Reputação Hacker

Na Internet, como em qualquer tipo de socialidade, existe o problema da reputação. Um site de sucesso é uma página onde milhares de pessoas a visitam diariamente, e isso só acontece quando os serviços e as informações oferecidas satisfazem aos interesses de quem os acessa. Nesse sentido, estes websites têm uma boa reputação, mas para mantê-la, os administradores devem estar atentos à forma como distribuem a publicidade nas suas páginas.

Uma das formas de se ganhar dinheiro com a Internet é colocando banners de anunciantes nas páginas do website. Existem muitos tipos de banners, desde um pequeno selo até janelas pop-up, que abrem uma nova página, deixando a navegação chata e complicada.

Sempre atentos às normas de reputação, dificilmente vemos um respeitável portal com grandes janelas pop-up. O comum é vermos banners no topo, no pé e numa lateral das páginas de grandes portais, além de pequenas janelas pop-up que reaparecem a cada atualização da página. Mas mesmo obedecendo a esses padrões, as propagandas poluem o ambiente visual e ocupam o espaço que poderia estar ocupado por informação útil.

Usando os termos do Professor André Lemos (UFBA), os chamados 'portais-currais' tedem a prender o internauta incauto dentro de seus emaranhados de links publicitários levando informações banalizantes e escondendo do usuário as verdadeiras possibilidades da Internet, fazendo-o crer que Internet é aquilo que eles decidem mostrar.

A ética hacker prega um comportamento diferenciado. Os hackers acreditam que o respeito ao visitante é de importância crucial para a sobrevivência na rede.

Visando essa boa reputação vários mecanismos foram desenvolvidos para tornar a navegação agradável ao mesmo tempo em que se divulgam os produtos dos anunciantes.

Os grandes sites são famosos por terem grandes aportes de capital para disseminarem pelas outras mídias sua existência e funcionalidade. É o caso da Globo.com, do Uol, do Aol, do Terra, e mais outros poucos. Nesses portais concentram-se mais de 70% de todo capital investido na Internet brasileira, são eles que empregam os profissionais mais conhecidos do grande público e atraem para si quase a totalidade dos internautas do país. São estes portais também que ajudam a disseminar um conceito errôneo do que seja o hacker.

Diferentemente do que se divulga nos meios televisivos, cinema, rádio, etc., os hackers não são piratas de computador que passam a vida a burlar as leis do ciberespaço à cata de informações privilegiadas e enganando sistemas de computadores. Os verdadeiros hackers são, na verdade, os administradores do caos virtual. São eles que preservam as boas normas de conduta e combatem o mal uso da rede.

É preciso separar o joio do trigo. Foram os hackers que tornaram possível a Internet. As pessoas que podemos chamar de hackers, são aquelas que demonstram estar preocupadas com a segurança e a confiabilidade da Internet. Eles são os mais prejudicados com essa onda de vandalismo pregada pelas “mass media”. A má reputação que têm os hackers hoje é fruto da má distribuição da informação fora da Internet e do mal-entendido gerado por essa má distribuição. Por isso, e contra isso, é que nasceu um novo conceito de se fazer Internet, que visa exclusivamente a informação, e que seja pessoal e intransferível. Diferente do velho conceito de imparcialidade, esse novo modelo visa exatamente o contrário, o engajamento. As opiniões são pessoais e os pontos de vistas particulares. Com isso deixa-se para o internauta a decisão de acreditar ou não, de voltar amanhã ou não, de dar sua opinião ou não. Nesse novo modelo, o mais importante é o 'feedback', de forma que o leitor possa manifestar sua opinião e mais do que isso, disponibilizá-la para outros usuários. Alguns poderão dizer que isso já acontece desde os primórdios da Internet, mas digo que não com essa confiabilidade, tratamos aqui da invenção hacker mais surpreendente dos últimos anos, os Weblogs. Nos grandes portais, se você se sentir ofendido ou lesado por alguma informação, você terá como reclamar, mas não saberá se esta sendo ouvido ou não, você então insistirá, telefonará, até que seus gritos sejam ouvidos pelos responsáveis. Nesta nova acepção o feedback é imediato. Ao final da leitura é possível disponibilizar sua indignação ou elogio, não só ao administrador do site, mas para todos os visitantes, e isso sem impedir a publicidade que por ventura contenha no site.

Isso agrega valor ao website. O leitor passa a confiar na qualidade da informação do site, posto que ela é tão valiosa quanto a sua própria.

Essa nova forma de fazer Internet gerou, por parte de alguns pioneiros, o Manifesto Cluetrain a nível mundial, que defende a informação como bem público, e este gerou a nível nacional o Mídia Tática Brasil, o MTB.

O MTB foi um evento realizado em São Paulo e organizado por blogueiros que terminou no dia 16 de março de 2003. Nesse evento foram discutidas formas de inclusão digital e de ver o mundo virtual que ainda vão repercutir muito na Internet. Não cabe aqui discutir o teor dos debates e das exposições do evento, mas unicamente seu caráter alternativo e combativo da forma como as grandes empresas pensam a Internet.

Num recente artigo intitulado “the web of ends” (a rede de pontas), publicado pelos criadores do Manifesto Cluetrain, eles reforçam a idéia defendida por Pierre Lévy, onde a cibercultura é na verdade um mundo de pontas. Com isso eles querem dizer que cada internauta está no começo e no fim da rede, cada computador está ligado a outro sem a necessidade de intermédios, onde cada usuário da rede está ligado diretamente a outro. Nesse artigo ele aponta alguns erros conceituais do que seja a Internet:

1. A Internet não é complicada;

2. A Internet não é uma coisa, é um acordo;

3. A Internet é burra;

4. Adicionar valor à Internet reduz o seu valor;

5. Todo o valor da Internet cresce na sua periferia;

6. O dinheiro se muda para os subúrbios;

7. Não é o fim do mundo, é um mundo de pontas ("The end of the world? Nah, the world of ends");

8. As três virtudes da Internet: a. Ninguém é dono; b. Todos podem usá-la; c. Qualquer um pode melhorá-la;

9. Se a Internet é tão simples, por que tantos se enganam sobre ela?;

10. Poderíamos parar de fazer certos erros imediatamente.

São preocupações como estas que fazem a reputação dos hackers, esses teóricos no mundo virtual. Ações como as que culminaram num evento como o Mídia Tática Brasil fazem a reputação desses profissionais da Internet, que preocupam-se não só com o dinheiro e o conteúdo, mas com a inclusão. Acreditam num ambiente colaborativo e num desenvolvimento verdadeiramente coletivo. Acreditam na utopia de um mundo menos áspero e mais humano, mesmo através de interfaces maquínicas. Essas atitudes geram confiança e respeito, conseqüentemente uma boa reputação.

Foram os hackers que inventaram uma nova forma de fazer websites. Páginas pessoais, corporativas, de empresas, de escolas, etc., estão passando por uma reformulação existencial fantástica. Antes um site servia apenas para vender informações, serviços e produtos, com os weblogs os sites sofreram um verdadeiro 'upgrade' funcional. O site agora é um instrumento de coletivização, de comunicação direta síncrona-assíncrona.

 

*Magno Rocha edita o blógue "Que onda é essa?"