CATEDRAL SUBMERSA

Devaneio ao som de La Cathédrale Engloutie, de Claude Debussy.

A verdade é que a lenda de lenda não tinha nada, pois juro sobre a Bíblia que vi a catedral engolida pelas águas, com suas ogivas góticas, seus altares e seus dezesseis sinos mudos há séculos.

Ali jaz, até que razoavelmente conservado, o sacerdote de então. Ia com a missa pela metade, já que a história nos dá conta que estava na homilia quando as águas o calaram. E foi-se de estômago cheio, pois regalou-se na véspera com iguarias da Irlanda e vinhos da Normandia, trazidos por um fiel recém-chegado do velho mundo. Apesar do desencarne com o apetite satisfeito, trazia a testa franzida, como se advertisse os fiéis do dia do juízo final. Não muito longe da batina, pequenos peixes iam e vinham virando as páginas de um missal, com fecho folhado a ouro. Confessionários de ponta-cabeça, tomados por corais, bailavam sem gravidade, levando de vez em quando trombadas de tubarões. Um caco de vitral, do quinto mistério do rosário, prendia na areia a conta de água do mês. Paga após o vencimento, com multa e juros de mora.

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Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.
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MC LUA INFELIZ

– Meta-se com o seu foguete que eu sei o que estou fazendo. Um dia, milhares de manés californianos, metidos a inventores como você, tentarão copiar a minha receita e não conseguirão fazer igual. Pode apostar.

– Bom, igual não vai ficar mesmo. Ruim assim, vai ser difícil. Por que não abraça um projeto maior, com alguma chance de futuro, meu caro? A corrida espacial está só engatinhando, e temos literalmente um universo de possibilidades para explorar. O primeiro desafio é a lua, e os engenheiros da Nasa certamente vão cair de quatro com o projeto do meu foguete. Olha só a maquete… não é linda?? Mal posso esperar a hora de vê-lo rasgando o céu.

– Lançamento por lançamento, fico com o meu em terra firme. Melhor uma McOferta na mão que dois foguetes voando.

– É, amigo, vejo que um abismo nos separa. Minha ambição está nas estrelas, e a sua numa chapa quente e cheia de gordura. Triste.

– Pois fique sabendo que seus astronautas levarão Big Macs desidratados a bordo para comerem na viagem. Isso se conseguirem sair vivos da plataforma de lançamento, porque é bem capaz da sua geringonça explodir antes do fim da contagem regressiva.

– Pense bem, homem. Hamburguerias e sanduíches como esse que você imagina eu conheço dezenas só aqui em San Bernardino. E com belas mocinhas de pernas de fora, que andam de patins servindo os carros, o que não é o caso da sua modesta baiuca. E esse nome, então, McDonald’s? Diga-me qual o sentido disso? Seu nome é Ray Kroc, caramba. Você poderia ao menos batizar seu “come-e-morre” de Kroc’s Burger, lembra comida crocante, não é mesmo? Se bem que, para ser bem sincero, esses seus hambúrgueres mais parecem umas borrachas com gosto de sabão de coco. Jamais permitiria que algum dos meus astronautas se aproximassem dessa gororoba insossa. Eu teria que abortar a missão em consequência de diarréia coletiva.

– Bom, em primeiro lugar você precisa achar quem queira se aventurar nessa lunática empreitada, pra depois se preocupar com uma improvável disenteria, não acha? Meus ingredientes serão todos selecionados, de fornecedores exclusivos. Particularmente, confio muito mais nos automovinhos de plástico que vou distribuir de brinde com o Mc Lanche Feliz do que na performance do seu foguete espacial.

– Você é mesmo um caso perdido, Ray. Se me permite um último palpite, essa mistura de sanduíche com batata frita não vai dar certo…

Hoje, uma das mais controvertidas teorias da conspiração sustenta que o homem nunca foi à lua e que tudo foi armado em um estúdio fotográfico chinfrim pelo governo americano. Por outro lado, se fossem dispostos em fila, os Big Macs vendidos até agora no mundo somariam várias vezes a distância da Terra à lua.

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Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.
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LIQUIDIFICADOR JETMASTER SUPERTURBO 3 VELICIDADES

  

O fato é que John Boy Walton mal conseguia disfarçar seu entusiasmo com algumas das partes palpáveis de Tetê, aquela que sabia demais e não viu que o tempo passou, ainda que continuasse em ótima forma dentro do seu biquíni de bolinha amarelinha. Há tempos os comunistas deixaram de ser uma ameaça, de maneira que compra-se uma Rural Willys zero quilômetro nos revendedores autorizados com apenas alguns ordenados ganhos – contanto que esse ordenado seja de piloto da Panair, de delegado de polícia ou de funcionário de carreira do Banco do Brasil.


