Da Origem da Palavra Gaúcho

Nascida do desejo – como de resto todos os filhos, esta coluna alimenta o sonho de aproximar o cerrado do Pampa. Essa missão insana em tempos da ávida rapidez que a Internet nos impõe, hoje leva o leitor a abrir o poço do passado, lembrando-se de José no seu poço em que foi abandonado pelos irmãos, e do alerta de uma autoridade que, séculos depois, ousou abrir o poço para lançar seus olhos germano-brasileiros a mirarem-se no espelho d´água do passado: "é muito fundo o poço do passado…" . Nesse caso, este cronista não ousaria, como Thomas Mann, a prosseguir até o sem fundo do poço.

O direito a um nome – gaúcho, que nos parece absolutamente integrado à fala e à vida cotidiana está envolvido na bruma do passado. Este "gentílico" que hoje se usa com a maior naturalidade e a maior sem-cerimônia – nos estádios de futebo goyanos -, para designar os brasileiros da porção meridional de nosso país, tem lá estórias que valem a História. Abrir este poço poderia ser como disse Augusto Meyer "rasgar à visão interior paisagens retrospectivas, enquadradas na moldura da história".

Se seguirmos o conselho de Carlos Reverbel, lembrado na por Lígia Gomes, "nem valeria a pena gastar pólvora em chimango" e persistir nesta pendenga, e partirmos logo para o esquecimento da palavra, dedicando-nos, sim, a entender a cultura e a história do povo dos pampas, os habitantes do Brasil Meridional. Abandonando toda a sensatez do conselho, entrego-me por uns minutos a se bandear com o peão que dominou o pampa, nos idos do século XVI, quando as manadas de cavalos e éguas que, desembarcados no sul do continente em 1535, dão origem ao mito dos "cavalos de Mendonza" e a uma polêmica sobre as grandes rebanhos que ditam o rito do homem que domina a fronteira sul se habilitou com sua coragem e bravura a ser desde a origem como "gaudério".

 

É Darcy Ribeiro quem nos lembra que a figura do gaúcho traz-nos: "… uma referência constante a elementos que evocam um passado glorioso no qual se forjou sua figura, cuja existência seria marcada pela vida em vastos campos, a presença do cavalo, a fronteira cisplatina, a lealdade, a honra, a virilidade e a bravura do homem ao enfrentar o inimigo ou as forças da natureza. Mas a figura do gaúcho, tal como a conhecemos, sofreu um longo processo de elaboração cultural até ter o atual significado gentílico de habitante do estado."

O gaudério, provável predecessor do vocábulo gaúcho, designa esse homem do pampa que "mora dentro de sua camisa, debaixo de seu chapéu" é o antepassado de gaúcho, que se habilita a ganhar mais de duas dezenas de definições e sinônimos para designar quem, de origem latina, guarda a definição de "um ser de viver errante, de aventura, sem pouso certo". Enfim, um peão que "ama, acima de tudo, a Liberdade".

Mas se seguimos o conselho sábio de Aug "não cabe fazer do vocábulo (gaúcho) a carniça em que a etimologia vem dar sua bicada", nem cabe deixar que a aritmética dos idiotas da objetividade nos leve a mais de 30 prováveis sentidos (Buenaventura Caviglia Hijo ou em João Ribeiro).

Ao contrário, há que se servir da miríade de nomes e origens, beber do poço fundo, escolhendo devanear com o nome gentílico que hoje designa os rio-grandenses, colher o grão maduro da conquista de um território que se não fosse brasileiro seria, para nossa infelicidade futebolística, provavelmente, argentino.

Com essa blague futebolística e de gosto duvidoso, ouçamos assobiar o vento, o Minuano (*), sobre este poço do passado e deixemos o tempo como conselheiro sábio falar em seu lamento poético:

 

"Este vento faz pensar no campo, meus amigos,
Este vento vem de longe, vem do pampa e do céu.
Olá compadre, levanta a poeira em corrupios,
assobia e zune encanado na aba do chapéu.

 

"Curvo, o coração arrepia a grenha fofa,
giram na dança de roda as folas mortas,
chaminés botam fumaça horizontal ao sopro louco
e a vaia fina fura a frincha das portas.
Olá compadre, mais alto mais alto!
(…)
"Este vento macho é um batismo de orgulho:
quando passa lava a cara enfuna o peito,
varre a cidade onde eu nasci sobre a coxilha.
Não sou daqui, sou lá de fora…
Ouço o meu grito gritar na voz do vento:
– Mano poeta, se enganche na minha garupa!

"Ó mano
Minuano
upa upa
na garupa!

"Eu sou o irmão das solidões sem sentido…
Upa upa sobre o pampa e sobre o mar…"

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(*) Fonte: "Poemas de Bilu", de Augusto Meyer (1922).

