Primeiras Linhas

Pela primeira vez, não exatamente primeira, mas oficialmente é, sento neste computador e tento escrever algo de bom que possa ser lido por alguém e surta efeito (bom ou não). O intuito básico é surtir efeito mesmo, fazer pensar, fazer sorrir ou fazer indignar. Então sobre o que escrever??? Escrever sobre juventude, amor e relacionamentos seria chover no molhado. É dizer o que, por muitos, já foi dito de mil ou mais formas diferentes. Entretanto, como fugir de um assunto que toma 24h/dia do meu pensamento? Prefiro então ser uma reprise, uma edição revisada e ampliada do que já se fez do que escrever sobre o que eu não tenho base. Ao fundo ouço Milton Nascimento cantando para mim “You say goodbye, I say hello” e sua voz de anjo me faz sentir melhor, mais leve, menos vazia. Deveria ser o contrário, mas é assim. Vazio. O vazio que ocupa lugar. Este companheiro de tantas horas é o mais pesado dos fardos e não consigo conhecer alguém que o suporte. Existem aqueles que não o notam e pensam que é felicidade viver para si mesmo, livre, solto. Mas porque ninguém fala deste vazio que sentimos? Sim, eu digo “sentimos” porque é um sentimento gigantesco e geral, que nos espreita o dia inteiro e então, quando voltamos para casa no final do dia, sentamos sozinhos em um cômodo silencioso e soltamos um suspiro, ele surge. Abraça-nos fortemente, ocupa simplesmente todo o corpo e surge um mal-estar tão grande, mas tão grande que um grande palácio torna-se a menor das gaiolas e o menor dos apartamentos transforma-se numa masmorra gigantesca sem saídas. É uma vontade de não-sei-o-quê, uma dispnéia ao menor esforço, uma ânsia de se encher com doces e sanduíches e de correr a casa inteira. Os sintomas seguintes são sempre os mesmos: medo, tristeza e toda agenda telefônica é repassada atrás de alguém que queira dispensar um pouco de atenção. E os ponteiros do relógio se arrastam. Depois de 2 ou 3 telefonemas cheios de reticências e “fala-mais-alguma-coisa”, finalmente não há mais como se fugir dele. O vazio simplesmente reside na alma e perguntas vertem, não raramente com lágrimas. Por que a minha vida é desse jeito? Por que eu não consigo fazer nada para mudar isso? Por que não tenho força de vontade para seguir mantendo os meus projetos? Por que Quem eu amo não pode (ou não quer) estar comigo? Por que eu não consigo deixar de amá-lo? Por que eu não tenho direito de escolher de quem eu gosto? Por que eu sinto este vazio? Estas são apenas algumas das perguntas que nos fazemos e nunca, mas nunca mesmo, há alguém para respondê-las. Quando então, estamos exaustos desta sessão de auto-conhecimento-destruição, tentamos dormir, repetindo para si mesmo aquelas frases ridículas de auto-ajuda que aquela amiga nos ensinou. Nos dias seguintes, fazemos as mesmas coisas e, cada vez mais, tentamos encher o nosso dia com atividades e compromissos para passar cada vez menos tempo sozinhos. Pode parecer que me refiro aqui somente a adolescentes ansiosos, mulheres e homens que vivem sozinhos, porém este grupo de solitários é muito maior do que se pensa. São esposas infelizes sem perspectivas, são maridos de saco-cheio da rotina casa-trabalho-bar, entre outros casos. Gostaria de poder ajudar algumas destas pessoas, e olha que eu tento. Passo os dias rolando pela cidade, atrás de papéis e compromissos e ouço falar sempre das mesmas coisas. São preocupações diárias e pertinentes como contas, saúde, trabalho e relacionamentos. Acho tudo isto vital e, sinceramente, penso que é isto que dá sentido à vida: a continuidade da espéciae, a sobrevivência. O que me aborrece profundamente são assuntos como globalização, “chats”, namoro virtual, superespecialização, individualização. Socorro! Ora… foda-se tudo isso! Será que alguém consegue enxergar??? Todos nós estamos vivendo uma crise de carência afetiva crônica! Não me refiro a este pequeno vilarejo que é Porto Alegre, falo de todos nós, falo do mundo. Uma visível apatia toma conta dos ânimos. Pessoas cada vez menos se vêem, e quando eu falo ver, estou falando a respeito de encontros mesmo; se abraçam menos, sorriem menos, se beijam menos. Por mais que isto lhe pareça piegas, me entristecem estes fatos. Que fim levaram os encontros diários de amigos com todos aqueles abraços? Onde estão aquelas discussões fervorosas, com direito a tapas na mesa? Até mesmo os trabalhos acadêmicos em grupo… antes animados com lanches e fofocas? Todos estão mais entocados dentro de casa, mais egoístas, mais EU e menos NÓS, trocando mensagens quando estritamente necessário, vivendo nas células vitais de seus aptos. Recuso-me a aceitar este tipo de comportamento tacanha e murrinha. Exijo o retorno dos velhos hábitos. Acredito piamente que as pessoas que vivem melhor são aquelas que mais beijam, mais abraçam e mais discutem também; são aquelas que conhecem sua família, amigos e paixões pelo passo, pelo cheiro, pela maciez das mãos e pela força dos braços (e tudo isso fisicamente falando) e não pelo “nickname”, pelo telefone e outras formas mais impessoais. Seja como for, o sentimento de solidão está generalizado e cada um têm muito de culpa por seu próprio enclausuramento. Buscar respostas que nós já sabemos, mas continuamos a negar é estupidez. O apoio de livretos e frases é ilusório e temporário como uma hipnose. É como me disseram uma vez: a vida é um fio de cabelo liso, a gente é que fica fazendo voltas. Tornar-se útil, humano e passional, este é o único caminho que EU conheço. Do resto nada sei.

