Simplicíssimo

Ontem (5)

2007-02-02

Não acabei de vos contar acerca da minha frustração, ao saber da
boca do JSS que afinal ele não tinha tintura alguma escondida. Porém,
fiquei intrigado com o frasco vazio que ele deitou fora, e voltei à carga:
– Acredito que não tenhas frascos de tintura escondidos. Então e
aquele que eu apanhei no lixo?
– Aquele frasquinho de tintura foi a herança que eu recebi dos
meus pais. Mas como só atraía mafiosos, resolvi livrar-me dele. Nem
imaginas o que as pessoas são capazes de fazer ao seu semelhante por
uma gotinha de tintura. A tintura, isto é, a propaganda que dela fazem
os “merdia”, leva as pessoas a pensar que tudo se pode pagar com
tintura e que a felicidade depende apenas dela. Enganam-se. Já o meu
venerado JC dizia aos seus apóstolos: “Nem só de tintura vive o
Homem“.
– E o pé-de-atleta? Pode-se curar sem tintura?
– Claro que sim, tens que é que ter sapatos arejados assim como
os meus – e levantou um pé para eu ver os buracos laterais de
ventilação.
– Realmente, não me tinha ocorrido essa possibilidade. Trata-se
de uma forma de energia renovável, só espero que a máfia não se
lembre de lançar um imposto sobre os buracos dos sapatos para tapar
os buracos do OGE.
– A máfia tem agora mais em que pensar, andam em altas
manobras da tintura com a China, enquanto estamos todos entretidos
com a questão do aborto de que eles se servem para aquecer os ânimos,
mas que gostariam de ver liberalizado para poderem fazer um negócio
da China com as clínicas de aborto. Coitado é de mim, José Simplício
da Silva, ao menos se tivesse um apelido de Azevedo, Salgado, Espírito
Santo, Jardim, Mello ou outro do mesmo calibre era só dar um pontapé
numa pedra e jorrava tintura – e conforme diz isto, atira com um
pontapé numa pedra que lhe abre mais um buraco no sapato e…
– Porra, pá! – exclama ele, contorcendo-se de dor no pé.
– Olha lá, um pouco de tintura fazia-te agora um jeitão.
– Lá isso é verdade! Chiça!

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2007-02-02

Sermão às baratas
Dedicado ao ministro da Tintura M. Pinho, por nos ter vendido
como “baratas” aos chineses.
Carérrimas baratas,
Vós, que antecedeis os tios e os precedereis depois que estes se
banirem da face da Terra num holocausto nuclear, sois pisadas
por eles e espremidas como coisa vil que estais longe de ser. Que
estais tão longe de ser como os fetos de futuros homens que eles,
os tios, matam de forma atroz, por aspiração, por maldição ou por
intoxicação, apenas porque lhes dá na real gana de matar. Apenas
porque não querem assumir a sua condição de baratas
espezinhadas e maltratadas por outros seus semelhantes que
nasceram com o rei na barriga, e para quem a disseminação das
baratas causa prejuízo de tal monta que, se pudessem, as
exterminariam impiedosamente e para todo o sempre, para que
eles, os iluminados, os seres superiores de raça superior,
pudessem imperar, não só aqui neste planeta a que chamam
Terra, Terra que os pariu, mas em todo «o sistema solar, Via
Láctea e o Indefinido…» (Fernando Pessoa).
Mas os tios, mercê da inteligência que lhes foi outorgada por
Deus, o Criador, vão acabar os seus dias numa catástrofe gerada
por eles, em que nenhum ser vivo continuará a sê-lo (vivo),
excepto vós, as baratas que conseguis resistir aos holocaustos e ao
Inferno Nuclear que se avizinha, e que sois insensíveis aos
métodos de controle de natalidade dos tios, e vos reproduzis que
nem baratas e vos estais marimbando para a sorte dos tios, seres
eleitos de Deus mas que Dele se querem afastar a passos largos.
Que vão para a puta que os pariu.

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2007-02-03

Fui pagar a renda de casa. Estava a funcionária da agência de
arrendamento a passar o recibo quando se ouviu um barulho de
martelo pneumático na casa contígua à agência. Logo me saí com o
seguinte comentário espontâneo:
– O quê? Aqui também estão em obras? O apartamento colado ao
meu anda também em obras e já não consigo trabalhar em casa
durante o dia. Vejo-me obrigado a passar o dia todo na escola.
Responde a senhora da agência:
– Isto tem sido um autêntico inferno. Desde o princípio da
semana que andam nisto.
– Engraçado! As obras lá do prédio também começaram no
princípio desta semana.
– Uma maçada, já lá fomos pedir-lhes que deixassem os barulhos
para o fim-de-semana mas eles responderam que não gostam de
trabalhar ao fim-de-semana.
– Ainda bem para mim, espero que aqueles escravos que
trabalham lá no prédio sejam da mesma cepa.
– Ah, pois… Não me lembrava dos residentes neste prédio que
trabalham durante a semana.
– E o que é que estão a fazer na loja do lado?
– Sabe, aquilo era um restaurante onde se comia bem e barato.
Mas agora foi vendido a um banco. Até dá jeito ter um banco ao pé,
mas este barulho incomoda bastante.
– Claro, claro. As pessoas já começam a adquirir hábitos
saudáveis de não encher o bandulho ao almoço, trazem uma sandes de
casa e depois vão tomar a bica ao café. É a globalização.
Talvez ela não me tenha entendido mas abanou a cabeça em sinal
de concordância. Saí da agência e regressei à escola, ainda teria que
esperar até às seis da tarde para poder regressar a casa. Fui rezando
pelo caminho, e pedindo aos Céus que me arranjassem um canto
sossegado onde pudesse trabalhar em paz.
Mas o assunto da tintura não está esquecido, ainda não me dei
por vencido.
 

Henrique Sousa

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