Simplicíssimo

A curiosidade matou o gato

O silêncio noturno era quebrado pelo ronronar. As unhas afiadas cravavam contra o caule da velha figueira, iluminada parcamente pela luz de um estreito e tímido luar. A excitação do felino de pelagem negra e olhos incandescentes como as brasas da lareira da casa de sua estimada dona, vinha pelo olfato, como se o cheiro de pássaros novos no ninho de sabiá o intimassem a tal empreitada. Era seu extinto de caçador que o impelia a aventura.

Os cães ladravam ao longe numa lixeira qualquer. Mal podiam ser percebidos. Os homens dormiam, ou assistiam á televisão. Era o gato o único ser a aventurar-se pela rua. Da casa, rapidamente chegou à calçada de laje irregular, e saltou na árvore. Estava muito próximo de jantar pela segunda vez.
No entanto, quando entre folhas e galhos ele podia ver seu objetivo, um som incomum invadiu suas orelhas. Era algo eletrônico, como aqueles que saiam do estranho aparelho que o jovem filho de sua dona ouvia em seu quarto. A única diferença é que o gato ouvia não tinha ritmo. Estava mais para o som de engrenagens, ou algo do gênero.
O som cada segundo mais penetrante aumentava gradativamente com a luminosidade. Mesmo não sabendo o que era uma lua, o felino logo percebeu que não era natural a luz que invadia o quarteirão.
Por um momento ele deixou de lado seu principal objetivo, pois afinal, os filhotes não sairiam do ninho. Com sua natural leveza saltou por entre os galhos, e chegou ao cume da figueira. A noite havia se transformado em dia naquele pequeno pedaço de planeta. A enorme bola que o gato via em noites de lua cheia, agora parecia pairar a menos de dez metros de sua cabeça. Dela um feixe luminoso descia até o solo, com a nítida impressão de que um scanner media cada milímetro das ruas empoeiradas do bairro.
Hipnotizado pela luz, como seu parente leopardo, velozmente o gato desceu da árvore, e foi de encontro ao misterioso feixe. E antes que tivesse tempo para qualquer coisa, o bichano viu-se no interior dele. Nesse mesmo instante foi como se o mínimo peso de seu corpo deixasse de existir, e o gato surpreso viu-se levitando no âmago da estranha luz.

***

    No laboratório da nave, os dois seres longilíneos e altos, de uma cor puxada para o prata, receberam o espécime. Era fofo, embora eles não entendessem ou tampouco tivesse em seus vocabulários tal palavra. Insensíveis como os médicos humanos, pegaram seus instrumentos cirúrgicos, e começaram a dissecar o pobre gato.

Douglas Eraldo dos Santos

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