Duas Questões

 tudo o que tenho de mim:
este nome, anterior a mim e que a mim sobreviverá. do qual nunca tive chance de fazer juízo mas que determina a ordem em que serei chamado, as rimas que perseguem o seu som característico, certa maneira de me apresentar enfatizando a forma correta de sua grafia, toda uma herança histórica que nada significa para mim. ainda assim, tenho de dizê-lo meu. 
ainda:
minha língua. uma vaga lembrança de minhas ações mais recentes, certa impressão de desejar um projeto que me realize, também da realização mesma uma idéia muito incerta. meus vínculos todos, que por falta de outro que aja em meu lugar, devo assumir que deliberei empreender. 
ademais, 
algumas roupas, passagens de poemas, histórias começadas – sempre, pois não é verdade que nunca as concluímos?
sim, mas tudo isso que descrevo é só periferia. o entorno dessa coisa escura e insondável, desse abismo. acontece que no fundo sou – somos todos -abismo. e eventualmente dois se encontram e roçam de leve a superfície da boca, a pele. então, cada um conta de si que há um abismo, que não existe apenas aquela quinquilharia vulgar que pode ser tocada e maculada pelos olhos. não, tem um abismo aqui no peito, cada qual adverte, os olhos cheios de lágrima.
e fica esta estranha configuração, em que não se sabe o que se dá em troca de não se sabe o quê. o que equivale a dizer que não se sabe para quem se endereça, de não sei quem lá dentro desse absimo garrafas no oceano com mensongescifradas ao sabor das mãos nervosas desse bicho que teima intervir quando pensamos estar no turno do jogo. mas qual! se talvez nunca estivéramos. por isso inventamos a dança e o riso. dançar é roubar dos animais a vontade irrefletida de mvimentar-se, sem rito nem utilidade, num passo cego e por isso mesmo cheio de volúpia. e o riso, esse espasmo nervoso acompanhado de um ruído característico, que pode ser excitado tanto por uma irritação na pele quanto por um insight, um lampejo espirituoso. ou até pelo medo, quando se torna apenas o reflexo de mostrar os dentes. e com isso nos entorpecemos docemente, esquecendo-nos do abismo e ignorando que ele é a própria estrutura do teatro no qual nos contemplamos bailar risonhos e ignorantes. e felizes, por que não? 

de qualquer maneira, como fugir desse vórtice que nos atrai uns aos outros e que nos dilacera num mesmo gesto, e por que fazê-lo?

Cena, Agosto.

 um homem olha suas próprias mãos equanto move-se a esteira sobre a qual ele se debruça de quinze em quinze segundos para girar um parafuso após outro. a menos de um quilômetro dali, um outro homem suspira amaldiçoando os papéis sobre os quais se debruça de quinze em quinze segundos para assinar seu nome sobre uma linha negra. no mesmo instante em que as sirenes assustam um gato de nome ramundo, as pombas defecam e recolhem-se para seus ninhos, uma criança nasce, uma lagarta passeia nos cabelos de uma menina, e a sombra da figueira no quintal de um asilo projetada na janela principal forma um ângulo de noventa graus em relação ao solo. 

as mãos, suadas sob uma grossa luva de borracha eram  vaga lembrança num parque onde aprendera com seu pai a fazer barcos de papel. as folhas sobre a mesa, lívidas e mortas, representavam para o outro homem sua porção mais viva, sua carne: a consistência de seu ser era, afinal, medida pelo volume de papel acumulado nas prateleiras de seu escritório. 

o nome da criança que acaba de nascer naquela ambulância é raimundo. um pomba abocannha uma lagarta, e quando a sombra da figueira marca o exato instante em que o relógio cuco da sala do asilo marca seis horas, uma menina volta correndo para casa chorando e remechendo nos cabelos em pânico. 

as mãos do homem despedem-se das luvas e voltam para os bolsos.

os papéis voltam para os envelopes reutilizáveis de correspondência interna do banco.

raimundo tem exatos 3,5Kg, e seus pais estão contentes.

a menina conta para a mãe que uma pomba roubou sua lagarta.

uma senhora fecha seu livro de orações e pensa em goibada.

no dia em que me decidi a andar descalço,

 no dia em que me decidi a andar descalço, os pés abertos sobre nuvens densas de grávitons e fuligem, decidi também que não abriria mais a correspondência. e que além disso, não atendenria o telefone e ficaria surdo para para quando me chamassem. mas como me comoveram neste dia os detalhes do chão! eu descobrira, afinal, naquele instante preciso – o mógno partido em delicadezas rubras – os detalhes em que os fabricantes de sapatos tiveram que pensar por mim. mas agora meus pés estavam nus, e meu corpo ganhava novos contornos, novos movimentos, e toda música que emanava disso se chocava contra a casa morta, ressequido substrato da matéria que outrora me animara o nome. as folhas no chão adquiriam mais luz. seus detalhes se multiplicavam na razão das possibilidades de suas perspectivas. e pedra sobre pedra, os pés ergueram o mundo equanto eu levava no torço curvado o manto de sangue coagulado do cosmo  – pensando nos olhos dela, seus cabelos de arsênico – no dia em que eu me decidi a andar descalço – ela

a vida sussurando em minha pele 
a umidade sempiterna
do adorno de marfim da coroa do infinito –

