Liquidação

 Hoje é dia de capitular decisões, esquentar os pés gelados, de ver como abracei a felicidade adiposa e acomodada que tanto detestava. Sou um burguês pleno, bem alimentado, bebendo delícias proibitivas a homens de pouca fé no capital. Indispensáveis prazeres soporíferos. Falsa estabilidade. O hoje como único elemento formador. O amanhã pouco importa. Já desisti de me preocupar.

 

Lembro dos beijos quentes, dos cabelos cheirosos, das transas maravilhosas. Da entrega total. É quando somos mais animais que encontramos uma felicidade pura, bestial e torpe. É do que não conseguimos abdicar. 

 

EXCLUSIVO: DILMA DIZ QUE ADORA SE MASTURBAR

 

Quanta vergonha, quanto pudor. Pecado demais pra pouca oração. Muita conversa pra pouca melância. Um jato na barriga. Grito na madrugada. Socos, muitos, até sangrar. Vomita mas não para. Passe mal de excesso mas não passe mal de fome. Derrame, provoque. Pilhe. Uma franquia de jornalismo marrom.

 

Mulher morta à machadas na Vila Verde. Homem esviscerado no Cabana. Violência gratuita custa 25 centavos na banca. E muito choro e ranger de dentes pela madrugada. Se o preço da cerveja não subir, tá valendo. O meu umbigo eu quero em malte. Os ladrões não vão entrar. Sorria. Tá tudo garantido lá na importadora.

 

MEDUSA AGONIZA: “NUNCA PENSEI QUE CHEGARIA NESSE PONTO”

 

Chegou como um tufão. Foi dominando tudo com seu charme malicioso. Não deixou nem um bilhete. Um beijo no espelho. Um agradecimento ou um palavrão. Só um lençol manchado, alguns hematomas, um punhado de boas lembranças e uma cicatriz. Tá de bom tamanho. É mais do que normalmente se tem. Gosto de baunilha queimada na boca.

 

Baforadas de fumaça cara. Cheiro de madeira. Retrogosto de frutas secas. Brincadeiras de sentidos. Passe a geléia de pimenta, vá. Façamos uma oração pra Ogum. Deixa a gira girar. Chega aqui, tenho as melhores más intenções do mundo. Prometo que não vou prometer. Expectativa vence rápido. Melhor a dúvida que a mediocridade certa.

 

EM VITÓRIA: MENINO DE 6 ANOS BEBE 10 DOSES DE WHISKY POR DIA

 

Já não fico alterado, não. É carne – e gordura – demais. É falta de vergonha. Uma certa canastrice. A gente só funciona na base da desgraça. Ou nem assim. Tá fácil pra muita gente que eu conheço. A minha parte eu quero em ouro. Mercado futuro. Faz-me rir. Melhor aplicar tudo nos vícios de sempre. Previsível, basta aceitar. Ou dar murro em ponta de arma.

 

Quando explode, passa batido. Atravessa a alma como pudim. Daqueles de caixinha. Deixa um belo estrago lá dentro. Dizem que não cura jamais. É verdade, posso atestar. Mezzo calabresa mezzo siciliana. Licor de limão doce até a morte. Criancinhas enrolando charuto. Um mosaico de estupidez. Vigas fincadas no concreto.

 

ARTE CONTEMPORÂNEA: NA MINHA MÃO É MAIS BARATO

 

Quero deixar pingar até escorrer tudo. Vai lambuzar o caminho todo. Depois a gente se vira. O que vier eu jogo pimenta. É uma delícia quando queima. Chupe. Engula. Olha pra mim. Você fica linda desse jeito. Melhor o torpe que a negação vagabunda. Vi quando tocou os pés n’água. Parecia um animal amedrontado, tremendo de frio. Filhote perdido no rio. Minutos de indiferença eterna.

 

Atitude dá pra comprar na internet. Divide em 12 vezes. Entrega rápida. Ganha um perfil fake de brinde. Pegou tudo que detestava, acumulou ao longo de 24 anos. Queimou todas as reminiscências com bourbon. Ainda assou um queijo coalho por cima.

