Simplicíssimo

Você nem queira saber

I
“Só sei que nada sei”. Pra se saber um por cento do que é preciso seria preciso mil quinhentas e noventa e seis vidas de oitenta anos cada. A conta é essa por enquanto, amanhã aumenta, depois de amanhã nem se fala. Há um email marcado como não lido, faz quinze dias. Leio e fico sabendo que lá se foi um camarada meu, dos idos do rolemã e dos cachorros amarrados com linguiça. Acendo mentalmente uma vela e tomo um trago à sua saúde, ou no caso, à falta dela. Fica até chato ligar agora pra família depois da missa de sétimo dia. É essa pressa maldita, besta nervosa em que se monta e se galopa sem sela, no desajeito. Desculpe aí, meu amigo. O que faltou ser dito fica pra outra encarnação, tá certo? Isso eu juro pra você.

II
Todo conhecimento do mundo é atualizado a cada 5 anos. Não sei mais onde nem quando li isso, mas se sair pesquisando vou perder tonéis de infos que correm na raia 3 e chegam em cima da hora, breaking news extra-extra, plantões do Jornal da Globo e os outros 235 canais que clamam pelo meu zapping, mendigando uma parada que justifique a assinatura. Mas aí toca o telefone, aí o jantar tá na mesa e aí a mesa é só um adereço, porque já me adianta a vida se der pra comer de pé. Por favor, me quebra essa, eu não tenho o dia todo e você sabe bem disso. No olho do sobressalto, o jeito é partir voando. Pode ir na janelinha, no caminho eu explico tudo.

III
A urgência de ler “O Ócio Criativo”, aquele livro que fala da necessidade vital de fazer coisa nenhuma. Tenho muito o que fazer antes de pôr as mãos nele, que encabeça uma pilha de 80 centímetros de livros, que por sua vez faz as vezes de criado mudo para o copo d’água e o lexotan. É que acordo sempre no meio da madrugada assustado e suando frio, na ânsia de precisar saber o que não é possível saber por não haver tempo hábil.

IV
Basculante de spams sendo despejado. Agora não. Blogs sendo atualizados. Depois, quando baixar a poeira. Só que a poeira aumenta porque o galope aperta. Revistas, resenhas de fôlego, imperdíveis que se perdem. Não deixe o inadiável pra logo mais. Sem querer cobrar, mas já cobrando, há 1000 lugares que você precisa conhecer antes que se despeça do mundo. 1000 filmes que você precisa ver de qualquer jeito, irremediavelmente. Antes que seja tarde, antes que algo mais grave impeça, antes que uma merda de um Parkinson se instale precocemente, antes que o depois chegue de uma hora pra outra e seja o sujeito que rapte, e faça refém e mate no esconderijo sem mesmo pedir resgate.

V
Estabeleça prioridades: primeiro os clássicos, sempre. Mas pensando bem eles que esperem, afinal são clássicos e venceram a prova do tempo, essa coisa que lhe, que me, que nos falta. Continuarão sendo clássicos a despeito da sua leitura, da audição que faça deles, de aplaudir ou não suas peças e seu legado à humanidade.
“Só sei que nada sei”. Quem foi que disse isso mesmo? Ao Google. São Google. Tenho três minutos e meio até que o circo pegue fogo. Deve dar, tem que dar. Torça por mim, por favor.


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Marcelo Sguassabia

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