Simplicíssimo

“Bom dia”

Acordara exatamente como sempre o fazia. Aquela manhã não seria diferente das outras que passaram e alguma convicção o lavava a pensar que as que viessem a seguir pouco acrescentariam ao que via como nada. Era certo que algo havia de acontecer, mas nem quando, onde, porquê e muito menos com quem se podia imaginar. Relutou ainda algumas vezes antes de realmente acreditar que estava acordado. Lhe agradava no sono a possibilidade de nada existir, apenas parar enquanto o tempo passava segundo a segundo. Seria o coma sensação tão inerte e, por isso mesmo, o que buscava? Seria este o cerne de sua tão compulsiva ideação? A ausência do pensar fazia sentido. A de existir ainda não lhe era clara. Há muito que não podia lidar com tudo o que aflorava a cada movimento automático de entrada e saída de ar do seu corpo, cada batimento de seu coração. Mas enfim havia acordado. Ainda estava sozinho e aliás, tudo estava ainda igual a ontem, anteontem, tempos atrás, tempos afrente quem sabe … Pelo menos o caminho até o banheiro não precisava ser relembrado. O primeiro banho de água no rosto fora insuficiente. Era difícil acordar realmente, mas algo tinha que acontecer. Se tivesse alguns minutos a mais, se tivesse muitas horas, poderia parar e pensar o porquê do que estava fazendo. Pouco sabia se procurar explicação poderia ser útil. A ignorância por vezes, e na maioria das vezes, ser-lhe-ia uma forte arma para escapar do sofrimento, embora o desconhecimento da causa lhe fazia penar, sem mesmo que ele soubesse disto. Luzes de vida ao ligar o rádio. Lembranças de um tempo em que buscava mais do que tinha. Ainda podia lembrar. Na verdade era só o que podia ainda …

“Tentando ser alguém
Deixei de ser quem somos
Nada certo nem ninguém
Perdemos tantos anos”

A muito custo conseguiu ater-se ao café da manhã. Temia que tivesse a mesma insipidez que o levara a perder os quilos que por natureza já não tinha antes. O rosto já não possuía mais as frutas que demarcassem alguma bochecha e as proeminências ósseas tornavam-no ainda mais inexpressivo, não fossem os olhos encovados e tristes. Era difícil entender o motivo pelo qual aquelas estranhas e sorridentes criaturas estavam desenhadas em sua enfadonha bolacha. Talvez tivesse deixado para trás a alegria e espontaneidade típica das crianças que se deleitam com pequenos detalhes. As pílulas dos astronautas seriam mais do que suficientes … Mas a comida não era o problema, Definitivamente não. Mesmo a melhor das tortas de morango desceria seca e amarga como um de seus repetidos pesadelos. Quisera sofrer de algum tipo de torcicolo que o impossibilitasse de olhar para a cozinha. A louça empilhada de algum tempo indefinido desanimaria mesmo os que estivessem no extremo oposto de energia. Mas sempre cabia mais alguma coisa. No fundo não havia razão para desfazer aquela simbólica presença. Já estava cheio de vazios. Mesmo assim já lhe escapava da memória o tempo em que mais de um copo sobre a mesa pudesse lhe engrandecer de satisfação.

Nem parou para pensar no porquê estava comendo. Consumiria muito do tempo que sabia não mais ter. E também porque não queria mais respostas. Já estava cheio delas. Em direção à sala, sentiu o peso das sobrancelhas na testa. Encurvou-se. A vida não mais fazia sentido, mas seria impossível sair dela por livre e espontânea vontade. Se tivesse suficiente força para tal, a usaria para viver. Pesou-lhe também o peito, como se um dos quatro quartos do coração perdesse a forma, perdesse o sangue. Pesou e doeu … doeu … doeu. Ainda pôde dar um suspiro e esboçar um breve sorriso e dar um “bom dia” ao negro manto que cobrira mansamente seus olhos. E então o peso das sobrancelhas derrubou-o.

Eduardo Hostyn Sabbi

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