Simplicíssimo

Aurora (XLI)

XLI

  Descobristes a verdade inaudita. Trabalhas, então, para vingares tuas intenções.

 

Quando ganhamos os corredores da abadia, tudo parecia morto. A única coisa móvel era a chama do trípode, mas até mesmo suas sombras pareciam ter-se enregelado. Caminhamos apressadamente, mas antes de chegarmos aos guardas à porta do salão principal, ouvimos rumores e vimos um vulto se movimentando na direção do jardim. Embora a missão de que estávamos encarregados fosse clara, seus métodos continuavam totalmente desconhecidos por nós, Rinaldo se entregara a ela pela ânsia do perigo, o Carmelita por incumbência ou predileção de sua curiosidade tortuosa, e tínhamos certo apenas o fato de que tudo que sabíamos foi antes ouvindo trechos de conversas, simulando discursos com os monges da abadia e apurando nossas atenções através do fascínio de cada palavra proferida, estudando gestos, arrufos e sorrisos que pela mais tênue sombra de alguma luxúria ou mistério contaminava os modos corporais de alguns.

 

Seguimos, então, sem dizer palavras, o vulto e percebemos que aquele era o jovem monge de ar virtuoso, que discursara a respeito de Caim, Abel e o jardim do Éden e que fora vítima de tantas reprimendas por parte de todos na tarde anterior.Passamos incógnitos pelo hospital do palácio, pela casa de banhos, pelo edifício central onde se localizava a biblioteca, pela igreja, pelo claustro, pelos portões que levavam aos corredores dos dormitórios e à sala do abade, até que o monge, que até então se esgueirava pelos cantos cabisbaixo e com a túnica alva cobrindo-lhe a cabeça, retirou as mãos da manga e fez um sinal deliberado para alguém que o via, ao lado das forjas.

Saímos então em seu encalço, o carmelita entre Rinaldo e eu, e passamos pelas pocilgas até que o jovem adentrou sorrateiramente o estábulo.

 

Os raios de sol entravam pelas aberturas junto à cobertura e pareciam morrer discretos junto à dois corcéis que comiam em silêncio. Entrei primeiro, por trás de alguns montes de feno, vi o jovem se dirigir para o lado oposto ao dos corcéis e fiz um sinal para Rinaldo, que entrou logo em seguida. O Carmelita ficara de vigia na entrada, se escondendo atrás dos tijolos desajeitados de um poço abandonado. Nos dispomos de maneira que Rinaldo poderia ver o Carmelita, e eu a Rinaldo, de forma que poderíamos nos comunicar caso fosse necessário. Subi, pelos cantos da pequena escada de madeira, até o depósito de ração e de lá pude ver claramente a face do jovem monge e as costas de seu comparsa e apurei os ouvidos para escutar-lhes:

 

“- Vós talvez desejaríeis dizer-me: onde estão os sinais da sua vinda? Mas digo-te que temos diante dos olhos, a cada dia, o golpe a se formar no grande anfiteatro daquelas galerias subterrâneas. O navio está quase terminado e partiremos em breve, mas antes devemos reduzir nossas intenções à ações.”

 

“- E as catástrofes que se seguirão se não vingarmos tais intenções?” – perguntou o jovem àquele homem. Percebi que, embora seu tom de voz fosse sussurrante, me era terrivelmente familiar.

 

“- Beneditinos e franciscanos estão conosco. Seguiremos assim que o projeto de Locci para o navio estiver terminado. Não demorará mais que alguns dias. Talvez coincida com a chegada imperial ao Concílio, mas certamente atacaremos quando o imperador ainda não tiver deixado Avignon.”

 

“- Foi dito que quando o momento estiver próximo erguer-se-á no ocidente um rei estrangeiro, senhor de inacreditáveis engodos, ateu, matador de homens, fraudulento sedento de ouro, hábil em astúcias, perverso, inimigo dos fiéis e seu perseguidor, e na sua época não fará conta da prata, mas se apreciará apenas o ouro. Eu sei bem: vós que me escutais, apressai-vos em fazer os vossos cálculos para saber se aqueles de quem falo não são ninguém menos que Clemente e este imperador corrupto que está preste a chegar! Mas nós poderemos dizer: eles são os inimigos e nós estamos do lado dos bons!” – praguejou com um fio de voz o jovem monge.

 

“- Os seguidores de Locci chegarão logo. Talvez os carmelitas estejam conosco, além dos franciscanos. Os beneditinos não contrariaram a invasão.” – disse o homem misterioso com um sussurro estático.

 

“- Eu não seria tão ingênuo a ponto de acreditar nestas ordens. Talvez não sejam contrárias ao golpe, mas, caso necessário se voltarão contra nós, não poderia indicar-lhe sequer um homem de confiança. Devemos nos lembrar que estaremos ao lado de um bando de renegados, Vicenzo Locci mesmo era um renegado.”

 

“- Mas não procureis por entre os vilarejos dos vales, pois os homens mais sábios já foram mortos. E como aquelas profecias gritam pelo combate dos hereges, muitos se encontram presos nestas masmorras. Devemos ter cuidado, pois os presos daqui não devem pagar pelo golpe.” – e neste ponto o homem pareceu demonstrar compaixão nos modos.

