Simplicíssimo

Bípede

Mas não me considero poeta, cozinheiro, ser humano ou bom de cama. Nem fracassado ou vencedor, tudo o que sei é que sou mamífero, carnívoro, gosto de capuccino e meus pêlos estão crescendo. Mas também não tenho muita certeza se o que bebo é leite e se são meus pêlos que crescem ou meu corpo que diminui. Às vezes acho que seria melhor eu me alimentar de plâncton ou partículas elétricas embora isso não vá fazer diferença mesmo, já que sou carnívoro. Mas não se assuste se um dia me vir comendo alguma verdura. Desde que ela não esteja se debatendo no meio de um pão implorando pela própria vida, não vejo nada de errado em comer coisas verdes. Não que eu me considere um “carnívoro conservador comedor de carne”, não é isso. Eu apenas como porque me convém de vez em quando. Também não me acho escritor porque escrevi isso aqui, mas, se você quiser assim me chamar, tudo bem. Falando em achar, eu me acho pra caralho. Outro dia mesmo acordei e me achei deitado em minha própria cama. Achei estranho o fato de não haver nada me observando enquanto eu coçava minha bunda, ou de não ter que brigar com o guarda-roupas para que ele me deixasse passar pela porta. Estranho mesmo é o próprio fato de eu ter que dormir, mesmo bebendo tanto leite. Acho que meus pêlos crescem enquanto durmo. Os peixes comem plâncton e não têm pálpebras, logo, não dormem. Não têm pêlos e alguns comem carne. Se eu parasse de dormir, talvez minhas pálpebras caíssem e meus pêlos sumissem com o tempo. Mas daí a crítica iria dizer que eu estava me “achando” peixe só porque nasceram em mim algumas escamas. Bom, contanto que digam que eu sou peixe mesmo eu não sendo, poderia continuar bebendo leite sem maiores problemas. Tenho achado muita coisa ultimamente, mas não vou falar disso porque me causa problemas. Tenho uma outra personalidade que bate em mulheres. Sim, deve ser isso, porque não lembro de ter batido em nenhuma sendo eu mesmo, peixe, mamífero ou cozinheiro. Sempre alguém põe palavras em minha boca, se eu fosse peixe, teriam menos espaço para isso. Noite dessas me achei perambulando na marquise de um prédio. Mas não matei ninguém e, se perguntarem, direi apenas que estou escrevendo um livro. Ou que me deu uma vontade de partículas elétricas que você nem imagina.
Mas eu não sou um ser humano, apenas vivo como tal. Se isso faz de mim “humano” ou não, é questão de metabolismo, sistema nervoso, gastro-intestinal, entre outros, e não de língua e cordas vocais, minhas ou de outras pessoas. Não sou do tipo que passa na frente de um aquário e diz “e aí, bicho!”, ou chega numa festa todo peladão para dar uma de humanóide. Chego me locomovendo em duas pernas por já estar habituado a isso há séculos e fico ali, observando a pelagem alheia crescer. Agora, se pareço “bípede” só porque cheguei andando, vai ver que é isso aí mesmo.

Rodrigo D.

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