O assassinato

Não sei como isso foi acontecer, um impulso talvez, apenas aconteceu…
Eu simplesmente a matei, tentaram entender o porquê daquilo e eu não soube explicar. Fui a julgamento.
Pessoas ilustres me apontando, querendo saber o motivo.
Eu disse: – Foi culpa da reforma!
– Da reforma? Vozes ecoaram na sala.

Continue lendo “O assassinato”

O Pedinte

Em meio à rotina do dia a dia, surgem aqueles personagens que de longe ignoramos, ou desprezamos. É assim que eles aparecem nos transportes coletivos que circulam nas cidades. Rostos já conhecidos, textos que os passageiros provavelmente já sabem decorados, mostrando o quão são miseráveis ou querendo que os vejamos como tal. Pedintes, retratos de uma sociedade desigual.

 
Certo dia, algo me chamou a atenção, um ser que aflorava em algumas pessoas um sentimento de solidariedade e em outras de nojo. Essa pessoa que subia nos ônibus para pedir uma ‘ajudinha’ tinha algo diferente dos outros pedintes. Sua voz era enrolada como a de alguém que sofreu um AVC; ao falar babava e tinha dificuldade de se segurar ao balançar do ônibus. Quando aquele Ser diferentemente especial subia no ônibus, as faces indigestas dos passageiros eram notáveis, aquela situação não era nada agradável para ninguém, principalmente para aquele que vergonhosa e necessariamente estava pedindo.
 
Com um corpo frágil, devido a alguma doença que não consegui identificar, aquele pedinte sentia a necessidade de se sentar o mais rápido possível. A pessoa que estava sentada no banco logo se levantara, com receio de que a saliva do pedinte lambuzasse suas roupas, deixando-o solitário, sempre solitário. Essa foi uma cena que se repetiu durante muito tempo… mas, algo havia mudado…
 
Algum tempo depois, aquele pedinte subiu no ônibus, e vi o seu semblante diferente. Usava farda, tinha uma pasta de trabalho e um crachá pendurado no pescoço. Fiquei imaginando quem teria dado uma oportunidade àquela pessoa? Os olhares dos passageiros não mais o incomodavam, ele estava feliz. Sentou-se à janela, mais uma vez sozinho, e simplesmente esperou que o ônibus desse partida.
 
Enquanto os passageiros se acomodavam, um rapaz ofereceu-lhe uns trocados, e o ex-pedinte simplesmente rejeitou. Disse que não precisava. O rapaz insistiu para ele aceitar, talvez ainda sentisse pena daquela rosto tão conhecido nos ônibus. O ex-pedinte olhou firme no rosto do jovem, sorriu, abraçou a bolsa, e só então aquele gesto fez o rapaz perceber que alguém tinha acreditado que ele era capaz, mesmo com todas as suas limitações. Eu o observava, e durante a viagem, mesmo sentado solitário naquele banco, ele apenas sorria.
 
Infelizmente, vivemos em uma sociedade que pedir virou emprego, e que o limite entre a caridade e a miséria é muito curto.

Ele morreu…

Um passinho como se tivesse em uma esteira, uma pegada segura nas partes baixas, um corpo magro com roupas brilhantes, um gritinho conhecido e um rosto em constante mutação. Ele morreu… O Rei do Pop foi brilhar em outros “palcos”.  A mídia só fala nisso, e falará durante longos anos, fico até imaginando os americanos criando um dia para o Rei do Pop, e vai ser feriado!

Continue lendo “Ele morreu…”

Guarda-chuva de Madame

As notícias mostram e os índices apontam o recorde cada vez maior na criação de empregos. Mas esse maremoto de serviços chega a ser sentido apenas como uma marola para as classes baixas e médias. Em uma sociedade em constante mudança e efervescência social, o que percebemos atualmente é a criatividade da população para se conseguir o sustento de cada dia.
            Vi surgir uma nova atividade de trabalho, que denominei Guarda-chuva de Madame. A situação tragicômica de uma realidade atual aconteceu durante as fortes chuvas na capital paraibana.
            Na frente de um Shopping Center da cidade, pessoas se amontoavam esperando a intensa e constante chuva passar. A maioria aparentemente madames, grandes empresários ou pessoas com cargos importantes; aquela, uma composição de saltos finíssimos, talvez um Prada falsié, ou de uma marca brasileira bastante cara, com suas belas vestimentas de tecidos finos e emolduradas com maquiagens e cabelos que não são “à prova d’água”; aquele, com ternos impecáveis e da moda e uma postura de donos da rua. Todos se aglomeravam com um único objetivo, esperar a chuva passar para poderem se deslocar até seus carros importados ou extremamente caros para minha condição financeira.
            Em meio a esse alvoroço, via-se na calçada, embaixo de um daqueles Guarda-sóis com propaganda de marca de cerveja, os pés descalços de uma pessoa com, no máximo, um metro e cinquenta de altura. Ela tinha traços bastante masculinos e estava com uns 6 meses de gravidez, vestia calças largas e uma camisa de escola pública e era a única que poderia ir e vir bem protegida dos fortes pingos de chuva.
            Para ganhar uns trocados, o EI MENINO!, assim chamada pelas socialites e empresários “engomadinhos”, levava-os embaixo do seu “protetor de tempestade” até seus carrões, pelo valor de um real. E assim, em meia hora de chuva forte, vi aquela Fulana extrema criatividade, levar umas trinta pessoas até o seu destino.
            Uma senhora que estava ao meu lado, com uma daquelas sobrinhas que só cobre uma parte da cabeça e é anti-ventania, disse-me que o EI MENINO! vive em situações desumanas, dorme em um estacionamento perto do shopping, embaixo daquele guarda-chuva que atualmente é sua ferramenta de trabalho.
            Acho que o EI MENINO! rezará para que as chuvas continuem cada vez mais fortes e que as madames e empresários continuem estacionando seus “humildes” carros em locais sem cobertura, só assim ela irá fazer parte desse número que é sempre crescente no Brasil, o de empregos informais.