Simplicíssimo

Tibúrcio

Há bom tempo quero contar do Tibúrcio. O dito começou rondando, disse o nome, ficou pra contar um causo e outro, e eu sem saber o porquê daquela visitança. Ventos pra lá, passos pra cá, deu que se instalou. A figueira da fazenda acolhera o recém-chegado em sua sombra, com intimidade. Era gente de bem, garantia. Tomou conta. Eu, ainda pequena, olhava espichado pra tudo, num certo medo de não-sei-quê. Curiosa daquele tipo estranho.

Bem que eu, de início, achei o homem muito sério. Era o jeito dele, paciência. Mulato, tez lustrosa, com brilho de terra. Compleição robusta, de quem tem força nos braços. Todo sem modos. Mesmo tempo, um semblante tomado de lirismo, um além silencioso, um longe conhecido. Como logo ali. Ele, figura de barro, riscos marcando a pele escura. E um singelo ar de sabedor.
Tibúrcio se fazia presente. A voz grossa e áspera, os causos. Ele. Dava vontade de ficar ali, ouvindo seu arar. Enquanto revolvia o solo, espalhava seu queimor por tudo, e a friagem passava bem longe.

Vezes, de ar macambúzio, olhava pro chão. Outras, parecia se atirar nas pastagens distantes, quase apagadas pela lonjura. Tinha um tique nos olhos, apertavam-se, quem sabe escondendo o choro. Estalava a boca pra contar um causo, esfregava o nariz, quando queria ficar sozinho, olhava de longe, vigiava de perto, mexia nas orelhas, esfregava a testa. Furungava a ferida do queixo, enquanto falava dos outros. E era assim, homem de poucas palavras, quando nada pra dizer, e muitas, na hora de palpitar. De melhor, trazia um calor úmido, um conforto cru, bom de sentir.Seguiu meu crescer, de tanto tempo ali. Sempre o cheiro do barro entrando em casa, no pisar do Tibúrcio: fazia parte da fazenda. Sulcava a terra com os braços e o vento com os olhos.

O tal sabia de cada história no respiro da noite. Apontava o dedo pro sol, ainda ralo. Manhãzinha, decifrava as nuvens, dono do descampado de céu. Meio dia, com o sol no lombo, era o relógio dali. Era gente de respeito, pelos arredores. Todo mundo confiava. Mais. Tinha o cheiro morno daquelas terras. Uma coisa estranha. Calado de si, não dizia nada. Nem se sabia o que fazer se ele caísse doente. Vontade que fosse daquele chão: idéia de criança. O Tibúrcio ali, seu silêncio me pondo pra dormir, o som ruidoso de seus tiques acordando a casa. Minhas idades, pouco a pouco, conheciam suas crendices, fraquezas, modos toscos. Ele tinha um risco na testa, do lado do olho esquerdo, que se mexia: sinal de coisa ruim. Um olhar de soslaio, desconfiado, e o risco desaparecia. Voltava pro campo, arrastando os pés. Dos lábios, eu ouvia um muxoxo, numa língua só dele. E então calava, mirava longe. E sumia. De noite, gritos horrendos rompiam o escuro, espalhavam-se pelo solo, arranhando as cercanias. Era o Tibúrcio.Tantas vezes tomei-me daquele arrepio, vindo de fora da varanda. Já sabia que era noite quieta, sem a roda de causo.

Este era o velho Tibúrcio, dali. Dias, manso. Taciturno, quando batia um vento ruim. A vida passando, e ele. As noites esperavam por seus causos e cantorias, num rouco bom de ouvir. Com chimarrão e cigarro de palha, postava-se a exibir feitos. A juntura do horizonte e do enorme tecido negro de céu, pano de fundo às rodas de prosa. Ele, no centro. Tinha uma existência perene. Eu, ficando moça, perdia o medo da noite. De algum modo que eu não conseguia explicar, sabia nele o guardião daquelas terras, nos seus gritos e silêncios. Já madrugada, andava onde o Tibúrcio me levasse, na melodia desafinada de sua voz, ferida pelo fumo e tempo frio. Ventos ruidosos, indo embora e voltando. A velhice imprimia-lhe seus feitos, levava um pouco dele a cada estação. Num janeiro, senti um aperto na garganta. Era um pressentimento ruim com o Tibúrcio. Eu disfarçava, silêncio meu. Sabia que era coisa de má notícia. De tempos pra cá, ele em passos lentos em volta de mim, seu risco do lado do olho esquerdo parecia saltar adiante.

Fitava-me num olhar apertado, entre o queixo e o piso. Quieto. Eu ouvia o andar surdo pela sala, podia sentir o cheiro da terra na sua sombra, quando o Tibúrcio abria a porta de madeira. Andava estranho, mais macambúzio do que nunca, e nem causos contava mais. Sumia, e demorava dias num não-sei-onde. Então, trazendo barro pra dentro de casa, tornava a me arrodear. Outono, sumiu tanto tempo que parecia pra sempre. Acabou aparecendo, com novos sulcos no rosto e os olhos ainda mais apertados, quase sem lugar. Dali em diante nem falava, apenas sons grossos, dizendo coisas sem importância. Suas vistas espremidas se paravam em mim, quando vinha. E sumia, de novo.Aquela época foi se alongando. A fazenda perdia a cor, pouco a pouco, o silêncio gritava de noite, e a friagem me visitava com muita vontade, sem o queimor do Tibúrcio. O tempo.

Ah, esse passava tão devagar que arrastava os dias. A casa, mal cuidada, sentia saudades dos passos dele por ali, cheios de terra. Eu tinha jeito de pergunta e surpresa, entristecida. Sentia falta do risco na testa, dos gestos que fazia em seu nariz, do andar sem modos. Mais ainda do semblante macio no rosto de barro. Só quem não precisava sentir saudades era a terra da fazenda, quente e úmida, num marrom lustroso, com sulcos bem marcados. Que agora tinha o Tibúrcio de volta.

Betina Mariante

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