Simplicíssimo

Bumbum Assassino

Estávamos em meados de fevereiro do ano passado quando disse-me meu amigo, em reserva, que considerava suas nádegas de uma formosura extrema e inigualável, bem mais vistosas, fornidas e desejáveis que a média dos assentos das moças da sua idade. Concordei por concordar, sem muita convicção e sem saber que aquela observação picante era o começo de um caminho sem volta, o primeiro capítulo de uma novela de trágico final.

 
Não exagero. Este amigo, que prefiro não citar o nome, acabou indo parar no hospício por sua causa. Ou, melhor dizendo, por culpa de sua região glútea. Um pouco antes de ganhar camisa de força, era triste vê-lo ao telefone rabiscando indecorosamente o seu traseiro num bloco de anotações enquanto conversava com a mãe, que do outro lado da linha, em João Pessoa, jamais poderia imaginar a compulsão que assolava o filho. O seu popô, minha cara, era invariavelmente o assunto único, da mesa de trabalho à mesa de bar, passando pela arquibancada do estádio, pelas conversas no ônibus e até pela sessão espírita. Convertido devotamente à carne que a senhora faz questão de avantajar com suas calças apertadas, é lógico que o meu amigo teve desmoronados os alicerces da moral e da religiosidade. E ergueu em sua casa um altar, o mais profano dos altares, onde ultimamente ele passava as 24 horas do dia ajoelhado, cultuando seus fundilhos através de uma foto digital fora de foco que ele conseguiu tirar às escondidas de sua formidável parte, num dia em que a senhora passava distraída com uma sacola de laranjas na mão e um chumaço de algodão doce na outra, a caminho sabe-se lá de onde.
 
Homem casado – e bem casado, de papel passado e tudo aqui no Cartório de Barbacena – admito que vez ou outra também olhava de soslaio à sua passagem. Porém com olhar clínico e crítico, de quem olha para fazer o reconhecimento do objeto que desgraçou a alma e a vida digna de um inocente, um sujeito que até o seu aparecimento considerava a nádega uma parte anatômica como outra qualquer, com funções fisiológicas bem definidas (muitíssimo bem definidas, para se dizer a verdade, em se tratando do seu caso). E não havia mulher e respectivo traseiro que substituísse a senhora e o dote que o Criador lhe concedeu na ambição e na imaginação do infeliz. O sentido da vida começava e terminava ali, onde a senhora tem o cóccix.
 
Aquela sua coisa, que o Mussum chamava em rede nacional de “forévis”, selou para sempre o destino do meu amigo. E seu tenro lombo recebeu um número incalculável de homenagens solitárias da parte do adorador supracitado, às vezes dezenas ao dia, tributos que ele ia computando com risquinhos de pincel atômico nos azulejos dos banheiros – os vários a testemunharem aquele ritual escravizante. Renunciava à conjunção carnal com quem quer que fosse, em favor de mais e mais adorações onanistas. A situação se agravava a cada dia, e ia tomando proporções jamais relatadas nos anais da psicologia ou da literatura médica. Ao entrar na casa do meu amigo para buscar o pijama e levar ao sanatório, deparei-me com outras excentricidades. Sua poupança ilustrava tanto o papel de parede do quarto quanto o do computador, e uma reprodução do seu playground ganhou moldura e lugar nobre na sala de estar do coitado. Debaixo do travesseiro encontrei um envelope, com algumas poucas instruções caso acontecesse algo que levasse meu amigo deste mundo. Dentre elas, a forma e as curvas inusitadas que deveriam ter o seu túmulo.
 

 

Marcelo Sguassabia

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