 

DEUSES EM LIQUIDAÇÃO: COMPRE 3 LEVE 5

 

Exorcizo te, omnis spiritus immunde, in nomine Dei / Patris omnipotentis, et in noimine Jesu Christi Filii ejus, Domini et Judicis nostri, et in virtute Spiritus

 

Tudo em vão. Deu 7 tiros. Errou 4. A capivara saiu cambaleante. Agonizou durante uns 10 minutos até morrer. Só por diversão. Ajuda a amenizar o tédio. Nunca iria atingir aquilo novamente. Foi embora com um sorriso canalha e os pés sujos de lama.  

Breviário

 A vida é um trocadilho ruim ancorado num café vencido. É cerveja barata com pão embolorado. Um exame de colesterol. Saudosismo eterno, espera infinita, ansiedade atroz. Palavras calculadas na madrugada. Uma ligação indesejada. Falso querer. Gostar forçado. Saudade inexistente. Pornô vagabundo na TV. Canelas doloridas. Atualizações irrelevantes.

 

É perder quem se ama pelo cansaço, pelo desleixo. Não ver as sobrinhas crescendo. Saber do seu pai definhando, sua mãe com depressão. Não fazer nada. Um pigarro contínuo. Self-service lotado. Bolhas. Dengue. Acumular gordura. Gozar com raiva. É elencar banalidades cruéis. Se alimentar de pequenas conquistas.

 

É um constante fingir que nada disso tem importância. O sono interrompido. A boca seca. Dor permanente. Exercitar a indiferença. Chafurdar no clichê. Comida estragada na geladeira. Preguiça. É uma coroa de flores onde não deveria estar. Um clister. Uma letra amarga numa terça fria. É a culpa, o horror, o nada. Um passo em falso. O fim súbito.

 

One of these days

  Hoje é um daqueles dias soturnos, estranhamente débeis, que passam como o desenrolar de uma trama kafkiana escrita por um prosador de quinta categoria. Um daqueles dias comuns, na verdade. Quando você se dá conta de tudo de errado que fez para si mesmo nos últimos anos – e sempre é muita coisa, peso demais, escorregões demais. Desleixo. Apatia. Um daqueles malditos dias saudosistas que servem apenas para você ter a certeza eterna de que a nostalgia não resolve coisa alguma, só piora. Tem o cheiro doce do que foi bom, apodrecendo diante dos seus olhos. Um daqueles momentos que você se dá conta – por estar sempre tentando evitar – que sabe que nada mudará de manhã, que um dia após o outro também pode tratar-se apenas de mais angústia.

 

É um daqueles dias bobos em que você questiona tudo. Em que ousa observar com transparência o que sua vida realmente se tornou. É um daqueles dias, meu amigo, que acontecem sempre. Quando se tem plena consciência de todo escapismo, todo analgésico, todo paliativo que se tornaram a fundação da sua existência. É uma droga para relaxar e outra para curar o estrago da primeira. Um daqueles dias que você sabe que nada adianta. A dor não vai passar, nada irá se resolver. Em que há o vislumbre da desgraça por vir. Em que é necessário se proteger da chuva que não vem. É um daqueles dias covardes. Que você não vai cortar ninguém em pedacinhos. No máximo vai espalhar sua raiva por alguma rede social.

Um daqueles dias que você acorda com a cara enrugada, o sol castigou a moleira, a vista cansada, exalando álcool como um alambique. Daqueles vagabundos, mas honestos, que ficam no meio de um canavial, perto de algum rio barrento do interior. É um dia estéril, repleto de clichês. Que se retro-alimentam na infindável sensação de retorno. Em que você deixa uma xícara de café suja na mesa, mete uma bala de canela na boca e vai se refugiar num lugar qualquer. Ainda que prazeres esporádicos apareçam, há a onipresente certeza: o mal nunca acaba. 

