O corvo

Numa meia-noite sombria; tristemente refletia sobre um velho livro debruçado; velho livro de um saber já esquecido e quase adormecido, pois tão aflito e cansado me encontrava pelo monótono passar das horas; quando, de súbito, um barulho me espanta e uma lembrança há tanto tempo guardada, eis que me retornava com uma surda pancada.

de Edgar Allan Poe
por Virgínia Allan

Numa meia-noite sombria; tristemente refletia sobre um velho livro debruçado; velho livro de um saber já esquecido e quase adormecido, pois tão aflito e cansado me encontrava pelo monótono passar das horas; quando, de súbito, um barulho me espanta e uma lembrança há tanto tempo guardada, eis que me retornava com uma surda pancada. Do sono assim despertado, busquei conter a ânsia e fiquei a pensar comigo: “Quem bate assim tão tarde? Certamente, há de ser um amigo, que, aflito, me pede abrigo e a minha porta bate; devagar. Sim, não duvido mais; é apenas isso e nada mais”.

Ah! Lembro-me claramente, era no melancólico Dezembro e as rubras chamas que na lareira ardiam, enchiam o chão de sombras desiguais. Sofregamente, pelo amanhecer esperava e, em vão, nos livros procurava aliviar a minha dor; dor atroz por meu perdido amor Lenora, que cedo a morte levou embora, deixando-me só neste vale de dor. Seu nome eu repito ainda nas noites infindas em que busco esquecê-la. A bela e radiante donzela, a quem os anjos, por inveja levaram, para com eles os céus voarem e juntos, outros sonhos velarem. Bela e radiante donzela, a quem no céu chamam Lenora, mas que aqui, ninguém não tornará a chamar, jamais.

E as púrpuras cortinas de seda com terríveis incertezas me surpreendem; enchendo-me de fantásticos pavores nunca d’antes sentidos. O coração, rápido batendo, tento acalmar-me, dizendo: “É apenas um amigo que está a bater em minha porta; devagar. Talvez cansado e não encontrando abrigo em minha morada pede entrada. Vamos à porta e então vejamos, quem em hora tão tardia, vem encher-me a alma de agonia. Sim, vamos à porta e não duvidemos mais, há de ser isso; e nada mais”.

Mais calmo e não hesitando um só instante, falei ao visitante que do lado de fora me aguardava: “Senhor”, disse, “ou senhora, se há muito me esperais, perdão vos imploro, de fato, encontrava-me quase adormecido, quando, gentilmente batestes; mas ai, de pancada tão leve, logo não me dei conta”. Abruptamente então, a porta; abro, mas a ninguém encontro; há somente a escuridão me assombrando a solidão…; escuridão e nada mais,.solidão somente e nada mais.

Na escuridão, procuro uma resposta a minha indagação. Sondo a noite fria e vazia, como num sonho nunca sonhado. E ainda pensando no acontecido, tremo ao ouvir um gemido…; um nome; Lenora; dito quase em sigilo, mas que o eco, na escuridão, Lenora, Lenora, Lenora… devolve aos meus ouvidos; apenas isso e não mais, apenas isso e nada mais.

Com a alma ardendo, no quarto torno a entrar e novamente ouço a pancada, mas desta vez não mais na porta de entrada e sim na janela de vitrais. A alma recobrada; repito para mim num doce alento: “É só o vento que sopra lá fora e barulho faz nos vitrais; é o vento, não há de ser mais, apenas isso e nada mais”.

Lento, mas, decidido, à janela me dirijo e eis que ao abri-la algo entra voando; é uma negra ave que, sem cerimônias, sobre o busto de Pallas, que há no alto da porta, pousa, e lá fica, sombria e hirta, deixando-me pasmado; tomado por maus presságios. Pousada fica a negra ave, sobre o busto de Pallas, no alto da porta, lá, pousada fica e nada mais.

