Simplicíssimo

Mãe Ausente

    Mamãe está à venda. É isso mesmo, estamos vendendo nossa mãe. Conversei com meus irmãos e concluímos: precisamos de mais espaço em casa, menos limpeza, uma piscina no lugar do jardim e um muro de mármore à frente da casa ao invés daquelas grandes árvores para sombra atrás da grade com portão.

    Nossa única opção, para realizar todos nossos desejos, é liquidar a mamãe, tirá-la de casa de qualquer maneira. Imagine só: ela não trabalha, não traz dinheiro para casa, está sempre preocupada com nosso bem-estar sentimental e outras coisas abstratas. Financeiramente, o mais importante, não colabora. Apenas faz meros comentários sobre o rancho mensal que, cá para nós, está sendo muito simplificado. Chega de frutas e saladas! Queremos cerveja, uísque e tudo o mais que a indústria possa nos fornecer enlatado ou plastificado. Vamos usar mais o microondas e vender o fogão a gás. Retiraremos a lareira da sala, sobrará mais espaço com os condicionadores de ar.

    A alimentação da família irá melhorar também, afinal mudaremos, evolução é a palavra. Sem esta matriarca nos empurrando comida o tempo todo, não correremos risco de ficar obesos; uma família de gordos é o que seremos, se nada for feito. Do nosso jeito seremos magérrimos. Comeremos em restaurantes finos, teremos um rancho mensal bem mais barato e somente com produtos de alta necessidade. Eis a futura família perfeita.

    O tempo tem passado depressa demais. Não temos mais copos, pratos ou talheres para usar nas refeições. Aliás, estamos nos alimentando como porcos, com pratos e talheres sujos e esquentando os congelados no microondas, que mais parece uma teia de aranha gigante depois que alguém estourou ovos lá dentro, achando que dava para fritar. Ninguém quer limpar nada ou dar mais dinheiro para que contratemos uma empregada temporária durante a transição. Todos alegam que já deram sua doação familiar, como sempre fizeram em meses anteriores. O problema é que os congelados estão acabando, o mês ainda não. O dinheiro para as despesas já acabou há dias. Será que existia alguma mágica que mamãe fazia? A grama está crescendo e o jardim está morrendo. O problema é que não sobrou dinheiro algum para fazermos o orçamento da piscina ou contratar alguém para recolher as milhares de folhas que aquelas árvores derrubam na frente da casa todo dia. Será que eu conseguiria cortá-las? Não, teria de usar serrote, serra, machado e arrancar as raízes que ficariam impedindo a construção do muro. Além disso, não temos dinheiro para contratar alguém para essa tarefa. Será que terei de ir até o apartamento que alugamos para a mamãe e perguntar como ela fazia? Acho que não, mas pensando bem, tenho que ir pagar o aluguel do tal apartamento e aproveito a oportunidade para sondar um pouco por lá. 

    Ao encontrá-la, esperava que estivesse triste e que me recebesse mal. No entanto, ela acolheu-me com aquele sorriso de saudade como se não me visse há anos. O apartamento limpo, organizado e um aroma de chá que não resisto em aceitar a oferta. Sento no sofá improvisado, mas limpo, com velhas cadeiras de madeira e almofadas. Vejo que está bem mais confortável que o nosso. Conversamos um pouco e quando percebi estava chorando e contando para ela tudo que estamos passando. Ela levanta-se, vai até a cozinha, pega um pote e retira algum dinheiro do seu interior. Diz-me que são economias de mercado que vinha fazendo há alguns meses para a festa de fim de ano e coloca o dinheiro na minha mão.

    A convido para retornar. Ela dirige-se ao quarto e pega a mala – já pronta! Sabia de tudo. Pensou com o coração ao invés da razão, o tempo todo. Aliás, quem pensou com a razão?

 

Mauro Rodrigues

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