 

50

 Acordou com aquele gosto característico de guarda-chuva na boca. Amargo, metálico, desagradável. Que insiste em continuar não importa o que se faça. Sequer tinha bebido muito. A grana, que rareava, o obrigava a tomar coisas mais baratas, vagabundas. O conhaque descia rasgando, destruindo a parede da garganta. As ressacas eram cada vez piores e mais demoradas. Já fazia tempo que não prometia que não faria isto novamente. Faria. Hoje mesmo. E muitas vezes mais. Tinha cansado de se enganar. Aceitava os vícios com a resignação de um cachorro.

 

 

Pegou a última cigarrilha do cartucho. Acendeu cambaleante enquanto esquentava um café forte do dia interior. Era o desjejum. Completo com duas torradas com geléia de pimenta e um pedaço de pão de cebola. A geléia era ele mesmo que fazia: pimenta malagueta, biquinho e habanero. Açúcar mascavo, amido de milho e água. Mexia até dar o ponto. Só o cheiro já servia para desobstruir.

 

 

Enquanto saboreava o primeiro cigarro e o primeiro café do dia olhava para a ainda deliciosa bunda da esposa deitada na cama, desfrutando o sono de uma boa foda como há tempos não tinham. Não era só a idade ou o comodismo, os problemas banais de uma vida comum como a da maioria. A falta de tesão de um pelo outro, a inevitável rotina, as idas e vindas, as brigas homéricas. Tudo convergia contra a relação. E o sexo agonizava. Quando acontecia, era aquela transa quieta, protocolar. Sem cheiro, sem gosto, sem lambança.

 

 

Aquele dia não. Depois de uns bons 7 anos ignoraram todas as frustrações e treparam como se estivessem apaixonados novamente. Como dois animais sedentos. Uma volúpia desenfreada, com tudo que gostavam mas tinham deixado de fazer. Silvia gozou 3 vezes. Carlos adorou sentir a cama encharcada, podendo dormir no gozo gostoso de sua mulher. Por um momento se sentiram conectados. Um momento Primal Scream em meio a muito Nick Drake.

 

 

Quem foi ensinado a não vomitar pela janela…

 

 

Quem foi traído pela equipe autorizada…

 

 

Quem se apaixonou pelo suporte técnico…

 

 

Quem dormia para evitar a realidade…

 

 

Quem foi abandonado na porta da escola…

 

 

Quem deixou a comida estragar…

 

 

 

 

Carlos não gostava do que via. Os pelos brancos e as camadas de pele sobressalentes. A barriga proeminente e as dezenas de marcas no rosto. A virilidade já não era a mesma. Tampouco a paciência e a vontade de se cuidar. Era contador. E apesar do serviço não ser exatamente a coisa mais empolgante do mundo, dava um dinheiro razoável no fim do mês. Razoável se não gastasse mais com putas do que deveria. Pouco importava, pensava ele. Seus amigos também não estavam muito bem. Um ou outro conseguia manter aquela felicidade adiposa e soporífera que conhecera tão bem.

 

 

Claudia se virava como professora de história. E não resistia a devorar alguns alunos mais chegados. A faculdade estava repleta deles. E ela aproveitava com gosto. Ainda era bela, 10 anos mais nova que Carlos, com os seios consideravelmente rijos, pernas grossas, uma bunda de fazer inveja a muita menininha. E, sobretudo, sabia usar muito bem os trunfos que tinha. O casamento, para os dois, era mera convenção. Cada um fingia não saber da vida extra-conjugal do outro. E estavam bem assim. Se gostavam, o ciúme não existia e já não tinham vontade alguma de passar por todos os trâmites de uma separação.

 

 

As famílias eram ordinárias como todas as outras. Um sogro bonachão, uma sogra problemática, 1 ou 2 primos viciados em cocaína, cada um curtindo sua decadência mais ou menos explícita. Carlos gostava de se reunir com os amigos de sempre no boteco de sempre. A vida não era ruim. Só prosaicamente besta.

 

 

Não tiveram filhos. Trabalho demais. Dinheiro demais. Eram melhores no seu egoísmo. E o mundo já tinha gente o suficiente, afinal. Sempre viviam com aquela expectativa risível da classe média em sair da metrópole e viver numa gostosa cidade do interior. Nunca aconteceria. E sabiam que, se fossem, seriam infelizes. É a expectativa da coisa em si que alimenta uma utopia agradável, não a sua realização.