                                                       ela mesma – agora que não calço nada – quis matar-me de ternura e de tédio e asco. que a televisão diga o contrário: eles tentam calar o som das asas dos pássaros nos filmes para que ninguém imagine a liberdade. mas eu possuo os dedos de seresteiro de um bisavô que não conheci, e delimito a presa enquanto acaricio o vento – eia! esse eu peguei. esse destino se alimenta de ódio. aquele de feijão. este outro se alimenta de letras, frases, tratados inteiros. podemos jogá-lo de volta, não presta – e o pescador atira ao mar o peixe ingrato que deixa no tempo os olhos extáticos de quem nada viu do que se lhe mostrou. então percebi que a resistência do chão era que fazia o chão fazer sentido. eu voltava à terra depois de uma longa temporada em mim mesmo, nos meus, nos outros e nos outros dos meus. eu agora era um corpo, apenas um corpo sobre o mundo exercendo meus limites, cantando a circunscrição do redor. pois os limites são TUDO o que o corpo tem. eles são sua substância, sua estopa. e eles, os limites, como eram claros agora! todos vozes muito íntimas e particulares a dedilhar os ouvidos que eu deliberara serem meus. então eu descobri

então eu descobri que não podia fazer nada com isso. 

estava tudo perdido, enfim. o firmamento, eu o carregara para que? haveria uma razão última para que meus pés tivessem que descobrir a sua vocação terrena? no dia em que eu me decidi a andar descalço, todos os ipês brancos morreram exata e simultaneamente às dezoito horas. a banda não dourou a praça com seus timbres, andorinhas não andorinharam, o carrilhão da missa atrasou seu trinado. e a paz morreu diante das criancinhas, tão branca e leve que por alguns segundos ninguém viu nada – cegos, nos debatíamos como os peixes que saltam para dentro da jangada. e então vomitei como se meus pés beijando a terra  quisessem despojar-me de minha carne. 

no calor da voltagem das carícias, eu me descobria só. 

e me descobria povoado. inóspito, admito, mas ainda assim povoado. pois há uma favela dentro de mim, doutor. e uma favela é um lugar onde as pessoas andam descalças dentro de si mesmas. pois eu estou com eles e não há mais nada que o senhor possa fazer. por isso venho hoje apenas para agradecer-lhe os préstimos e deles me despedir para sempre. obrigado por provares que és inútil, estou feliz. agora posso caminhar descalço com este povo que me habita. é um povo hostil e terno, místico e amadeirado. feito de camisetas encardidas de sangue e bandeiras coloridas. talhado por mãos grossas e experientes no trato com matéria prima selvagem. mas um povo de voz e cabeça baixa. no dia em que me resolvi a andar descalço aprendi a 
olhar pro chão. 
e a dar ao chão o nome casa. 
e a amar ao chão. 

sou dono da língua deste povo, doutor, e é nesta mesma língua dentro de outra língua que voz falo – pois que senão entenderias outra coisa quando digo: o amor é uma ciência especulativa. façam suas apostas, iniciados e iconoclastas! a estátua lúbrica do amor, quem vai decifrá-la? – dois bilhetes por um, só por hoje madame, mademoiselle, vai levar? mas isso te parece triste, imagino. digo com todos os nervos que agora és (SOMOS) livres, e tu te serves do lenço para assoares teu nariz, dissimulando lágrimas de quem não sabe chorar e tem vergonha de aprender. eu tento costurar, é apenas isso o que faço. eu costuro o mundo com palavras e gestos, tento consertar as fendas na minha pele. é certo que para ser um alfaiate falta-me a auréola perdida do poeta que, quando ao atravessar uma rua estreita de sépia deu-se conta de sua condição de mortal. mas tenho agulhas saindo de tudo o que sou, e traço nos dias a linha que valsa minha vida. 

perdido, é certo.
jamais parado.

pois se há fuga, existem os périplos. e cruzamentos e curvas, avenidas. os acidentes são inevitáveis e belos como a chuva. o encontro entre duas agulhas funda a forma do ponto – a colcha se fecha em si mesma e nos esquenta no inverno – e isto é quase tudo o que se tem pra dizer, doutor. 
e é também a coisa mais bela, 
nosso maior problema, 
nossa idéia fixa

que mordendo as mangas da camisa de algodão numa tarde fria juramos jamais abandonar.

               para então depois, talvez cansados um pouco do brinquedo, a esquecermos entre os documentos timbrados e os ácaros famintos – mas agora todas as estrelas me absolvem neste país de flores extemporênas. e as palavras me arrancam do espaço em que digo seu nome. a boca seca. os olhos secos no dia em que eu me decidi a andar descalço.