Simplicíssimo

P.H.T.L.S.

Sim, sou daqueles que acredita que a educação, direta ou indireta, é um caminho fundamental para as mudanças. Entende-se aqui direta como aquela resultante de uma transmissão acadêmica do conhecimento e indireta por outros meios, como a aprendizagem pelo exemplo. Tal distinção, se realmente existe, não deve gerar uma confusão de importância. Ambas se justificam, se sobrepõe e se complementam.

Pois não é diferente na Medicina. Digo isso enquanto tento, em vão, encontrar enlouquecidamente meu exemplar de O Ponto de Mutação para embasar o quanto nós, médicos, por décadas descuidamos do doente pela restrita atenção à doença. E é esgoto aberto, banheiros no chão, lombrigas entrando e saindo como e quando querem. Remedinho aqui e ali, a causa do mal ainda causa o mal. E sabemos disso, mas nem sempre agimos de acordo com o nosso conhecmento.

É no primeiro capítulo do seu manual, que o curso PHTLS (Basic and Advanced Prehospital Trauma Life Support – recomendo a todos da área de saúde – saiba mais sobre este curso no site do CETS) aborda com propriedade a questão da prevenção do trauma (acidentes em geral: automobilísticos, domésticos, quedas, violência urbana, etc.). No mundo todo, são 16 mil mortes diárias por trauma sendo que 146 mil/ano ocorrem nos Estados Unidos, onde o trauma é a terceira causa de morte, atrás apenas das doenças cardiovasculares e do câncer. Mais além, outras 2,5 milhões de pessoas foram hospitalizadas naquele país em 1997, em decorrência de lesões não-fatais pelo trauma.

Outro dado assustador: considerando a expectativa de vida média dos grupos etários e os anos em potencial de vida perdida, o trauma liderou o gráfico entre norte-americanos com 1 a 44 anos de idade em casuística no ano de 1995 (e imagino que seja assim ainda hoje). Enquanto o câncer retira um montante de 2 milhões de anos em potencial para o grupo, o trauma joga pelos ares 3,5 milhões de anos. Cerca de 80% das mortes em adolescentes e 60% das mortes em crianças decorrem do trauma. E para quem ainda tem dúvidas ou só é sensível no bolso, há um custo estimado em $325 bilhões de dólares gastos anualmente com o trauma.

Seguindo com o manual e as estatísticas norte-americanos (eles são realmente bons nisso), em 1966 o congresso aprovou lei exigindo o uso de capacetes para motociclistas e as taxas de fatalidades despencaram. Mas em 1975, movido pelos “direitos humanos” e a “democracia” do livre arbítrio, a lei foi retirada e as taxas cresceram até nova medida judicial ser instalada.

O termo “acidente”, como algo inevitável, de causa desconhecida, não serve ao trauma. O que ocorre geralmente é o resultado do descuido, da desinformação e da imprudência. E longe de tornar nosso dia-a-dia um ritual obsessivo de verificações de segurança, atitudes bastante simples de prevenção são apontadas como o ponto mais importante na busca da solução do trauma. O uso de cinto de segurança, assentos infantis apropriados no banco traseiro e airbag nos veículos, o capacete para ciclistas e motociclistas, as restrições para o uso de álcool pelos motoristas, proteção de piscinas (cobertura ou cercados) são apenas alguns exemplos.

Mais uma vez lançando mão dos recursos numéricos, centros de controle do trauma e doença norte-americanos fazem interessante estimativa entre os investimentos na área e seus e resultados:

• Cada $1 investido em aconselhamento pediátrico economiza $10
• Cada $1 investido em capacetes de ciclistas economiza $29
• Cada $1 investido em assentos de segurança infantis economiza $32
• Cada $1 investido em detectores de fumaça economiza $69

E por aí afora. Educação, educação e educação. Desde o berço até a universidade da terceira idade, nem todo mundo tem uma segunda chance para aprender com os erros. A propósito, que esforço você tem feito pela vida?

Eduardo Hostyn Sabbi

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