Alforria de Santo

Açucena chegou do rio de repente, mancabúzia e ensimesmada, como quem vem de um enterro. Período de lenta e de difícil falação aquele. Guardava já alguns dias, considerante e calada. Do quarto entrava e saía, sem gosto de mais nada.
A culpa era toda de Quirino e sua ausência de reparo. Tanto que ela gostava-se dele. Ele, nem-nem. Fazia praça nas vizinhanças e conhecia o mundo inteiro todo, só no falatório.

Açucena chegou do rio de repente, mancabúzia e ensimesmada, como quem vem de um enterro. Período de lenta e de difícil falação aquele. Guardava já alguns dias, considerante e calada. Do quarto entrava e saía, sem gosto de mais nada.

A culpa era toda de Quirino e sua ausência de reparo. Tanto que ela gostava-se dele. Ele, nem-nem. Fazia praça nas vizinhanças e conhecia o mundo inteiro todo, só no falatório. Cheio de besuntes e pernambucação, toda vez que avistava a menina, bulia na buzina da rural velha pra chamar atenção: RU, RU, RU…

E espanaviava-se a contar suas estórias sem pé nem cabeça onde ele era herói sempre e não de quando e vez. Muita sabia: jamais realizara. Mas a menina via e assim gostava. Só fazia que não. Admirada, escutava e acumulava estimação. Era o fruto proibido mais ofertado que ela já tinha ouvido falar.

Criatura aparecida. Mais novo e menos pobre que ela. Luxo ao qual não poderia se dar. Sabia que ele inda tinha ainda muito que aprender, pois a vida atrasara-se pra cobrar dele o que dela cobrara desde a infância. Trabalhante desde cedo pelo estudo e pelo sustento, ela achava graça das asneiras e meninices de Quirino.

Conseguiu aos poucos, impor o namoro à família, e à febre do rato daquela mãe que tinha. Mulherzinha desenxabida que não tinha vintém, mas dinheiro pra sapato e roupa boa sempre sobrava. De onde? Sabe-se lá Tupã. Fato é que a menina não tinha direitos e Quirino era um direito seu. Pronto. Havia quem dissesse que o rapaz não se prestava pra nada. Ela olvidava.

O importante era que ela adorava o jeito dele buzinar a vida. Botaram falação. – Essa menina está é louca! Quem já viu gostar de um rapaz mais novo, abiscoitado, que não saiu nem dos coeiros? Ela precisa é de um noivo e já botar prévia de casório. Açucena adolesceu ouvindo isto dos outros. Pretendentes lhe arranjaram logo uns três. Cada qual mais longe que o outro.

Será que a família queria que ela fosse infeliz? Será que ninguém respeitava o seu sentido por Quirino? Sem saber, as perguntas já vinham com resposta. Ele bem que lhe disse: – Se a gente não tomar cuidado, esse povo nos afasta pra sempre. E disse foi duzentas vezes no pé do ouvido dela. Ela dizia que não. Jamais. Oxênte! Sentia tanta coisa por ele que era impossível que o mundo não entendesse.

Até que um dia, Quirino precisou ir fazer praça nos longes e mudou-se de ares. Cheirou bem a maresia e gostou-se da cidade grande. Voltou mais não. Agora, era o penar de Açucena: ir ou não ir atrás dele. Ficar na vontade ou arriscar vida afora? Tinha de ir embora também. Sem ele, ficar ali era suicídio involuntário. E medo do mundo não tinha.

Adiantava o quê, acordar passar os dias e ir dormir de novo? Sem Quirino não tinha graça nem virtude. Era metade somada de menos um. Somente nele havia completação. E foi. Viajou meio mundo até lá, lugar onde ele estava de destinação. Haveria de lhe dizer umas coisas.

Mas Destino é cavalo louco em dia de tempestade e o que achou foi um acidente no meio do caminho. Ficou foi inerte da noite pro dia sem poder dizer a que veio e tendo logo de voltar. Irresignada. Era impossível exigir sacrifício daquele inocente.

 

Então, ficou no seu interior e nunca mais viu Quirino. Casou-se ela e casou-se ele que ninguém era santo e nem nada. Se eram felizes, não sabiam não. Aliás, saber muito das coisas faz é entristecer o coração. Muita reza e novena rezou pra tirar o quebranto e o banzo daquela antiguice. Todo domingo, missa. Pedia, mas o santo era devagar que só.

Fez promessa até de cartilha. E nada. Malassombro! Vigiava de dia e de noite pra que o pensamento não avoasse pra junto de “quem mesmo não devia” mas quem disse que o danado do Santo a acodia? E lá voltava a criatura a pensar em Quirino. Ele, nem-nem.

Foi a uma benzedeira: – "Bote um santinho no bolso da carteira cheiroso de alfazema pra evitar essa aporrinhação, menina!" Nada… Outra: – "Amarre um laço de fita-amarela bem apertado no pescoço do dedo-mindinho e só tire quando se esquecer do nó!" Oxente. Nada outra vez. Isso num ia dar certo. Capaz era de perder dedo e juízo.

E não houve chá nem promessa que não tomasse ou fizesse. Passou a vida em rezadeiras. Contou sua estória, ouviu benzeduras, fez delas sua doce companhia. Tem diabos nessa vida que não adianta desperseguir com a intenção. E tem cada qualidade de santo fraco das promessas e sem adiantação que só vendo!

E foi assim que se deu. Um belo dia anoiteceu na infernura do seu pensar e levantou cedo, alforriou o diabo e o anjo que viviam a lhe soprar cantilenas e foi pra junto de Quirino que viver longe dele era pior que duas mortes. Pronto! Mudou-se, enfeitou-se e hoje vive melhor que bem. Considerante até que é mais feliz que ele. O amor é sempre uma enorme companhia. O diabo que lhe perdoe, mas Quirino é fundamental. E é até mais seu agora do que antes, pois agora, tem a bênção de uma vida inteira pra botar sentido em Quirino.

Assim findaram. E o Santo, anistiado, nem sequer se deu conta.