Simplicíssimo

Hoje (2)

Hoje fui ao centro de Leiria e passei por várias farmácias e
perguntei por tintura de iodo. Nada! Não há, já não se usa, é perigoso,
leve antes isto ou aquilo. Não, muito obrigado, eu quero tintura de
iodo, o pé-de-atleta só passa com tintura de iodo.
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2007-01-03
Estamos rodeados de tecnologias, mas mais ainda de certas
manias, uma delas é a mania das marcas sob o pretexto da qualidade.
Vem isto a propósito de ter mostrado hoje aos meus alunos de
electrónica como se pode produzir um pequeno amplificador de som
por um preço irrisório. Um dos alunos comentou: “Ah, agora já sei
porque é que nas lojas dos chineses vendem aparelhos para melhorar a
audição a 3 euros cada; aquilo não é mais que um amplificadorzinho
do som, não é Stôr?“ Exactamente, respondi.
No entanto, quando experimentamos perda de audição, somos
capazes de ir ao médico (o preço da consulta dava para comprar 50
aparelhos de audição), fazer análises e testes (mais 50 aparelhos) e no
fim comprar um aparelho que custa entre 5 e 10 mil euros, vendidos
por firmas “especializadas“ (uma ova!) que dão garantia vitalícia
(pudera!), e fazemos gala em contar aos amigos que o aparelho que
usamos nos custou os olhos da cara. Perdemos os olhos para pagar os
ouvidos. Mas impressionámos os amigos que ficam a pensar que temos
dinheiro a rodos; não sabem que re-hipotecámos pela terceira vez a
casa – a última foi quando comprámos aqueles óculos Roubão de 10
mil euros e o colchão Roubaflex que cura todas as maleitas.
Se calhar, vou hoje a uma loja dos chineses perguntar se têm
tintura de iodo para curar o pé-de-atleta.
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2007-01-03
Não me saiu da cabeça, ir hoje à loja dos chineses no Centro
Comercial D. Dinis de Leiria, perguntar pela tintura de iodo. Tanto
mais que a comichão alastrou e o pé-de-atleta tende a tornar-se corpode-
atleta, e não há meio de conseguir encontrar a milagrosa tintura de
iodo. Já falei ao pessoal da Química, a ver se ao menos me ensinam a
preparar a tintura, e um deles disse-me: “Sou químico mas não sou
farmacêutico“.
– É pá, mas procura-se na Wikipedia, que eles lá sabem tudo.
Olha, que foi lá que eu vi como se preparava o biodiesel, fiz um post
sobre isso que atingiu o top dos cinco posts mais vistos, num instante!
Vais ver que a tintura de iodo é capaz de ultrapassar o top, tanto mais
que pé-de-atleta é uma doença que tende a alastrar-se.
– Como assim? – perguntou-me ele.
Aí eu expliquei-lhe que o pé-de-atleta se chama assim porque é
uma doença dos atletas, pois, como eles correm, os pés transpiram
mais e os fungos desenvolvem-se na humidade e no calor dos pés.
– Tudo bem, mas não percebo porque é que a doença tende a
alastrar.
– Olha, desculpa lá mas, ou és parvo, ou fazes-te – disse-lhe eu.
Ofendeu-se, e virou-me as costas.
Mas agora entre nós, passo então a explicar porque é que o péde-
atleta será a doença do futuro, capaz de vir a matar mais gente do
que a gripe das aves. Com tanta gente que vai ter que passar a andar a
pé, porque a gasolina e o gasóleo não param de aumentar apesar da
liberalização do mercado, e com o aumento do preço dos preços dos
transportes públicos, só mesmo os completamente destituídos de
inteligência é que não se abastecem de tintura de iodo a tempo. Creio
mesmo que já começa a haver açambarcamento do produto e a
informação sobre como se prepara a tintura milagrosa desapareceu por
completo. Os tios de alguma farmacêutica, que não dormem na forma,
já se apoderaram da fórmula da tintura de iodo, e quando a doença
alastrar vão lhe chamar de Gripe dos Pelintras, e vendem a tintura com
um nome pomposo, do género TAMICUÇANDEX – DUPLEX, assim
como Tamiflu é, traduzido para português, “tôcomgripe”.
Quando ia a sair da escola, e a caminho do chinês, aparece-me
aquele meu colega, todo choroso e a pedir-me desculpas por não ter
percebido logo onde eu queria chegar, e repetiu-me tudo o que eu já
vos disse acerca da minha teoria. Fiquei boquiaberto, e disse-lhe que
estava abismado, como é que ele tinha conseguido, tão rapidamente,
tirar aquelas conclusões, se há pouco, poucochinho, não percebera
nada do que eu lhe estava a dizer.
– Sabes, pá, eu ia para arrancar o carro e reparei que estava sem
gasolina.
– E daí? Agora o estúpido sou eu.
– Bem, o problema é que estou sem dinheiro para meter mais
gasolina e vou ter que andar a pé até ao fim-do-mês.
Ao menos és optimista, por julgares que vai ser só até ao fim do
mês, pensei eu.
– Vens comigo então ao chinês? Vou ver se eles lá vendem
tintura de iodo.
– Não, pá. Vamos antes ao laboratório de Química. Salvo erro
ainda há lá iodo e “putássio“.
Qualquer coisa me dizia que a tintura era feita à base de iodo.
Mas o “putássio“, eu não sabia que andava também metido no
negócio!
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Henrique Sousa

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