ÊNIO

 Arrimo de família, o Ênio luta com dificuldade de dar pena. Esfola-se, o pobre, pra conseguir levar pra casa um quilo de acém ou de fraldinha de quando em quando pra misturar com a farofa. Mas nem sempre foi assim. Tempo houve em que o Ênio era notório esbanjador em questões monetárias.

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AMANTE MANTIQUEIRA

Do meio da escada rolante, na grande cidade cinza, galopo mentalmente nesse azul esverdeado que é todo teu, Mantiqueira. Vou me encardindo em teu musgo, devasso tua vastidão, perdidamente me encontro em teus cipós e veredas. E já tão verde quanto és, me camuflo do mundo e me soldo contigo, no enlace fecundo entre o animal de mim e o vegetal de ti. Recolho no meu balaio lendas guardadas desde o Gênesis nas copas de tuas árvores. Trazidos por uma aragem passam caboclos e curupiras, camafeus de sinhazinhas, rocas de negras velhas, ais de chibata e de gozo, a grande saga dos séculos que pudeste acompanhar.


Ouves agora o eco? É toda a tua quietude aos berros dentro de mim. Mais um pouco e o sol a pino vai mudando teus matizes e o canto de teus pássaros. Sobrevoo esses mares de morros que começam não sei onde para acabar sabe-se lá. Tuas termas de  vulcões mortos, o enxofre a desprender dos teus ovários. Reconheço minhas veias nos veios de tuas rochas. Me revelas calmamente teus segredos mais nativos: as Pratas de tuas Águas, as Caldas de teus Poços, teus Pinhais de Boa Vista. Me falas dos milhões de anos que levaste na feitura disso tudo. Da paciência que tiveste, do quanto que esperaste para me ver assim, sob feitiço. Me contas histórias remotas, gravadas em xistos, calcários e granitos, num dialeto ancestral só partilhado por nós. Me inicias em teus saberes, me mostras picadas abertas por bandeirantes atrás do ouro das Gerais. Me escancaras as jazidas de teus minérios. Teus urânios, que enriquecidos te empobrecem. Tuas fontes radioativas, tão vítimas da cobiça extrativista. Me banhas como mãe em tuas cascatas, me ensinas que é por causa delas que teu nome é “Serra que Chora”, em tupi-guarani. 


Mas o que me entregas é quase nada perto do que escondes. O insondável que há por trás de tuas neblinas – uma interrogação que, mesmo fluida, é tão pesada como o ferro que produzes. Porque és, Mantiqueira, quinhentos quilômetros de mistério. Guardas em tuas nascentes o código genético da Terra, sentes em teu manto o dedo de Tupã. Ele, que te esculpiu fêmea, de encostas insinuantes para seduzir os homens.



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Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.

Blogs:

www.consoantesreticentes.blogspot.com (contos e crônicas)

www.letraeme.blogspot.com (portfólio)

Email: msguassabia@yahoo.com.br

NO CENTER DO SHOPPING

Meus irmãos, as negociações da venda da fazenda para a construção do shopping entraram num impasse sem solução à vista. Ainda que a gente tenha metade da propriedade, o pai é dono dos outros 50%, e pra complicar ele ainda tem o usufruto da casa-sede.

O velho continua batendo o pé dizendo que não sai da casa de jeito nenhum, mesmo que tenha que desviar da fila do Mc Donald’s pra tirar leite das vacas.
Tentei argumentar dizendo que ele não iria aguentar a muvuca, o trânsito de carros pra cima e pra baixo, o barulho… O pai me respondeu aos berros, falando que o bisa, o vô, ele, nós e os nossos filhos nascemos todos naquela casa – e que ele, pelo menos, só saía de lá pro campo santo. Bateu a porta e se trancou no escritório, onde nos últimos tempos passa horas lustrando a cartucheira.
E o pior é que não tem jeito. Dentro da fazenda, a topografia ideal pra construir o shopping é bem na área onde está a casa. Além disso, mesmo se houvesse outro ponto pra fazer a obra, não daria visibilidade pra quem passa na estrada. O restante das terras seria pra construir estacionamento, depósitos, espaço para eventos, tratamento de esgoto, essas coisas.
Só que agora tem um fato novo: o pessoal da empreiteira parece que é tão louco quanto o velho e sugeriu deixar a casa onde está, construindo o shopping ao redor dela. Ele se chamaria “Casa Grande Supercenter” e a vivenda no centro dele seria apresentada à imprensa e aos lojistas como uma espécie de construção histórica preservada pela administração do empreendimento. Segundo os caras, isso daria um ganho de imagem, como se o shopping tivesse respeito pela cultura e pela tradição local – o que seria positivo perante a opinião pública. Ou seja, eles literalmente contornam o problema e ainda ficam de “bonzinhos” na história toda.
Só que não dá pra imaginar o pai morando lá e a cidade inteira passeando e fazendo compra em torno dele. Como é que ia ficar a privacidade do velho? A gente ia ter que tirar ele da casa de qualquer forma. Uma alternativa é deixar a coisa acontecer e esperar ele mesmo mudar de ideia, quando o shopping começar a funcionar. Provavelmente o povo lá da empreiteira trabalha com a possibilidade de vencer o velho pelo cansaço, depois que o monstrengo abrir as portas.
Agora, a questão financeira: se por acaso a gente ainda conseguir convencer o pai a sair e deixar os caras derrubarem a casa, eles pagam 150 reais por metro quadrado da fazenda. Multiipliquem isso por cinquenta e dois alqueires, sendo que cada alqueire tem 24.000 metros. Vamos ficar todos milionários! Porém, se a casa e o velho ficarem, o máximo que eles pagam é 10 reais o metro.
Pergunto a vocês, meus irmãos: como é que saímos dessa? Acho que se a gente pedir 1000 reais por metro, os caras pagam – contanto, claro, que possam colocar a casa abaixo. Pensei em dopar o velho, misturando alguma merda no suco de graviola. Quando ele acordar no hospital, a gente diz que caiu um avião ou que jogaram uma bomba em cima da casa. O problema é que o pai não é bobo, ele vai ligar os fatos e pode querer descarregar a cartucheira em cima do pessoal da construtora… alguém tem ideia melhor?
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Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.
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31 DE DEZEMBRO DE 1999 (EPISÓDIO QUASE AUTOBIOGRÁFICO)

 Um dia de outono de 1981, último ano do colégio. Estava sentado na minha carteira, fingindo que não prestava atenção no pacto que ali, ao meu lado, se selava. Lá na frente, o professor de matemática falava para as paredes. 


– Fica combinado, então. Nós cinco.
– Aconteça o que acontecer, tem que estar todo mundo lá.