Ave de mau agouro, o negro corvo, no busto de Pallas empoleirado, observa-me de soslaio. Eu, criando coragem, deixo de lado o espanto e encaro o inesperado visitante. Sorri, ao imaginar que notícia me traria; Assim, vencendo-me a curiosidade, pergunto a negra ave: “D’onde vens, ave intrigante; qual o teu nome no inferno em que habitais?; Por que em minha porta bates e traze-me teus ais? Fala comigo oh, negro corvo; que de tão quieto sobre o busto de Pallas pousado, me deixas ensimesmado”. Porém, o corvo, deveras quieto, com uma voz vinda de longe, apenas me responde: “Nunca mais”.

Maravilhou-me a ave falante, elegantemente pousada no busto de Pallas, “que há por sobre os meus umbrais”. Entretanto, pareceu-me estranho tal arranjo; posto que uma negra ave, saída de dias bem antigos me desse ouvidos e seu nome respondesse como “Nunca mais”. Apenas isso, falou a ave medonha, e não disse mais; apenas isso e nada mais”.

Outra coisa realmente não dizia a ave sombria, ainda pousada sobre o busto de Pallas; a alma, tristemente espelhada naquelas duas palavras. Um certo orgulho emana da ave maldita e com admiração pego-me desejando que o corvo não me deixe mais: “Amizade; amor…, tudo se vai e esta ave, que por ora me faz companhia, ao raiar da aurora, também irá embora”. Disse o corvo; “nunca mais”.

Não é sábia a negra ave; duas palavras apenas…talvez, uma desgraça acontecida que não pôde jamais ser esquecida.. ou quem sabe, um dono descuidado lhas houvesse ensinado por desditosa sina ter padecido e o seu fardo, por demais pesado; com a negra ave, repartido, dizendo sempre “nunca mais”.

Um sorriso, pela segunda vez, aos meus lábios aflora, mas o peso dessas palavras deixa-me a alma acabrunhada; aos tropeços, sento-me em uma poltrona, de frente para a negra ave, pousada no frio busto de Pallas. Com algum secreto fim veio esta ave até mim repetindo incansavelmente este monótono; “nunca mais”.

A negra ave queima-me com seu olhar, e eu, mudo, pensando no que fazer, reclino-me na almofada da poltrona aveludada de minha saudosa Lenora. Aonde ela, outrora, a cabeça delicada repousava, somente a luz agora suavemente cai; “Amada, aqui já não estais, mas teu nome, de minha boca não há de sair, ah, nunca mais”.

Repentinamente, no ar, sente-se um cheiro perfumado, como se anjos alados do céu descessem e com turíbulos dourados minhas penas desvanecessem. “Miserável”, enfim exclamo, “Deus de ti se compadece e do céu manda os seus anjos para te livrarem de teus ais, vamos, esquece; esquece de Lenora” mas, o corvo disse: “nunca mais”.

“Profeta, profeta infernal, diz-me afinal, por que deixaste os infernos e aqui vieste me atormentar com teu grasnar mortal, maldita ave negra, saída da escuridão, diz-me então se para mim existe um bálsamo; imploro-te pela verdade, existe um bálsamo em Galaad? E o corvo disse: “nunca mais”.

“Profeta, profeta infernal, ave imortal; para o céu elevo o meu pranto e por Deus eu clamo, falai a verdade a esta alma sofrida, que por uma infeliz donzela que no Éden habita, sofre as piores aflições”. Porém, o céu nada responde, apenas a negra ave, em seu grasnar agourento, atende aos meus lamentos repetindo as palavras fatais… ai”.. Disse o corvo, “nunca mais”.

“Maldita ave, de mim te afastai”. Com a alma inflamada, ergo-me transtornado: “Sai, demônio, volta para a tempestade; para os quintos infernais; nada de ti aqui reste nem uma só pena que ateste a tua vil presença; sai; voa daqui desta porta, ave aziaga e não mais volta”. Disse o corvo: “nunca mais”.

E lá ficou o corvo sombrio, no busto de Pallas pousado. Vejo-o ainda, parado, seu terrível olhar em mim, fixado, como se o demônio dentro dele morasse e os sonhos, todos mortos, jamais retornassem por causa da negra ave. A sombra, que no chão se reflete, causa-me pavor, pois minha alma atormentada da sombra é prisioneira, e ah, terrível certeza, libertar-se-á… nunca mais.