Simplicíssimo

O Bosta

Abaixo descrevo minha última participação na internet. Finalmente percebi o que sou para a rede. Banal nunca; tudo que acredito não importa.

– Ainda me lembro de quando chegava em casa e, como era rotina, espancava minha mulher.
– Hein, tu eras casado?
– Está surpreso? Pois fique sabendo que sou casado. É, nem todo autor de besteirol da internet é moderninho, comedor e, logicamente, solteiro. O fora do comum é que ela estava grávida. Seria nosso quarto filho e esperávamos que este fosse normal ou burro, ignorante mesmo, para não se transformar em prostituta como a de 12 anos, ir parar na FEBEM como o de 13 ou ser mongolóide como o último, que morreu 3 anos depois do parto e do fim de todas as economias que tínhamos na poupança.
– O que? Você tinha economias na poupança?
– É, admito. Sou meio quadrado mesmo. Guardava e guardo uns trocados todo mês, poupo. Desisti do colchão. Não é recomendável. Principalmente depois do assalto onde, além de sermos furtados, fomos estuprados – todos. Eu, minha mulher, a filha de 11 anos, o guri de 12, e o menorzinho, de 3 anos, foi quando morreu. Felizmente, já tínhamos poucas economias devido, principalmente, ao grande número de remédios para o monguinho – nome carinhoso que o chamávamos. O que me deixou triste no acontecimento foi a desistência dele. Ele era um guri duro, literalmente, não mexia nada abaixo do pescoço. Mesmo assim eu gostava de brincar com ele e nem reagir ele tentou, simplesmente desistiu de viver antes de chegar ao hospital.
– O que? Um pai que brinca com o filho?
– Não me resta outra alternativa a não ser a confirmação. É mesmo uma porcaria de atitude, mas eu gostava. Com os outros dois eu me divertia mais, eles aprendiam tudo depressa. Foi muito fácil ensinar o menor a pedir dinheiro no sinal, depois pequenos furtos. Com o monguinho tudo era mais lento, mais difícil. Ele não queria saber de reagir, até quando eu o estimulava a me morder. Eu colocava a orelha na boca dele e tascava-lhe um beliscão na bunda. Ele até tentava, mas não tinha forças para pressionar a pele entre os próprios dentes. Com a menina eu era carinhoso, atencioso e nunca cometi nenhum ato contra a sua castidade. Mas aí eu espanquei o namoradinho dela e tive que fugir da cidade. Como eu ia saber que ele era filho do chefe de uma boca de fumo?
– Mas e a gravidez?
– Ah!, essa foi a maneira de me livrar dos traficantes. O cara passou a comer minha mulher enquanto eu estava fora. Eu não a culpo, era preciso algum dinheiro para viver e, assim, ela não precisava passar as noites frias de inverno na rua, fazendo programa por ninharia. O cara bancava e ela foi ficando exclusiva dele. O que não precisava era engravidar. Mas ela me disse que foi a única maneira que encontrou de me trazer de volta. Ao contar para o cara sobre o filho, ele pulou fora. Ela logo lembrou de mim e pediu um habeas corpus para mim. Ele me perdoou na hora, desde que pudesse tirar a virgindade da minha filha, se ela ainda fosse. Graças a Deus eu dei a sova no guri, se não ele já teria feito o serviço antes.
– O filho não é teu, então?
– É claro que é. Se eu negar o filho do cara ele mata a guria, que tá trabalhando pra ele numa casa noturna. Dizem que alguns figurões chegam a pagar até cinco mil reais para passar a noite com a virgenzinha. Não te falei? Ela sangra toda vez que transa. Quando o cara descobriu quis vir me pegar, mas ela convenceu ele do contrário. Explicou o excelente negócio que faria se me deixasse vivo e fizesse dela uma mercadoria de alto nível na noite. Foi o que de melhor poderia ter acontecido. A guria deve estar feliz da vida, pois pelo dinheirão que vale só deve ter velho brocha para comer ela.
– É, realmente, a brochice é algo de cruel na vida de um homem… Mas e o tal filho, já nasceu?
– Nasceu, sim. Só que a mãe dele morreu durante o parto. Naquele dia eu tinha bebido um pouco além da cota e a espanquei muito. Tinha me esquecido da gravidez, completamente. Daí, ela começou a ter as contrações e rompeu a bolsa durante a pancadaria. Quando dei por mim o guri já estava nascendo. Aí corremos para um hospital, mas ela veio a falecer por causa da hemorragia interna.
– E o guri, tá contigo?
– Claro que não. Deixa eu te contar. Ele nasceu bem, tudo certo com ele. Mas como ela morreu, tentaram me botar na cadeia. Aí o juizado de menores interviu a meu favor e me concederam a liberdade para que eu cuidasse do guri. Mas imagina como eu ia cuidar do guri se não trabalhava? Nossa única fonte de renda havia morrido. Até fome passamos, eu e ele. Tentei algumas outras vadias que conhecia, mas nenhuma outra me quis com o guri. Aí tentei entregar ele pro Conselho Tutelar, não aceitaram. Pensei em abandoná-lo em algum lugar, mas aí o tio dele, aquele do tráfico, viria atrás de mim. Então tive a grande idéia de arrombar o galinheiro de um vizinho próximo, para saciar nossa fome. Fui preso e estou aqui na prisão.
– Mas tu és um criminoso, então?
– É, pode-se dizer que sim. Sou um ladrão de galinhas…
– Puxa, mas isso é humilhante.
– É, mas foi o jeito. O guri foi encaminhado para adoção pelo Conselho Tutelar. O tio dele, me largou de mão e tá ficando rico com a guria. Provavelmente, vai colocar o meu guri, assim que ele sair da FEBEM, como dono de uma boca de fumo. Eu tenho casa, comida, roupa lavada e um computador para acessar a internet, além de um veado que me dá dinheiro aqui na prisão para faturar ele.
– Isso que é vida…
– Pois é, por isso comecei a escrever para sites na internet. Não tinha nada mais para fazer, depois que matei dois que tentaram me estuprar aqui na prisão. Virei perigoso, por me defender e bonzinho, por não complicar com os guardas. Daí me conseguiram esse micro que fico direto na internet.
– …
– Agora tenho que ir. Acho que vou desistir desse negócio de internet.
– Bah, cara. Não pára, teus textos até que são legais. Apenas não tratam de assuntos interessantes. Mas isso pode melhorar.
– Esse é o problema. Tudo que eu escrevo é sem importância. O que importa para os filhos da internet e moderninhos em geral são originalidades que estão muito além da minha percepção. Em resumo, sou um bosta, não vivi nada, não fiz nada de original para contar, escrever ou idealizar.
– É verdade, na tua vida não aconteceu grande coisa.
– Fui. Te larguei. Larguei todos.

Mauro Rodrigues

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