Balde de tinta

E de todas as coisas que se faz, a mais importante de todas é a que se está fazendo no momento. Nada é tão importante como comer, quando se está com fome; nada é tão essencial quanto dormir, quando se está cansado. É preciso fazer o presente momento com tanta perfeição que, quando olharmos para trás, termos a certeza de ser ter feito o melhor possível. Muitas vezes nos dedicamos à uma obra, se gasta tempo, esmero e talento, e quando tudo parece encerrado, e tudo está como queríamos, acontece algum imprevisto e, como uma tempestade, desmoronam todos os nossos castelos num piscar de olhos. Não é culpa de ninguém, simplesmente acontece. E não é uma, nem duas vezes que isso acontece… tantas e tantas. Agora mesmo acabei de gastar a minha manhã de segunda feira pintando um cartaz de 3,5 x 1,2m, que havia ficado uma beleza. Do além, surgiu um colega que, entrando estabanado na sala, chutou, sem querer, um pote de tinta aberto que estava perto da faixa. Não preciso explicar o que aconteceu, vocês imaginam. No momento senti uma angústia imensa de pular no pescoço do rapaz e para enchê-lo de tapas, mas seu semblante apavorado não permitia. Sentiu-se tão mal e desculpou-se tantas vezes o quanto pôde. A culpa não era dele, apenas estava distraído e de maneira alguma imaginaria tal pote de tinta no seu caminho. Poderia ter-lhe dito para que olhasse por onde andava, mas quem de nós olha. Preferi ficar calada. Observando o novo tom de arte moderna da minha obra-prima. Olhei tanto que chegou a doer, mas a culpa era minha. Enquanto os rapazes faziam um remendo no borrão para consertar, eu catatônica sentada no chão. Não havia feito o meu melhor e estava me sentindo mal por isso. Era meu dever ter fechado aquele maldito pote e mantê-lo afastado do cartaz, mas… que raiva eu senti naquele momento, raiva própria. Comecei meu auto-aprendizado. Alguns que leiam este texto, (se é que alguém vai ler) podem achar um assunto banal escrever sobre um singelo borrão de tinta. Não tiro a razão de ninguém. Sofremos do mal de esperar a gota d’água para entornar o copo. Para mim, serviu como esta gota. Espero que este texto seja a gota para alguém. Façamos o nosso melhor possível.