Simplicíssimo

Coveiros

I.
O coveiro apanhou na mão a caveira desenterrada e, olhando-a comicamente, filosofou:
– Ser ou não ser?
“Eis a questão”, o crânio respondeu!
O ex-coveiro nunca mais quis saber de Shakespeare e cemitérios.

II.
A mulher do coveiro sempre ganhava anéis, brincos, correntes, pulseiras. Tudo de ouro.
A cada nova jóia, brilhava em seu rosto um novo sorriso.
Mal sabia ela que o metal de suas jóias, um dia, já compusera o sorriso de alguém.

III.
O coveiro não deixou que nenhum dos colegas enterrasse sua falecida esposa. Enterrá-la era um dever do qual não queria abrir mão. Desse modo empunhou a velha a pá e, resoluto, começou a soterrar o seu amor.
Ouvia-se então o baque da terra mole sobre o caixão duro.
De repente, um enfarte fulminante.
Ouviu-se então o baque do coveiro duro sobre a terra mole.

Wilson Gorj

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