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A Arte da Fuga

A Arte da Fuga

 

Nossos políticos exibem impressionante capacidade de se desembaraçar de atos que atentam contra o interesse público e as leis. Por vezes criam as próprias leis de forma que contrariem o melhor benefício dos cidadãos, mas contemplem os seus próprios desejos.

 Tenhamos em mente que isso não é novidade, pois em todas as eras as elites dominantes têm se apropriado do Estado como se delas mesmas fossem. Creio que não erro em afirmar que isso tenha começado com a própria civilização. Os interesses dos estados nacionais se referem primeiramente ao conforto e privilégio das elites, para as quais a massa populacional trabalha.

         Mas como as pessoas não se conformariam sem mais aquela de serem passadas para trás, diferentes mecanismos de controle das mesmas são tentados, os quais constituem uma verdadeira Arte, aperfeiçoada desde o princípio dos tempos.

         O meio mais sincero de prover o controle social é o emprego da força através de uma pesada máquina militar. Digo sincero porque não tenta disfarçar o que realmente quer, vai direto ao ponto. Tal emprego pode tornar-se um problema se não for bem gerenciado, pois um exército poderoso pode bem entender de abrir mão dos políticos, especialmente se capitaneado por um grande líder militar.

         A escravidão também é um daqueles métodos que não negam a sua intenção e podem complementar o modelo do controle militar do Estado. Humilha-se a massa e as elites podem também dedicar-se ao controle por meio da superioridade educacional. Aquela estória de que saber é poder… O problema é que este também parece ser um sistema difícil de se sustentar a longo prazo. Uma das dificuldades inerentes a ele são as rebeliões de escravos.

         Não tenho o intento de me estender: acredito que a democracia é o mais eficaz dos métodos de exercício de poder das elites sobre a maioria. Eficaz porque comanda enquanto faz os comandados acreditarem que são eles que tomam as decisões.

         Mas a democracia precisa ser exercida com astúcia. O próprio sistema tem em si algumas pérolas comprovadas pelo uso, como por exemplo fazer o povo acreditar que está decidindo alguma coisa ao votar. “O voto é tua única arma! Põe o teu voto na mão!”, dizia Alceu de Deus Collares. Figuraça, ele! Pois é.

    A vontade da maioria nem sempre aponta para a decisão certa. A voz do povo, expressa pelo voto, não é a voz de Deus. Na verdade, não passa nem perto de ser. A regra é se ver o povo sendo manipulado e iludido no processo eleitoral, em favor de um ou outro grupo de elite. Os grupos às vezes mudam, mas são sempre elite, ou seja: poucos mandando em muitos.

Outra ilusão são as medidas que visam promover um suposto estado de bem estar social, sempre aquém do necessário, mas capazes de enganar bem direitinho. Migalhas. Eles nos atiram migalhas. A fórmula do orçamento participativo dá um passo além: faz-nos crer que nós decidimos sobre a aplicação dos recursos. Ora, é sobre migalhas que nos chamam a decidir. O tal orçamento não passa de uma perversão dos modelos anarquistas de auto-gestão. Mas é muito eficaz, garante muitas e muitas eleições.

Quem decide mesmo, no final, são eles, sempre eles, aqui como na Suíça. Vejo apenas que a nossa diferença para países que respeitam mais seus cidadãos é que as elites de lá são menos gananciosas. Os desvios de verba por lá comem uma parcela menor do PIB. E quando a coisa ameaça quebrar a banca eles fazem faxina, como foi o caso da Itália na célebre cruzada pelas mãos limpas. Estou aqui fechando uma ligação entre a corrupção político-orçamentária e o crime organizado. É assim que as coisas são.

Mas vamos, pessoal, nós não inventamos o crime, nem temos os melhores criminosos! Na Itália nasceu a máfia! No Japão, temos criminosos dos mais técnicos do mundo. E vive-se mal nestes países? Quando a coisa estoura, eles fazem faxina.

Nova Iorque fez assim (cá entre nós, eu considero o Charles Bronson o verdadeiro pai do tolerância zero. Lembram do Death Wish? “Acredita em Jesus Cristo, cara? (…) pois vai vê-lo de perto! BANG!”; também deve ser feita menção honrosa a Clint Eastwood e seu impagável dirty Harry).

O que quero com tudo isso é dizer que a corrupção é uma arte milenar da qual, pelos mais variados métodos, se rouba do povo.

Esta arte, como outras se divide em várias disciplinas, sendo as principais:

1. Os métodos de cometer delitos (roubar, assassinar, traficar, etc).

2. Os métodos de encobrir os delitos já cometidos.

3. Os métodos de escapar da punição quando os delitos foram descobertos.

Não somos os melhores do mundo no número 1, somos apenas os mais gananciosos. Mas nos números 2 e 3, ah, dominamos essas disciplinas melhor que o futebol. Constituem a verdadeira Arte da Fuga.

O sistema chamado democracia carrega em si a malha complexa sobre a qual se funda o estatuto do domínio de uns sobre todos. Não passa de uma monarquia bem disfarçada.

Ai de nós.

(Sobre o Internacional, apenas uma palavra: ainda mato um treinador).   

 

 

 

Luiz Eduardo Ulrich

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