Simplicíssimo

Aurora (XXXVI)

XXXVI  

 

– Encontrastes, então, um leal seguidor.  

 

Lembro que, àquele ponto da viagem, ainda possuía em vellum finíssimo o mapa elaborado por minha curandeira; e segundo pude entendê-lo, a sede papal poderia nos aparecer diante dos olhos a qualquer momento. Sonhava com um templo faustoso, com colunas e tímpano historiado, degraus de mármore encravados num monte de pedra negra que se elevava até onde os corvos voavam, capitéis esculpidos, arcos, abóbadas e outras colunatas soberbas. Lembro-me ainda que imerso naquela visão de meu imaginário, ria sozinho ao pensar que encontraria Alermano numa ceia com o próprio papa, bebendo do cálice sagrado e discutindo em voz alta alguma das questões filosóficas de Barton, algo sobre a existência do vazio ou a respeito dos corpúsculos invisíveis de ar. Num desses momentos de irreflexão, o outro noviço franciscano me surpreendeu rindo enquanto olhava para o nada, como se visse o próprio paraíso terrestre. 

“- Do que você está rindo?” – me perguntou. 

Embora o pequeno realmente não passasse de um noviço, durante os dias percebi que os outros o tinham em grande apreço e recorriam freqüentemente a ele lendo trechos de difícil compreensão do antigo testamento, consultando-o sobre um salmo ou pedindo esclarecimentos sobre como poderiam representar, através da palavra escrita ou de seus desenhos, a figura de Jesus ou um animal. E ele fitava o vazio com seus olhos de infante, misterioso, como se enxergasse as páginas de uma obra-prima do cristianismo, páginas escritas pelo próprio Deus vívidas em sua memória e respondia como os falsos monges são atacados por desejos de representar o mundo como a epifania do apocalipse ao avesso no qual porcos repugnantes saltam sobre as muralhas da Belém celeste. Certa vez, o vi aconselhando um outro infante sobre como interpretar as metáforas nos textos de Plutarco conforme o pensamento de São Tomás de Aquino, para que se evitasse a melancolia e apatia no coração. Outra noite, o surpreendi numa conversa com vários noviços de outras ordens que também participavam da caravana, dando conselhos sobre como distinguir nos animais as marcas da santa criação, ou ainda, um instrumento náutico de um prodígio inspirado por Deus. Por fim, numa tarde o ouvi dizendo que certos versículos não deveriam ser procurados, pois poderiam cegar os olhos de quem não acreditasse em suas filosofias que versavam sobre o próprio testemunho da verdade e aludiam à vinda do Anticristo.

“- E então, por que você está rindo?” – ele me repetiu a pergunta de uma maneira despreocupada diante do meu silêncio, apresentando-se como Rinaldo.

“- Pensava no palácio de Avignon. Nunca o vi e, verdadeiramente, não sei como deve ser.”

“- Também não o vi, mas não pense em algo muito diferente daqueles templos italianos e dos torreões que infestam nossas abadias.”

“- É por isso que ri… imaginei vales com frondosas árvores que gotejam bálsamos perfumados, planaltos por onde correm cavalos coloridíssimos e rios de águas esmeraldinas.” 

“- Parece o paraíso terrestre…” 

“- Ou o caminho para o inferno.” – lhe respondi; e rimos os dois quando nos surpreendeu o velho franciscano.

“- Espero que não estejam discutindo sobre comédias, mas apenas sobre o caráter lícito do riso.” – disse o velho franzindo o cenho.

“- Não, mestre. Estamos a falar de enigmas mais argutos.”

“- Mas riem…” – disse ele secamente, “- e nisso fazem mal. Jesus Nosso Senhor nunca contou comédias nem fábulas, mas apenas límpidas parábolas que nos instruem alegoricamente sobre como alcançar o paraíso, e assim seja.”

