ÊNIO

 Arrimo de família, o Ênio luta com dificuldade de dar pena. Esfola-se, o pobre, pra conseguir levar pra casa um quilo de acém ou de fraldinha de quando em quando pra misturar com a farofa. Mas nem sempre foi assim. Tempo houve em que o Ênio era notório esbanjador em questões monetárias.

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AMANTE MANTIQUEIRA

 Do meio da escada rolante, na grande cidade cinza, galopo mentalmente nesse azul esverdeado que é todo teu, Mantiqueira. Vou me encardindo em teu musgo, devasso tua vastidão, perdidamente me encontro em teus cipós e veredas. E já tão verde quanto és, me camuflo do mundo e me soldo contigo, no enlace fecundo entre o animal de mim e o vegetal de ti.

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NO CENTER DO SHOPPING

Meus irmãos, as negociações da venda da fazenda para a construção do shopping entraram num impasse sem solução à vista. Ainda que a gente tenha metade da propriedade, o pai é dono dos outros 50%, e pra complicar ele ainda tem o usufruto da casa-sede.


O velho continua batendo o pé dizendo que não sai da casa de jeito nenhum, mesmo que tenha que desviar da fila do Mc Donald’s pra tirar leite das vacas.

 

31 DE DEZEMBRO DE 1999 (EPISÓDIO QUASE AUTOBIOGRÁFICO)

 Um dia de outono de 1981, último ano do colégio. Estava sentado na minha carteira, fingindo que não prestava atenção no pacto que ali, ao meu lado, se selava. Lá na frente, o professor de matemática falava para as paredes. 


– Fica combinado, então. Nós cinco.
– Aconteça o que acontecer, tem que estar todo mundo lá.