Simplicíssimo

Emoções à flor da pele

Nada mais exigia, além de simpatia e chocolate; e alguém para ouvir a história de seus tormentos e labutas naquele instante. Ou apenas uma companhia em silêncio empático, cúmplice, solidário. Estava disposta a tirar a armadura e soltar os rios de ternura mescladas a raivas e outras emoções prontas a serem elaboradas, organizadas e finalmente nomeadas, além das renomeadas existentes desde que o primeiro humano percebeu-se como tal.

Resolveu encarar pelo mais profundo, a pele(conforme a visão de Paul Valéry). Encarou-se no espelho, devagar, timidamente, até que os lábios, cabelos, seios da face, nariz, olhos, olhos, olhos. Estes, os verdadeiros traidores que tudo contam da alma sem permissão. Mostraram que a janela estava e sempre esteve aberta. Apenas devia voltar a visão para o interior e tudo surgiria nitidamente para si. Olhos para fora e para dentro, agora. Embora a novidade continuasse adorável, ainda se fazia misteriosa e estranha devido à intensidade da solidão, o passar dos séculos, gerações de minutos, o findar das estrelas e do luar.

Acende o cigarro apagado na metade e curva-se à magnífica prontidão, pois qual o mal em prestar homenagem à beleza do mundo, cataclismas, perfeições e imperfeições do ser e da Natureza?

Compreensão era o que ela queria. Que a convencessem de suas qualidades, confirmassem repetidamente que os espectros mentiam ou exageravam quando lhe dizia que para nada prestava e não merecia viver e matar-se seria o melhor para todos e era covardia quando se machucava apenas um pouco, fraca e patética. Enfim, ansiava a voltar à vida,seu esforço não sendo em vão e sentindo-se aquecida, reconfortada para seus sentidos físicos e metafísicos serem restituídos, sua motivação estimulada, seus pequenos gestos construtivos considerados, suas características pessoais fertilizadas e todo seu ser abarrotado de vida, criatividade e estima.

Contudo,o esgotamento é inexorável e cruel, incutindo o gozo de se deliciar ao abandono no cansaço, exaustão mental, espiritual, social, por sobre a página das Contemplações poéticas de Victor Hugo, enquanto palpitava através dela – como a vibração de uma mola retesada ao máximo e que, agora, cessasse gradativamente de pulsar – o êxtase da criação, vitoriosa. Inveja! E dizem que inveja mata… Então como ainda respira?


O interromper esa aura por um terceiro desapercibidamente é um perigo!Energias condensadas podem desequilibrar o ambiente. stranhamente olhos brilham seja de desprezo,ódio do mundo ou outras obscuridades até então adormecidas.Tristeza,sofrimento,cansaço tornam,então,o recanto pouco acolhedor e de acessível comunicabilidade. os seres ali se veem sugados por uma forte fadiga.  o efeito de todo o proceso reverte-se numa incorrigível ansiedade e esperança, sem consolação. 

Estranhos devaneios apossam-se duma mente fragilizada. A carne fragmenta-se em átomos varidos pelo vento e espalhados pelo universo.Estrelas emfogo ardente lampejam no peito, ferindo e queimando ferozmente o coração: de rochedos,nuvens, céu, mar, galhos, assim ligados propositalmente ansiando a reunir numa forma exterior os fragmentos desorganizados no caos da visão interior d`alma.

Impossível resistir ao ímpeto de vaguaer de um lado para o outro à procura de si mesmo.Um impuldo isolado, duradouro, brilhante e pungente, distante do cotidiano entre família, amigos e gestos conhecidos. Um intermitente estímulo ao que extinguiria o paradoxo, o desespero, o medo, a carne em humana forma e conduziria à paz eterna, descanso do espírito exausto, à segurança absoluta do nirvana em tensão zero.

 

Tania Montandon

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