Simplicíssimo

Urdume

Um dia aconteceu comigo. Tecia uma manta, a linha começou a enroscar pelo tornozelo. Eu, mergulhada no tear, nem senti. Foi se enroscaaaando, eu anestesiada no vai-vêm daquela construção. Era parte dela, até. Ali, onde todos os mundos se entremeavam, a cada passagem do novelo de lá pra cá, daqui pra lá. Pensar não pensava. Memória de cidades, de relógios, de gentes.

Tudo passando em mim, com a linha. Memórias de quereres, de nuvens, de ventos. De dizeres. Dos pontos que a agulha passa, aqui e ali, pra firmar a obra. Alinhavos. Sons de tudo, no burburinho de uma conversa ao meu redor. E dentro.

Não poderia escapar, foi num ainda início, muitas idas e vindas desde lá. E eu. A linha. Eu. A linha. Do tornozelo, passou à perna, subindo. Continuou subindo. Traçando um caminho até o tear. Eu. A linha.Eu. A linha. Eu. A linha. Anestesiada, entre os fios do urdume, eu. A linha. Subindo. Eu. Era, com minhas cores, nuances do tecido. Eu, ali. Agora, parte daquele tear montado. Linhas e linhas. E Eu. Pronta a peça. Tecido de lembranças enredadas, de linhas de tempo daqui e dali. A Linha. Eu. A Linha. Eu. A Linha. Eu.

Betina Mariante

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