Simplicíssimo

X-tudo

X-Tudo

     Estava por esses dias lendo o “Discurso do Método”, aquele belo livrinho do René Descartes (ou “Mané” Descartes, como muitos o chamariam nos dias de hoje). Interessante: antes de concluir que seu pensamento é suficiente demonstração de sua própria existência, o cara faz um apanhado de tudo que havia estudado até então. Boa a formação do sujeito. Teve sempre tempo de sobra para estudar e outras regalias invejáveis, como uma boa renda vitalícia, além de não ter hora para dormir ou acordar.
     Depois de concluir que ele mesmo existe, o cara demonstra, de maneira irrefutável, que Deus existe, uau! Não me convenceu, mas a forma de apresentar o tema é decerto admirável. Simples, clara, numa linguagem que até eu entendo e revelando os passos que seu pensamento seguiu, e como eles se ligam com alguns aspectos autobiográficos. Participei de um pouco de seu cotidiano ao ler o seu relato.
     Seguindo adiante, percebo que suas ambições de pesquisa das “verdades” se estendem pelo universo inteiro, em cada pequena particularidade. Dignou-se a nos oferecer um único exemplo prático de suas pesquisas, a saber, uma elegante demonstração do modo pelo qual o coração desempenha suas funções.
    De todo o resto, apenas nos deixa saber o que vinha investigando, em termos gerais, mas não diz quais foram as suas conclusões. Aí é que vem a judiaria: o sábio desejava ardentemente nos contar tudo que descobriu, só que estava borrado de medo. Borrado pra caramba.
     E que coceira que ele devia estar sentindo por não poder nos dizer que a Terra gira ao redor do Sol! O sujeito ter pra contar uma novidade dessas, tremenda fofoca, e não poder espalhar por aí, é foda. Mas Descartes não era nenhum Giordano Bruno, não tinha nenhuma afinidade pelos martírios que costumavam se abater sobre os mais sabidos daqueles dias.
     Sei que o Discurso do Método costuma ser lembrado por haver lançado os fundamentos do método cartesiano. O primado da razão, a visão dualística do homem, a decomposição do problema a ser estudado em pequenas partes, as comparações do corpo humano com uma máquina, etc. Sei também da carrada de críticas que se faz a esta visão “mecanicista” de mundo e de humanidade, especialmente entre alguns próceres das ciências biomédicas e correlatas.
     Mas não quero discutir nada disso, pois não foi o que me chamou a atenção. O que me impressionou mesmo foi a dupla forma de que o autor lançou mão para se expressar. Por um lado, um discurso cheio de rodeios e melindres, procurando esconder os aspectos mais polêmicos de seus conhecimentos e se esforçando para explicar porque estava fazendo isso.
     Ficou-me a peculiar sensação de estar lendo alguém que quer muito falar de tudo, tudo mesmo, mas não o faz por medo de ofender alguém que pudesse literalmente queimá-lo na fogueira. Chegou a nos contar que estava com todo esse perigoso material pronto e guardado, mas que só o deixaria publicar depois de morto.
     Mas é bem outra a forma de expressão quando ele se refere às informações que tinha liberdade para transmitir. Nesse caso ele se mostra de uma refinada clareza e economia no uso das palavras. É notável a preocupação em se fazer entender por leitores de variados níveis de formação. E estou chamando a atenção para isto porque não se encontra com muita facilidade bons pensadores com esta capacidade de se fazer compreender.
     Indivíduos com essa característica têm a singular utilidade de movimentar cérebros de principiantes, apresentando conteúdos de alto nível, de uma forma que estejam ao alcance de um maior número de pessoas. Não consigo imaginar forma mais democrática de tratar a filosofia do que ser claro na forma de escrever, evitando toda a prolixidade.
     Buenas, chega de ficar inventando moda. Vou estudar farmacologia que eu ganho mais.

Abraços,
Luiz Eduardo

Luiz Eduardo Ulrich

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