Simplicíssimo

Transgênicos, da Revolução Farroupilha ao cinema de Schwarzenegger

O assunto é polêmico e ainda toma conta dos noticiários dessa semana no país. O governo acertou em cheio quando afirmou que a decisão seria baseada no conhecimento científico. Em tema tão controverso, é muito importante tentarmos evitar a parcialidade dos fanáticos e não nos afundarmos em questões políticas, religiosas e ideológicas. (Aliás, a saúde agradecerá muito o dia em que a Igreja Católica engajar-se na campanha pró-uso de preservativos…). Pois imaginando formar uma opinião mais sólida sobre o plantio de sementes de alimentos modificados geneticamente, parti para uma extensa pesquisa.

As vantagens dos transgênicos estão no aumento de produção e menor custo com inseticidas. O primeiro ponto parece ideal para quem quer acabar com a fome. O segundo, aponta para um gasto de R$ 307,00/hectare no plantio de sementes tradicionais, contra R$ 66,00/hectare quando do uso da semente transgênica. Muito embora o fenômeno da tolerância bacteriana possa vir a acontecer com o tempo, imagina-se que a tecnologia vá acompanhar essa evolução. Como desvantagens, estudam-se o impacto na saúde e no meio-ambiente que, se por um lado é visto com cautela pela maior parte dos países interessados no assunto, com reais investimento na pesquisa, ao mesmo tempo tropeça em grupos mais radicais que não pensam duas vezes ao afirmar sua postura paranóide do caos.

Há quem diga que aqueles que se posicionam a favor dos transgênicos estariam a favor e movidos pelas empresas que o comercializam e seu suposto/previsto monopólio. A contrapartida pode ser tão falsa ou verdadeira quanto a primeira idéia: seriam os que lutam contra os transgênicos a favor e movidos pelas empresas produtoras dos agrotóxicos atualmente utilizados nas lavouras? Nem uma coisa, nem outra. Com relação ao monopólio, nem Gates nem os EUA parecem ter conseguido dominar o mundo, mas que tentam, tentam.

Há também o receio de que nosso humano desatino expanda a biotecnologia aplicada a alimentos (e hoje em dia também em animais – hello Dolly!) para a própria (ir)racional espécie humana. Obviamente que isso irá acontecer um dia e pode até já estar sendo feito, vai saber. Mas temeroso seria o propósito manipulativo. Seriam criadas soluções da ciência para males da saúde, verdadeiros exércitos fortalecidos para a batalha ou legiões de povos com seu cérebro modificado a só dizer sim, ou sim senhor. Bem, a batalha do futuro é com máquinas, não com homens. Já tivemos uma pequena amostra disso na última guerra do Iraque, com muitos mísseis disparados a uma grande distância e aviões de controle remoto. Mesmo assim, um verdadeiro filme de ficção estrelado por Arnoldo Schwarzenegger não é facilmente descartado.

O custo do progresso é óbvio. Quando se vibrou com a invenção da roda, do avião, da eletricidade, etc., não se imaginou a construção de tanques de guerra, carros velozes por demais para causarem acidentes fatais nas mãos da irresponsabilidade humana, caças de combate, cadeira elétrica e daí por diante. Tão pouco acharíamos uma maioria disposta a voltar no tempo antes de importantes descobertas da nossa história científica.
Pois uma das questões é estabelecer alguns parâmetros de bio-segurança no produto em foco. Para a saúde do consumidor, os pontos críticos são a existência de algum potencial alergênico ou tóxico. Uma vez, após uma palestra, fui questionado sobre o uso de medicamentos psiquiátricos e a conseqüente exposição dos pacientes aos seus efeitos colaterais. A resposta cabe como uma luva aqui. Penso que tudo o que ingerimos é potencialmente alergênico, tóxico ou causador de algum efeito indesejado. E, em se tratando da química medicamentosa, deve ser usado sob estritos parâmetros terapêuticos com estudado custo-benefício (por isso a auto-medicação é, por si só, um veneno). Mas curiosamente, os estudos não se aprofundam nos alimentos naturais tanto quanto nos medicamentos e nos alimentos geneticamente modificados. Talvez se o fizéssemos encontraríamos motivos suficientes para estimular toda a biotecnologia, talvez não. E vale lembrar que a WHO (World Health Organization) deixa claro que, dentre os alimentos geneticamente modificados disponíveis no mercado e liberados para consumo, não há um sequer que apresente risco à saúde humana. Isso me parece um aval a ser fortemente considerado, bem como os técnicos da Embrapa, que sinalizam no mesmo sentido.