 

 

Eu sei exatamente o que fazer comigo mesmo…

 

 

Tudo está destruído e não há nenhuma vontade em consertar…

 

 

A fumaça desaparecia no horizonte…

 

 

Dois gatos copulavam no andar de baixo…

 

 

A chuva caía fina, uma música desagradável vinha não se sabia de onde…

 

 

Se sentia realmente enfarado do amor…

 

Carlos olhava com graça um casal de namorados na janela em frente. Na TV dos dois algum faroeste italiano podia ser perceptível. Uma garrafa de pinot noir estava derrubada em cima da mesa. O fumo acabava. Foi dormir. Estava prestes a completar 50.

Consciência

O que não consegues compreender é que, para mim, não existe vida sem inteligência. Ou melhor, não a inteligência em si, por que, como poderíamos defini-la e mensurá-la? Mas a consciência das coisas. E isto, como tudo que é grande na vida, não se calcula ou estabelece, se sente. É um constante sentir, um constante observar. Há, claro, a inteligência para viver miseravelmente, o instinto de sobrevida que nos assola, a resignação inescapável. Assim como o tato para as coisas pútridas, o sentimento para o que é feio, bruto, indizível, cruel, ausente de justiça. Pode-se compreender tudo isto: até aceitá-las, praticá-las, amá-las.

A existência pelo instinto de existir pode ser bela. A exemplo da força amorfa que me provém o sustento também o é. E pode-se existir verdadeiramente sem esta consciência. Claro, seria tolo se não o admitisse. Estas pessoas podem possuir uma vida infinitamente mais real, feliz e agradável que a minha. 

Todavia, é curioso que não as invejo. E não as invejo porque já apreciei as duas variáveis: o campo e a cidade, o quente e o frio, o duro e o confortável, a ruína e o reconhecimento, a indiferença e o amor, o pai e a mãe. Já entreguei-me ao erro e ao ponderado, ao torpe e ao sóbrio, à violência e à mansidão. Pode-se existir ativamente com tudo isso, mas não se pode viver. Só se vive com a consciência. E por isso se sofre, se indigna, se revolta, se busca, se constrói. 

Só a consciência nos permite apreciar as infinitas facetas do universo. Ela, apesar de olhar feito, é também o olhar inocente, aguçado. 

 

Nu

 Gradual. Progressivo. Inevitável. Quando algo tem a faculdade de lhe envolver…não era como queria começar.

 

Esperara muito por aquele dia. Há semanas, não conseguia sequer dormir direito. Era atacado por “ondas”…ondas que não sabia explicar, porém reais, intensas e inquietantes. A idéia crescia dentro dele. O incomodava, até. Como um chamado que se recusava a atender. Uma obviedade que fingia não existir. Todo o tempo…todo o tempo, pensava. Já havia desistido, na verdade. Achava que…

 

Estava errado. Como adorava estar errado, vez ou outra. Ou, ao contrário, o receio de estar certo era tão grande que postergou o momento. Sem nunca deixar de ser tocado, contudo.

 

Então ele se despiu de todo receio, toda dúvida, toda hesitação. Queria ser devorado pela vida. Ao mesmo tempo em que a degustava com notável ímpeto: lento, plácido, frenético ou voluptuoso, no ritmo que desejasse.  

Procrastinar

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Procrastinação é uma puta palavra feia. Mas dentre aí o câncer, o barulho, o tráfego e a estupidez coletiva, está entre os males do século. Sofremos muito mais pela ideia de ter que fazer algo, do que para fazer a coisa em si. Somos mestres da auto-flagelação e nem percebemos e/ou não conseguimos combater.

Quisera eu alcançar este estado de espírito tão elevado para conseguir sofrer só com o que realmente mereça. Com frequencia me sinto enclausurado na própria apatia. E não há "remédio" – seja ele qual for – que dê jeito. É tudo perfumaria: de preferência com lúpulo, gengibre, pimenta e canela.