Simplicíssimo

Aurora (XLVI)

XLVI

– Adentrastes os segredos do horto subterrâneo  

Com Rinaldo sob os cuidados do abade, coube ao Carmelita reunir sozinho os noviços de sua confiança para descobrir o significado da inscrição na chave da sala de ervas: Pentateuco. Um tempo que me pareceu muito grande se passou enquanto procurava decifrar o mapa de Barton acerca das entradas de ar da masmorra. Teríamos, então, duas frentes: a sala utilizada pelo herborista para chegar até os cativos na ministração de seus ungüentos, cuja chave roubara o Carmelita; e os ductos externos de ventilação, por onde eu tentaria entrar até os presos para encontrar Alermano. 

Minha curiosidade se excitava cada vez mais. Com o rubi e a safira de Mazzini sobre o mapa, percorria seu vellum lentamente e uma série de imagens começava a se compor em meus olhos. Apenas conseguia ver os detalhes sob as pedras, como verdadeiras lupas, e quando colocava a safira e o rubi alinhados com meu campo de visão, os detalhes do mapa tornavam-se ainda mais visíveis e amplificados, insinuantes; e pude ver que acima da saída dos lixos da abadia havia a entrada de ar que abastecia as masmorras, exatamente como havíamos visto dias antes do outro lado da muralha.

Descobri que segundo o mapa, a entrada era gradeada e seria impossível chegar até os presos por ela sem um instrumento especializado para vence-la. Pensei que os instrumentos de jardinagem de Mabillon me seriam úteis, e dei como certo o furto de, ao menos, um alicate para os galhos mais grossos. Havia o desenho das águas do riacho contornando o torreão, mas essas não morriam junto ao muro, indo por debaixo dele até uma antecâmara que no desenho me pareceu uma pequena caverna com duas passagens, uma que levava aos ductos de lixo; certamente para desobstruir um entupimento; e outra, à direita no mapa, que ia de encontro aos prisioneiros. A tarde avançava e os corredores dos aposentos estavam desertos. Guardei cautelosamente o mapa sob minha cama, peguei algumas vestimentas do outro noviço com quem dividia minhas dependências e rumei para o riacho; me esgueirando de dois monges que caminhavam pelos corredores com expressão de beatitude e de um sicário absorto que mal resguardava as sacadas. Se os peixes de minha terra eram cinza, ou no máximo prateados e reluzentes, aqueles que vi no riacho de Avignon revelaram-se azuis com barbatanas lilases, possuíam barbas como os desenhos que havia visto a respeito do açafrão, e expressões de coloração cardeal. Havia enguias esbeltas e ágeis com as caudas adornadas em tons de verde e o ventre com riscos negros como o nanquim, outros com dorsos desiguais, dentes pontudos que ficavam eternamente à mostra e todas as cores da íris ao redor das brânquias e dos olhos.  Nadei dentre uma comunhão de peixes quase transparentes de mínimas dimensões até chegar à câmara que vi no mapa, mas para meu total e mais cruel desengano, as portas haviam sido fechadas com cimento e, a se julgar pela aparência do trabalho, há muito tempo.

Olhei ao redor, mas nada mais havia, apenas o contorno das duas arcadas de pedra, portas de altura muito baixa fechadas e cimentadas dentro da pequena atmosfera de ar opressivo e espumoso que ali se formara. A umidade fizera com que musgos subissem parede acima, esverdeados e alaranjados, cortando do teto ao chão e indo morrer junto as águas. Nas paredes havia inscrições no que hoje sei ser o hebraico e desenhos de peixes estranhos, como os que acabara de ver.Voltei dentre os corais mortos, como mortas eram as virtudes do ar da câmara, uma espécie de fedor de fedor, e dentre uma festa de flores submarinas, anêmonas, jacintos, alfenas, ranúnculos, goivos, galhas, bagas, botões silvestres, bardanas, grelos, nervuras de folhas que me pareceram tão móveis e vivas quanto os próprios peixes. Saí por onde havia mergulhado, troquei as roupas por minha túnica seca e voltei apressadamente aos aposentos pela janela, evitando o corredor central.Foi neste ínterim que, num surto, o Carmelita adentrou meu quarto com seus companheiros arrebanhados:

“- Descobrimos!” – disse ele. Fiz silêncio, mais preocupado em fechar a porta as suas costas.  “- Não tivemos a oportunidade de nos encontrarmos na fenda de nossas discussões, mas eis o que pensamos: Pentateuco. Obviamente, um compilado de livros santos” – quem falava era um dos beneditinos, Umberto. O grupo do Carmelita, além de Umberto, um noviço pingue e de olhar bovino, mas de conclusões rápidas, contava com Ulberico e Venaro, dois gêmeos magros e altos de expressão austera e de espírito provençal; além de um franciscano muito jovem que, segundo me confidenciaram, era mudo, mas de confiança. 

