúcida que escorre contra o vidro da paisagem – mundo estranho e acrômico! – que ela insiste em habitar.