Adalberto de Queiroz mantém o blog www.zadig.blogger.com.br

Do Paranaíba ao Guaíba

No início era a pradaria e um tropel de cavalos. A tropa e os tropeiros só
marcharam ao mesmo lado mais tarde. O brasil meridional, marcado pelo fenômeno generoso do pampa gaúcho nasceu assim com a mágica do campo e a figura do campeiro. O gaúcho.
Depois, vieram as guerras e com elas, marcada a ferro e fogo, a presença de brasileiros com direito a um nome: gaúchos.

O Brasil central, no início, era a estepe. E da estepe brotaram o ouro, a
esmeralda e o homem do campo. Com o fim das minas e dos aluviões, vieram os campos e a noção de distância (Goyaz é muito longe…).
A lua e a dolência do que sonha à distância do reino marcaram corações em brasa para brasileiros de um nome que a poeira do tempo quer apagar: goyanos.

Se as duas porções do Brasil fazem parte da sua geografia interior, você
provavelmente será um leitor dessas croniquetas. Há os rios que nos
acompanham em nossos pesares e sonhos. Há os livros, as canções e as
tradições que nos encantam e nos divertem, em nossa busca por marcar a nossa permanência no mundo

Haverá lugar para as preces e as rezas, as ladainhas e as festas, as danças e os folguedos. À promessa ao amigo Reinehr que anima o Simplicíssimo, sob a égide de nossa proximidade no espaço virtual, começo respondendo motivado pela distância geográfica, com esta primeira crônica que ressalta a dimensão mais importante desses dois braseiros (brasis) que batem ao lado esquerdo do meu peito – somos movidos pela distância.

O cronista Alceu de Amoroso Lima saudando um de meus poetas prediletos – o gaúcho Augusto Meyer, lembrava que a correspondência intensa entre os dois escribas, minguara quando Meyer rompeu a ponte Guanabara-Guaíba, estabelecendo-se no Rio. E lamenta que essas cartas "nunca mais se renovaram!"

"A distância, dizia La Rochefoucauld, é como o vento, que apaga as velas e ateia os incêndios. O amargo moralista aplicava a imagem apenas ao amor. Podemos também levá-la aos domínios da amizade."

Os fados, dizia Amoroso: com a proximidade desceram também sobre eles "a cortina do silêncio que a proximidade, por vezes, engrossa mais do que as distâncias…".

A distância nesse caso é o obstáculo geográfico entre os dois brasis, que uns poucos superaram na década de 70, como eu, quando me mudei para Porto Alegre e como muitos que vêm se mudando para a dita "última fronteira agrícola", chegando a Goyaz nos tardios 80 e que continuam fazendo até hoje.

Em Goyaz, grafado assim pela nostalgia, as nações indígenas e os negros dos quilombos plantaram um Brasil Central totalmente diferente do quadrilátero em que se erigiu Brasília.
Os que vieram em busca de um El-Dorado nunca de todo realizado não saíram de mãos vazias nem sua generosidade foi esquecida no canto dos poetas do passado que se somam ao canto dos atuais. Goiás é um pedaço do Brasil que guarda na Cidade de Goiás (antiga Vila Boa) e em Pirenópolis o melhor de nossas tradições.

E se puder aproximar os Simplicíssimos leitores dos dois gentílicos surgidos com o correr do homem no pampa e a sua presença no cerrado, nos grotões do sertão ou na distância dos banhados pampeiros – eu terei logrado criar um novo verbete que já está na boca dos meninos que freqüentam os CTG´s em pleno cerrado e dos moços que se educam nas universidades e nos cursos de extensão de Porto Alegre: repetiriam comigo: somos "goyuchos".

Da goyana terra, transcreverei poemas e canções como esta que fecha a
primeira crônica, sempre procurando cruzar o vau, juntar os dois veios d´água viva que encantam nossa gente, retratar a beleza que escorre nos seres e nos rios generosos de Goyaz – Araguaia afora, e do Rio Grande como o Guaíba. (AQ).

Goyaz (*)

Terra moça e cheirosa
(…)
Nome bonito – Goyaz!
Que prazer experimento
sempre que o leio
nos vagões em movimento,
com aquele Y no meio!

O fordinho e o chevrolet,
rasgando campos, furando matas,
vão, a trancos e barrancos,
rumo às cidades pacatas
que brotaram no sertão.
(…)
Nas pautas musicais
do arame dos mangueiros,
que gênio irá compor
os motivos dos currais,
os desafios brejeiros
e as cantilenas de amor?

Goyaz! recendente jardim,
feito para a volúpia dos sentidos!
Quem vive neste ambiente,
sorvendo o perfume de seiva
que erra no ar;
quem nasceu numa terra assim,
porque não há de cantar?

(*) Fonte: "Ontem", de Leo Lynce (1928), transcrito por G.M.Teles in A Poesia em Goiás, Ed. UFGo, 2.ed., 1983. p.299/300.