Simplicíssimo

Aurora (XLVII)

XLVII 

– Na chegada, reencontrastes um deles. Exatamente quem não procuravas.

 

 

 

Desci para os corredores principais. Aquela primeira parte da noite, quase a última da tarde, começara a se enevoar. Enquanto atravessava o claustro, a umidade ia penetrando até o fundo de meus ossos, moídos por um dia de pensamentos inquietos. Ainda que a noite fosse fria, foi com um suspiro de alívio que cheguei até as abóbadas centrais, ao abrigo dos elementos do mundo, confortado pelo calor dos espíritos da abadia, e pela prece.

O canto dos salmos havia começado pelos quartos e salões, ecoando num único murmúrio abafado entre cada canto vazio pelos quais passava. Foi naquele momento que percebi que havia muito pouco a dizer.

 

O esforço para chegar às masmorras pelas entradas junto ao riacho se esvaíra. Restara-nos a entrada de ar, acima das águas; e explorar às escuras a sala do abade com a chave do Carmelita. Na fenda de sempre, nos encontramos e decidimos que os gêmeos dariam cobertura, guardando vigília no corredor enquanto o franciscano mudo e o Carmelita tentariam adentrar a sala. Umberto se encarregaria de esquivar as atenções caso algum dos sicários procurasse os noviços nos aposentos durante a nossa ausência.

 

“- Certo. Eu escalarei as muralhas até a entrada de ar. Tenho ainda que pegar algum dos utensílios de Mabillon, um alicate talvez, caso as grades daquele túnel sejam muito fortes. Se estivermos certos, nos encontraremos em lados opostos das masmorras.” –disse a eles, sem parar de interrogar a escuridão da fenda com as mãos.

 Foi quando, por uma concatenação incrível de eventos, quando ainda nos preparávamos para sair fenda afora que ouvimos avisar que estava adentrando as muralhas a delegação imperial; e vimos monges passando apressadamente ao encontro dos portões.

Homens que já se conheciam há tempos, homens que sem se conhecerem haviam ouvido falar um do outro saudavam-se no pátio com aparente beatitude. Ao lado do abade vi muito da guarda imperial, e todos moviam-se como se tivessem familiaridade com o poder, como se fossem eles próprios, os guardas, o imperador; que apareceu atrás e distribuía a todos, especialmente às minorias das ordens americanas que ali estavam para as discussões e foram recebe-lo, cordiais sorrisos, augurando miríficos entendimentos pela sua presença ali, trazendo explicitamente seus votos de paz, bem, alegria e concórdia.

 Minha atenção voltou-se inteiramente para aquela figura de que mais tinha ouvido falar naqueles dias, o imperador. Tinha as feições clássicas de um europeu germânico, embora naqueles dias não soubesse sua verdadeira terra natal, magro, mas de boa estatura e porte. Olhei-o fixamente, e chamaram-me as atenções os seus olhos azuis, frios, capazes de fitar com alegria, mas uma alegria fria, sem expressão verdadeira, e que muitas vezes veria, ao contrário, brilhar de lampejos equívocos, tão hábil era em ocultar os pensamentos e paixões como para exprimi-los na ocasião propícia.

Na troca geral de cumprimentos, seu afeto foi tornando-se cada vez mais descaracterizado, mas manteve-se sempre e tão somente cortês com todos. Quando viu Clemente, debilitado, a frente do abade, foi muito diferente para com ele, mas o fitou de um modo tal a induzir em mim uma grave inquietação. Quando cumprimentou os monges ao meu redor deu um sorriso difícil de decifrar, e murmurou sem calor:

 “- Fui como vocês em minha formação, mas hoje resguardo a juventude apenas na alma.”, frase que não consegui colher nem um sinal de ansiedade, piedade, nem mesmo de ironia, nem sombra de injunção ou matiz de interesse. Pareceu-me mais uma educada hostilidade; não porque seu rosto traísse suas intenções e seus sentimentos secretos, mas porque certamente queria que os monges o sentissem hostil, prevendo que aqueles mesmos monges pudessem lhe minar os poderes através de suas alianças.

Do outro lado vi o Carmelita, que me disse estar procurando por algum sinal de Rinaldo, sem sucesso.

 

“- Onde está o golpe a Avignon? Não haveria momento mais propício para o ataque, não? Veja, guarda desguarnecida, portões abertos…”

 

“- Cala-te Carmelita! Se te ouvem… diz-me, não achaste Rinaldo?” Foi quando percebi nele um olhar endurecido e cético.