Sobre o efeito no meio-ambiente, cujas preocupações recaem sobre as transmutações, pouco ouvi de críticas a aparentes e inocentes enxertos de rosas, por exemplo, quando o princípio me parece semelhante. Vai que daí surja um espécime deformada e carnívora que venha a comer nossas criancinhas. Quem garante? Pausa para o filme de ficção … Tampouco ouvi falar sobre a proibição de um tecido “x” usado para confeccionar roupas, mesmo sabendo de “n” pessoas que incham, avermelham-se e se coçam todas com essa ou aquela roupa. Se o que estamos falando é não modificar a natureza pelas mãos do homem, melhor seria cortar as nossas mãos. Não há como não modificar a vida diante do simples fato de existirmos. Ah, e quem nunca optou por um refrigerante de bolhinhas daquela marca que dizia “É isso aí!”, ao invés de um suco natural, em algum momento de sua vida?

Pois criado o problema, era necessária uma atitude. Fechar os olhos foi um privilégio do governo anterior e empurrar com a barriga nesse momento teria proporções quase atômicas. A entrada das primeiras sementes em território nacional ocorreu de forma bastante irresponsável, sendo meritório o título de “produto contrabandeado” e, não duvido, remexendo Maquiavel em sua cova. Mas quem sabe essa não foi a única forma de nos inserir na discussão mundial sobre as novas biotecnologias? Produtores gaúchos aguardavam aflitos à decisão, da qual dependia a escolha de sementes, a garantia de financiamentos bancários e, em alguns casos, a viabilidade de uma safra inteira. E assim como na Revolução Farroupilha, onde o Rio Grande do Sul protagonizou a primeira experiência republicana do país (mesmo sem saber aonde tudo isso ia parar – e ainda não temos certeza), é esse mesmo povo que se lança pioneiramente no Brasil a arriscar com a moderna biotecnologia.

Pergunta-se o quanto não estaria o Brasil sendo cobaia dos estudos mundiais desse tipo de alimentos. Pouco provável, nada impossível. Embora mais ou menos aceito ou discutido por uma ou outra sociedade, já estamos vivendo a globalização desse tema, a exemplo de países como Nova Zelândia e Reino Unido. Ihhhh olha aquele filme aí de novo…

Pois não é que nosso presidente viaja justo nessa hora sem decidir nada antes e deixando tudo nas mãos do vice mineiro que treme só em falar na responsabilidade do ato? Mas apesar de tudo, já temos notícia da assinatura extra-oficial da liberação do plantio transgênico, o que deve se confirmar nas próximas horas. Mas enganam-se os que imaginam que a discussão se encerra por aí (semelhante mais uma vez aos filmes de ficção). Não só pelo constante estudo das questões pelos organismos internacionais competentes, mas também porque ativistas contrários aos transgênicos prometem vir com tudo e já se acumulam em manifestos lá em Brasília. E não podemos deixar de falar nos que querem aparecer. Sempre tem. Antes mesmo de uma decisão, o poder judiciário ameaçava aniquilar qualquer medida provisória, uma vez que entende passar por cima de uma decisão prévia desse poder, entendendo como desacato e sentindo-se menosprezado. Nesse ponto a jornalista Ana Amélia Lemos comenta: “o judiciário só se manifesta quando provocado” (vejam por exemplo as manifestações da classe na reforma da previdência). Como se não bastasse, a empresa Monsanto, uma das produtoras das sementes de soja transgênico que entrou no estado, já avisou que cobrará royalities dos agricultores (o “copyright” da idéia toda) e está no seu direito. Aliás, nessa história toda, quem não está?

Eduardo Hostyn Sabbi

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