 

“- Foi escrito que muitas serão as agitações das castas, nos povos e nas igrejas. Estamos diante da queda do próprio papa, santo Deus! Que se levantem pastores iníquos, perversos, depreciadores da razão, ávidos e desejos de prazeres, amantes do lucro e prenhes de palavras vãs, soberbos, glutões, imersos em libidinagens, sequiosos da vanglória, prontos a repudiar a porta estreita da verdade. Não percebem que devido a isso que a intemperança se alastra pelas vilas? Diminuirão a aflição, a humldade, o amor pela paz, a pobreza, a compaixão e o dom do pranto através da fogueira? É nisso que acreditam? Que venha o golpe!”

 

Na pausa que se seguiu, ouvi um farfalhar. Era Rinaldo que se agitava de seu esconderijo. Alguém se aproximava e de fato um outro homem se uniu àqueles dois no celeiro. Continuamos alerta.

 

“- Como conseguirão as armas?” – disse o jovem, reconhecendo aquele novo visitante, olhando por cima de seus ombros para ver se vinha mais alguém.

 

“- As obras de Vicenzo Locci nos deixaram boas instruções para construirmos as nossas próprias. Além do mais, o contrabando de esculturas prolifera por estes vales e alguns mais ardilosos conseguem alguns recursos para a obtenção de material bélico em Paris.”

 

“- Como atacaremos?” – novamente o jovem monge, cada vez mais preocupado com alguma presença indesejável.

 

“- Os franciscanos se dividem entre si. Alguns deles abrirão os portões internos durante a noite. Trabalham em cópias das chaves dos portões externos cujas formas imprimem nas ceras das velas e nos sabões da sala de banhos e depois as devolvem sem que os guardas percebam

 

“- Sim, cópias das chaves. Temos ferreiros entre os nossos. Melhor entrar abrindo os portões do que passando por cima deles.”

 

“- Precisamos ter calma. Muitos se envolvem nesta empresa, mas o fazem pelos motivos mais diversos. Os beneditinos intentam a queda de Clemente e o aumento de seu grêmio de santos, os carmelitas desejam a renovação espiritual de todo o corpo da igreja francesa, na verdade, nunca foram favoráveis à mudança da sede papal de Roma para Avignon; os franciscanos combatem os sacrifícios na fogueira e os seguidores de Vicenzo desejam vingança contra o braço secular católico que lhes privou da presença de seu mestre.”

 

“- Mas Vicenzo foi pego pela fogueira?”

 

“- Não, mas teve a saúde gravemente debilitada devido às perseguições que sofreu. Foi levado por alguma peste, mas caso não tivesse que levar uma vida de privações poderia ainda hoje estar vivo. É sobre isso que se revoltam aqueles que trabalham na construção do navio

 

“- E depois, o que farão os que seguem Vicenzo?” – perguntou o monge, já se preparando para deixar o celeiro

 

“- Após a queda de Avignon voltarão para as galerias subterrâneas onde se encontra o navio e partirão para a ilha

 

“- … o Zênite Austral…” – sussurrou o jovem monge que pareceu formar em seu rosto uma expressão para caçoar do intento de se chegar à ilha onde Cristo ainda viveria, mas se esforçou para não dizer nada a respeito. A conversa já quase terminara, mas me aproximei o máximo que pude pelo andar superior, entre as rações dos animais. O cheiro era acre e pungente, e em meio da nuvem de poeira visível pelos raios solares não pude segurar a tosse.

 

“- Há alguém lá cima!” – gritou um deles. Neste ponto, uma sensação de terror e culpa me tomaram o espírito e se edificou a minha volta antes mesmo de perceber que, àquela altura, Rinaldo e o Carmelita já corriam de volta para suas ordens. Tentei correr me servindo do tato para me orientar entre trechos iluminados pelo sol e a mais completa escuridão. Quando ganhei a escada, já me esperavam embaixo, mas os degraus não suportaram e, rangendo, acabaram por ceder.

 

“- É um dos noviços!” – gritou o jovem.

 

“- Mas que diabos…”

 

“- Vejam, suas mãos estão sangrando!”

 

“- Segurem-no antes que fuja.”- foi quando um deles, o primeiro que chegara ao celeiro me pegou pelos braços. Fiquei de costas para ele, e novamente não pude ver-lhe as feições. Minha confusão nos sentidos era total, e não conseguia sequer abrir os olhos sem enxergar algo mais que a própria realidade.

 

“- Eu o conheço, é um dos franciscanos.” – disse-me o monge, arqueando os joelhos em minha direção.

 

“- O que queres aqui, pequeno?” – me inquiriu um deles.

 

“- Não sabes da importância disso para a tua própria ordem? Queres estragar tudo?” – me disse o jovem monge

 

“- Na verdade, ele está do nosso lado.”

 

Os outros se calaram. Eu mesmo não pude ouvir a frase no momento em que foi dita, mas apenas aos poucos fui compreendendo, e aquela voz sussurrante, uma vez mais, me pareceu familiar.

 

“- O conheces também?” – perguntaram os dois em uníssono. Foi quando ele se voltou para mim, ainda segurando meus braços. A escuridão total me impedia ver-lhe o rosto. Ele se abaixou a minha frente e, colocando minha mão em seu capuz vi que aquele homem que conspirava em nome dos seguidores de Vicenzo a favor da aliança entre as ordens para a queda de Avignon era meu próprio pai.

Rodrigo Monzani

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