POR ONDE ANDARÁ?

 Rara é a semana em que não me abordam na rua para perguntar sobre o paradeiro de Ditinho Puxa-Uma-Perna, figura que já foi assunto de crônica minha no final de 2009.

 
Levando em conta o apelido do Dito cujo, é óbvio que o seu paradeiro não pode estar muito longe, mesmo tendo-se passado três longos anos desde a última vez que o avistei, engraxando o sapato da outra perna.

UNIVERSO PARALELO

 Naqueles dias, o fake do Todo-Poderoso botou as manguinhas de fora e resolveu criar seu universo genérico, plano que acalentava há tempos. Pode-se argumentar que o termo "Universo", significando "todo, inteiro", não poderia comportar uma outra versão, qualquer que fosse ela, sob pena do vocábulo cair em descrédito. Mas não é a essa questão etimológica que vamos nos ater, pelo menos neste despretensioso relato.

 

LIÇÕES DE SATURNO

Há muito mais para se ver em Saturno além de seus estonteantes anéis. Tudo bem que flanar por eles, admirando seu colorido e sua plasticidade cósmica, é passeio obrigatório de qualquer ser humano em sua primeira viagem ao vizinho planeta. Os preços dos pacotes para lá, aliás, nunca estiveram tão convidativos. Mas a verdade é que os saturnianos têm muito a ensinar a nós, terráqueos, especialmente no que diz respeito à sustentabilidade coletiva.

A mesma lógica que tivemos ao conceber os edifícios de apartamentos, onde várias moradias se acomodam umas sobre as outras ocupando um só terreno, os saturnianos adaptaram às mais diversas aplicações cotidianas. E muito provavelmente a disposição dos seus anéis concêntricos e alinhados, dádiva natural do planeta, inspiraram as inovações ali implementadas.

É sabido que, embora muito maior que a Terra, Saturno padeceu durante milênios por problemas de espaço devido à alta densidade populacional. Mas a engenhosidade extra-terrestre criou prodígios estruturais capazes de intrigar nossos mais audazes inventores.

Para conhecer alguns deles, comece alugando um carro. Você verá que, mesmo na hora do rush, engarrafamentos inexistem. Para cada via expressa ou rodovia construída em terra firme (ou Saturno firme), eles empilham oito outras sobre ela. O resultado é um trânsito tranquilo, seguro e fluente, a ponto de algumas das pistas nem serem ocupadas totalmente pelos carros, o que faz a delícia dos satúrnicos teens e seus skates.

O sistema viário é um dentre muitos exemplos. Também a agricultura e a pecuária tiveram suas áreas multiplicadas por dez, vinte e até trinta, seguindo o mesmo princípio de empilhamento. Placas de solo especialmente formuladas para as lavouras e criações bovinas são produzidas da mesma forma que as nossas placas de grama, que cultivadas em viveiros são posteriormente transplantadas para seus lugares definitivos. A diferença é que tais placas de solo possuem pelo menos 4 metros de espessura, para suportarem o enraizamento das plantas e também o trânsito de agricultores e tratores sobre elas, quando suspensas. Assim, sobre um mesmo espaço, temos uma área aproveitável dezenas de vezes maior – permitindo inclusive que culturas diferentes sejam lavradas simultaneamente, e tal diversidade é um ótimo negócio para o homem do campo de Saturno. Entretanto, um problema ainda desafia os agrônomos siderais: algumas colheitadeiras, excessivamente pesadas, acabam por envergar e romper a placa de solo por onde passa, provocando um efeito-dominó sobre as placas abaixo dela. Árvores robustas e altas, como as sequóias, são utilizadas como colunas de sustentação entre um pavimento e outro. Ou seja, a concepção é totalmente ecológica e prioriza o aproveitamento da água: a rega do andar de cima, ao escorrer, faz as vezes da chuva para o andar de baixo e assim sucessivamente, até chegar ao solo propriamente dito.

Com estas e outras tecnologias, o bem-estar social é tamanho que Saturno vive hoje um Baby-Boom de ETzinhos. Templos religiosos, maternidades e cartórios de registro se empilham pelos quatro cantos do planeta para dar conta da demanda.

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Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.

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