“- Pergunto-me” – respondeu-lhe Rinaldo “- por que sois tão contrários em pensar que Jesus jamais tenha rido, pois acho que o riso é bom remédio como as orações para nos livrar dos maus humores e outras afecções do corpo, em particular a melancolia.” – ele falava num tom respeitoso; e a se julgar pela postura do velho mestre, este já conhecia o tipo de comportamento de Rinaldo, reprovava-o, mas de uma maneira paternal, dando-lhe margem para uma discussão na qual pudesse expor sua experiência e sabedoria. Um jogo de vaidades, Rinaldo, o infante com ares de rebeldia querendo interpretar o mundo a sua maneira; e o velho, a personificação de um exemplo a ser seguido, embebido de regras, retidão moral e respostas santas.

“- As orações certamente são coisas boas” – respondeu o velho enquanto a caravana rumava vagarosamente entre os vales franceses “- e o próprio Agostinho as aconselhava como para remover a tristeza, que pode ser má paixão, quando não está voltada para um mal que possa ser removido através da audácia. As orações restituem o equilíbrio dos humores. O riso sacode o corpo, deforma as linhas do rosto, torna o homem semelhante ao demônio.” 

“- Os demônios não riem, o riso é próprio do homem, é sinal de sua humanidade”, disse Rinaldo. 

“- Também a palavra é sinal da humanidade dos homens e com a palavra se pode ofender a Deus. Nem tudo aquilo que é próprio do homem é necessariamente bom, Rinaldo.”

“- Aristóteles” – interrompeu o pequeno, “- diz que o riso é para ser reprimido no imbecil, por dignidade, mas é para ser encorajado em muitos outros casos. Parmênides louva a ironia de Platão, e Péricles escreveu: ‘ aliquando praterea rideo, jocor, ludo, homo sum’”

“- Eram pagãos” – replicou o velho, “- não conheciam a Sagrada Escritura.”

 

“- Então falemos sobre a Sagrada Escritura: quando o verbo de Cristo já havia triunfado sobre a Terra, Frederico Barba Ruiva disse que a divindade soube combinar harmoniosamente o trágico e o cômico; e Elias fala de um antigo imperador, homem de elevado espírito e princípios cristãos que soube mesclar momentos de alegria e os de gravidade. E por fim, Marcos recomenda dosar com moderação o sério e o jocoso em seu evangelho.”

“- O espírito é tranqüilo somente quando se depara com a verdade, e dela não se ri.”

“- Mas quando convidava os simples a jogarem a primeira pedra, quando perguntava de quem é a efígie na moeda para pagar em tributo, quando brincava com as palavras e dizia: ‘Tu es Petrus’, eu creio que Jesus dizia coisas argutas, para confundir os pecadores, para sustentar o ânimo dos seus. Falava com sarcasmo também quando disse a Pilatos: ‘Tu o dizes’, quando este lhe perguntou se era o rei dos judeus.”

“- Rinaldo, tua parvoíce parece ter criado espírito próprio. Cala-te, senão te mando de volta àquelas trilhas barrentas de onde teu pai te tirou para te tornar um monge. Aja, pense e fale, portanto, como um monge!”

Rinaldo se calou e me olhou de soslaio.“- Que trilhas barrentas são estas?” – lhe perguntei.

“- Por que te contaria? És um estranho… Não sei onde está o outro noviço. Aquele estúpido deve estar em outra parte da caravana, certamente com os beneditinos que apenas conhecem as santas palavras superficialmente. É um parvo aquele Aldemaro. Ou deve ter fugido, não gostava da idéia de passar uma semana enclausurado em Avignon entre discussões enfadonhas e velhos repugnantes. Enfim, seja como for, não confio em você.” 

“- E nem eu em você, mas precisarei de ajuda, digo, durante o Concílio.”

“- Para quê?”

“- Busco pelo meu irmão.”

“- Mas que lugar ignoto para se achar um irmão, não?”

“- Falo sério. Meu irmão, Alermano, foi preso pela cavalaria do imperador e levado para as masmorras. Toda nossa província foi assim destruída.”

“- De onde vens?”

“- Pádua, e tu?”

“- Florença, a terra dos tecidos e dos comerciantes pagãos! Mas dizes: como sabes que este Alermano ainda vive, e por que o levaram?”

“- Longa história… longa demais”

“- Mas conta!”

“- Matamos dois cavaleiros num riacho.”