 

“- Acho que nunca mais o veremos. Não o encontrei do outro lado dentre os noviços e nem mesmo está junto dos sicários. Não há mais ninguém que não esteja aqui recepcionando a delegação imperial, a não ser…”

 

“- Os cativos. Rinaldo está nas masmorras, como prisioneiro.”

 

“- Um justo castigo, nos diria o abade.”

 Após aquela consideração, o Carmelita preferiu dizer mais nada. Nos reunimos, Ulberico, Venaro, Umberto e o franciscano mudo e partimos, eu para o lado de fora das muralhas, já com o alicate de Mabillon sob a túnica que, na confusão, não me fora difícil de subtrair do jardim, e eles, juntamente com o Carmelita, para dentro da abadia (cujo ventre agora estava deserto com a recepção aos portões), em direção a sala do abade.

Saí, então, em direção das muralhas da abadia, para o mesmo local onde dias antes vira a entrada de ar. O colóquio com o Carmelita induzira-me no ânimo e nas vísceras um estranho fogo e uma indizível inquietação. Talvez por isso me tenha inclinado ainda mais à desobediência e decidido a ir sozinho até o local em questão. Nem eu mesmo sabia o que procurar. Queria explorar sozinho um lugar ignoto, estava fascinado pela idéia de reencontrar Alermano e poder me orientar só pela escuridão.

 Tinha comigo também um lume (por que eu o trouxera? Talvez já nutrisse um plano secreto?) e contornei a muralha pelo mesmo caminho estreito de antes, chegando com dificuldade ao túnel de ar, que ficava no alto de todos os demais que expeliam lixo.Era uma noite fatal porque enquanto vasculhava a entrada do túnel, mínimo, estreito, pequeno, vi que sua inclinação era quase a máxima e os dejetos do tempo misturados à poeira e à umidade fizeram com que o espaço em que me encontrava fosse preocupantemente escorregadio, de modo que, ao quase cair, deixei meu lume se perder muralha abaixo, indo morrer junto às águas do riacho, invisíveis de onde me encontrava.

Desci um pouco mais, tentando ver à luz da lua, que de vez em vez se revelava cheia atrás de uma nuvem fina, o que me aguardava um pouco mais abaixo, mas me era inútil.

 

Pensei em voltar o quanto a luz natural me permitisse a visão acima da cabeça, mas foi quando peguei uma pequena pedra e decidi joga-la túnel abaixo, para checar sua profundidade. Não ouvi o som de retorno. Joguei uma maior, desta vez apurando os ouvidos, percebi quando a pedra ricocheteou nas grades para finalmente ganhar o chão. Para minha surpresa, antes que pudesse reiniciar minha descida agora já mais consciente de sua profundidade, a pedra voltou, jogada para cima. Um fino fio de luz passava por aquele trecho da ventilação, apertei os olhos e gritei quando vi que quem me atirara a pedra novamente era Rinaldo.

 

“- Não te assuste. Sou eu!” – ele gritou também, tendo certeza agora da minha presença.

 

“- O que fazes aí, como chegastes?”

 

“- Santo Deus! Fui jogado nesta pocilga pelo próprio abade e pelos sicários.”

 

‘- Mas como chegaste…”

 

“- Até a ventilação? Ora, estava contigo quando descobriu a entrada de ar e sei que pensas em chegar até as masmorras por aqui. Com todo este alvoroço, concluí que finalmente as delegações imperiais estavam em Avignon. Segui então a luz da lua para chegar até a ventilação, deduzindo que este seria o melhor momento pensado por ti para invadi-la, já que todos estão nos portões.”

 

“- Vou descer.” – gritei, esperando alguma orientação.

 

“- E eu subirei. Não conseguirás vencer as grades sozinho.” – Foi quando vi que Rinaldo, subindo aos gemidos de dor, movia-se agora não apenas cambaleante nas pernas, mas seu braço esquerdo parecia apenas pendurado ao corpo, indo de um lado para outro como se não possuísse articulação, e a mão esquerda estava voltada para trás, e sua túnica estava totalmente alvejada de sangue.

 

Naquela altura, nada pude dizer, a não ser descer até a grade, sacando o alicate de Mabillon de minha túnica enquanto Rinaldo, como um monstro sujo e torturado, escalava as paredes internas daquele túnel, por vezes rastejando no mofo, propelindo o corpo para cima aos solavancos e gritos de dor, emitindo ruídos débeis e claustrofóbicos antes de chegar, pelas graças, até as grades. Começamos, então, a cerrá-las.

Rodrigo Monzani

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