“- Descobrimos o significado da chave: Pentateuco é uma palavra derivada do grego e significa ‘cinco livros’. Essa palavra é usada para indicar os cinco primeiros livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levitício, Números e Deuteronômio. Os judeus chamam essa parte da Bíblia com o nome de Torá, que significa Lei” – lia Umberto de uma edição antiga da Bíblia sagrada, nos cantos explicativos da introdução do antigo testamento. 

“- Nestes cinco livros” – continuou o Carmelita, contendo o tom da voz, “- encontramos histórias e leis que foram escritas durante seis séculos, reformulando, adaptando e atualizando tradições antigas e criando novas. Tanto nas histórias como as leis giram em torno de um centro: o ato libertador de Deus no êxodo, que é o ato fundante do povo de Israel.”

“- As histórias aia contidas, na sua maioria, nasceram no meio do povo e, primeiramente, eram histórias de famílias, de clãs e de tribos que procuravam transmitir oralmente, de geração em geração, ensinamentos e fatos. Mais tarde essas histórias foram reunidas. Modificadas e interpretadas para que todo o povo de Israel pudesse se espelhar nelas e para que elas expressassem a fé em Javé, o Deus que liberta.” – neste ponto, Venaro tomou a palavra, gesticulando nervosamente dentro do círculo de poeira do quarto:  “- As leis pertencem a várias épocas e são diretivas para o povo nas diversas etapas da sua história. Todas elas, porém, procuram, em circunstâncias diferentes, conduzir a uma prática que reflita o ideal proposto pelas normas básicas do projeto Divino: a libertação do povo e a formação de uma sociedade livre. As leis do Pentateuco, portanto, não são perenes e intocáveis, mas expressam um momento determinado da vida, com os conflitos que existam entre o povo; mais do que serem aplicadas diretamente a nossa realidade” – e foi a vez de Ulberico interromper e continuar o discurso de Venaro: “- elas servem de exemplo e modelo para que aprendamos a discernir as situações, que, por mais variadas que sejam, necessitam de um poder central, uma legislação normativa para o povo.” 

Fizemos silêncio, o Carmelita olhava-me com olhos esbugalhados, prestes a revelar seu segredo:  “- Diga-me, caríssimo, o que ouvimos não somente o próprio abade dizer, mas também os outros monges que aqui trabalham e vivem acerca desta abadia?” 

Pensei por um instante e a resposta me apareceu:  “- Que a abadia é um verdadeiro microcosmo.” 

“- Pois eu digo que é uma verdadeira metáfora para a inscrição nesta chave. Pentateuco significa, como já dissemos, um conjunto de tradições subvertidas em leis para um povo. A abadia é o povo de Deus, e a norma, ou seja, o centro para onde converge suas tradições, é o abade.” 

“- O que queres dizer-me?” 

“- Que a porta desta chave” – e agora o Carmelita girava a pequena chave entre os dedos, “- fica na sala da Norma do mundo abacial.” 

“- A sala do abade” – proferiu Ulberico. 

“- E da sala do abade pode-se chegar até as masmorras. É por lá que o herborista tem livre acesso para manter os cativos vivos com suas ervas. É lá que devemos entrar para encontrar o caminho que leva a teu irmão Alermano.”  Pensei que o mapa de Barton pudesse conter o projeto de alguns túneis e passagens que denunciassem a descoberta do Carmelita, mas ouvimos um ruído. Calamo-nos e mantemos o silêncio duro, impenetrável. 

“- Olha direito teu mapa e encontra-me na fenda de sempre. Temos que agir antes da chegada do imperador e sua cavalaria.”  “- Talvez seja melhor agir durante sua chegada. Pouca atenção mereceremos com a presença imperial em Avignon. Poderemos agir nas sombras.’ 

“- Talvez… mas os guardas terão duplicado. Teremos que ser mais cautelosos.”

Rodrigo Monzani

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