Rinaldo me encarou àquela revelação.“- Sabes que o irmão do imperador foi assassinado recentemente?” – ele me perguntou, olhando sobre meu ombro para ver se alguém nos escutava a conversa. Fiz silêncio e não dei importância ao seu comentário, até que:“- Achas que matamos o irmão do imperador?”

“- Sei que o caçula está morto, foi encontrado com a cabeça partida ao meio e todas as províncias próximas ao local foram dizimadas. Não era isso que o papa queria, quando enviava missões ao encontro deste irmão caçula do imperador, que vivia uma vida desregrada e colocava em dúvida a aliança entre a Igreja e o Império?”

“- Sim, matamos dois homens, um dos quais se chamava Bernardo… lembro dos gritos!” 

“- Mataram dois… e tu também, não somente Alermano?” 

“- Matamos porque defendíamos a honra de uma das nossas, uma pequena.”

“- Então era ele! Ora, céus do firmamento de Jerusalém! Encontro-me com o assassino da mais alta nobreza do império. E é um monge franciscano! O que diria o próprio santo Francisco sobre isso!?”

“- Cala-te! Não sabemos ainda se era o irmão do imperador.”

“- Mas pensa: se tua província foi destruída, se abriste ao meio a cabeça de um homem de vida desregrada que atentava contra uma infante, se prenderam teu irmão… achas mesmo que se preocupariam em prender o assassino de um mero cavaleiro imperial? Estes cavaleiros são mortos e repostos como sapatos; e quando encontram os assassinos destes homens, os outros cavaleiros lhe cortam a garganta de uma maneira tão indigna que nem mesmo o mais negro e cruel dos carrascos se atreveria com eles!”

“- Mas resta saber o nome deste irmão do imperador.” – disse a Rinaldo, e instantaneamente olhamos para o velho mestre franciscano que apertava os olhos para poder enxergar as paisagens dos vales de Digne.

“- Mestre.” – aproximou-se Rinaldo, dentro da carruagem.

“- Não me venha com suas rebeldias infames Rinaldo. Deixa-me que agora quero dormir, e não discutir o riso de Cristo, que, aliás, nunca aconteceu!”

“- Mas mestre, não quero discutir sobre estes temas, já que Cristo, como sinal de sua humanidade, ria e o fazia para o bem. Mas antes, agora quero saber o nome daquele pobre irmão do imperador que fora achado morto por aquelas bandas italianas.”

“- Mas por que isso agora? O que pretendes? Olha que te mando de volta para…”

“- Mestre” – interrompeu Rinaldo, “- estamos preste a participar de um Concílio que certamente contará com a presença imperial. Não posso dar sinais de ignorância se assuntos destes respeitos acontecerem.”

O velho olhou Rinaldo de soslaio, soltou um suspiro longo e antes de se virar, disse:

“- Bernardo, seu nome era Bernardo.” 

Agora, certeza de que encontraria os faustos lírios da nobreza imperial no Concílio do Santo Suplício fazia de Avignon uma terra ainda mais incógnita para mim. Descobrira que Alermano era, na verdade, o assassino do herdeiro do sacro império romano, e que nem mesmo meu pai, o único a ver Alermano sendo levado ainda com vida pelo seu algoz, poderia desconfiar daquela situação como ela realmente se apresentara diante de meus olhos àquele momento. 

Rinaldo, empolgado que estava com a possibilidade de flertar com o perigo dentro da própria casa do sumo pontífice, jurou lealdade a mim e disse-me que Alermano estaria em casa dentro de poucos dias se prontamente colocássemos em prática suas teorias ocultas que passavam pela física de Roger Bacon às línguas dos pássaros, utilizada por São Francisco para pregar o sermão das Montanhas, quando conversava com os corvos do Oriente… Um novo companheiro leal, como leais deveriam ser os seres do paraíso celeste, de pele e coração brancos e membros alados, desprezando montanhas de ouro e seus bálsamos, dos quais eram irrefletidos guardiões, para decifrarem o verdadeiro pecado de Babel, os segredos do Dilúvio Universal e os indistintos e imaculados poderes do erro de Adão. Renunciando a qualquer orgulho sobre estes e quaisquer outros domínios, tornamo-nos guardiões e cúmplices na missão de salvar Alermano.

Rodrigo Monzani

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