Simplicíssimo

Gays – uma revolução semântica

A trajetória do “movimento gay” se completou? Em menos de vinte anos ele mudou o mundo tanto quanto o “movimento de liberação sexual dos anos 60” o fez, e agora começa sua fase de “acomodação” com uma sociedade que, na herança dos anos de ascensão de novas religiões e de fundamentalismos se tornou em parte mais conservadora, mas em parte menos rancorosa com certas minorias pelos ganhos impostos por movimento populares liberadores.


O que é necessário destacar é que a história desses anos mostra a trajetória de uma revolução: uma revolução semântica. Foi o filósofo Richard Rorty (principalmente em um texto chamado “Pragmatismo e Feminismo”) quem chamou a isso de parte de uma busca de “autoridade semântica” por parte de membros de movimentos populares. Mudamos nossos vocabulários e, com isso, nossa visão do mundo. Em boa medida, mudamos comportamentos e leis por causa de alterações semânticas. Rorty escreveu isso levando em conta o que o movimento gay poderia ensinar ao movimento feminista americano.


Apesar de longo, cito o trecho de Rorty, de modo que o leitor o tenha em mente, de modo completo, para acompanhar meu raciocínio em seguida:
Um modo de mudar reações emocionais instintivas é o de fornecer nova linguagem que facilitará novas reações. Por “nova linguagem”, eu quero dizer não apenas novas palavras, mas também criativos usos mau uso – palavras familiares usadas de maneiras que inicialmente podem soar malucas. Algo considerado tradicionalmente como uma abominação moral pode tornar-se um objeto de satisfação geral, ou inversamente, enquanto um resultado do aumento de popularidade de uma descrição alternativa do que é o caso. Tal popularidade amplia o espaço lógico por meio de tornar as descrições de situações que usadas para parecerem loucas, soam então com sadias. No passado, por exemplo, teria soado maluco descrever o coito anal homossexual (sodomy) como uma expressão como uma expressão de devoção (…). Mas agora [tal descrição está] adquirindo popularidade ([1991] Truth and progress. NY: Cambridge, 1998, p. 204). (grifos meus).

Quero que o leitor volte a este trecho, depois do artigo lido por inteiro.

Essa trajetória do movimento gay está bem clara, hoje, em suas marcas fundamentais e fases. Mas menos por obra de historiadores e filósofos, e mais por obra de literatos e, principalmente, por diretores e produtores de cinema (aliás, como Rorty previu). E isto tudo, no caso do cinema, de um modo popular e emblemático. São quatro os filmes que “contam tudo” que precisamos saber dessa história curta, mas valorosa e pedagógica para outros movimentos sociais: “Philadelphia” (1992), “Boys don’t cry” (1999), “Brokeback Montain” (2005) e “Breakfast in Pluto” (2005).

O primeiro, “Philadelphia ”, veio com o início da época do “politicamente correto”. O genial Tom Hanks protagonizou um executivo que fez da condição de aidético discriminado e despedido do emprego uma nova forma de luta por direitos civis. Não à toa a cidade de Philadelphia – berço da democracia americana – foi escolhida! Não à toa seu advogado, que no início nem quis pegar o caso, era negro (Denzi Whashington). Fazia sentido, na época do filme, repreender quem chamasse um homossexual de “fag” ou “bicha” e assim por diante. A idéia básica era a seguinte: gays amam, e talvez sejam até mais sensíveis do que os não-gays. Quem sabe se não está na “atitude gay” a melhor descrição do que seria o homem na sua tentativa de se manter humano, diferente dos seres brutos? Então, se é assim, é melhor que tomemos cuidado com as palavras que usamos para eles, pois elas, até agora, só são deboches – este era o clima da época.


O segundo, “Boys don’t cry ”, mostrou o quanto a vida do gay é difícil e como que a violência não é apenas um caso de guetos, do âmbito de “lugares perigosos” como as zonas de prostituição que, supostamente para um público desinformado (ou “informado” demais), seria o lugar do “mundo gay”. Nada disso. Hilary Swank faz o papel – de modo esplêndido – de uma garota ingênua que resolve assumir sua condição sentimental verdadeira, ou seja, a de garoto. Então, feliz da vida, sai para “dar um rolê”. Em determinados lugares do interior dos Estados Unidos, como no interior do Estado de São Paulo, isso pode ser fatal. E foi! Ao roubar a namorada de um “red neck” que havia voltado para casa após um tempo na prisão, ela acaba estuprada e, enfim, as coisas terminam em um banho de sangue. Isso tudo em uma situação da chamada “vida bucólica do interior”, e não em uma “metrópole violenta”. E pasmem: a história é verídica! O recado podia ser interpretado da seguinte forma: gays e lésbicas, em alguns lugares do nosso “mundo ocidental, democrático e civilizado”, após dez anos de “Philadelphia”, não estão usufruindo tanto de uma situação melhor. Nesses lugares a revolução semântica teria na sua frente uma barreira bem maior do que se imaginava.


O terceiro, “Brokeback Montain ” centra sua história no relacionamento de Ennis e Jack, estupendamente protagonizados por Heath Ledger e Jake Gyllenhaal. Eles são cowboys. São machos. Mas se apaixonam! Eles se descobrem gays – ou melhor, Ennis tem a confirmação do que, na verdade, já sabia – e Jack, muito mais. Instaura-se aí uma luta semântica: a conversa, após eles terem feito sexo, é significativa: “Eu não sou bicha”, diz Ennis. E Jack responde: “nem eu”. Essa conversa determina toda a trama, pois Ennis nunca conseguiu assumir o romance e, então, quando se deu conta que o tempo havia passado e tentou procurar o amigo, ele havia morrido (violentamente). Mas o filme difere de todos os outros porque no eixo da trama o que existe é apenas a história de um “amor proibido”. Proibido por quem? Por nada, a não ser pelo próprio temor de Ennis. Temor do pai que, embora morto, lhe estava na mente – representando, talvez, o superego-sociedade? (o pai havia sido o assassino de um casal gay).

“Brokeback Montain” não é nada diferente de tantos outros filmes de romance onde não estão envolvidos gays, mas pessoas com opções sexuais ditas “tradicionais”: um moço e uma moça que se apaixonam e, por problemas sociais, não conseguem decidir ficar juntos. Sim, pois tudo que Jack e Ennis passam são problemas que pegam todos os outros casais não gays, e que ainda vão pegar mais outros – mesmo em um mundo dito liberado como o nosso. Mas nisso, todavia, o filme é gay. Ou melhor, é o último dos chamados filmes gays. Ou quase o último?

O filme mostra o fim de uma época: o fim dos filmes gays que quiseram participar da revolução semântica. Não esgotaram o tema, é claro. E nem é um filme que impede outro de superá-lo. Mas pode ser dito o “último” pelo fato de ter cumprido o que agora podemos perceber como sendo uma trilogia. Uma trilogia que se fez “espontaneamente”. Ele completou o quatro pois foi a volta do amor gay ao terreno do simples amor. Ou seja, o amor gay, agora, em nada difere do amor, e retorna ao problema do amor que aparece na maioria dos romances “água com açúcar”: o desencontro – a não realização completa do amor, tendo como palco a Terra.

Mas, como sempre, a história anda e pega o filósofo na contramão. Tive de ver que a trilogia não dava conta do processo da “revolução semântica” quando surgiu o que eu classifico como “o quarto filme”: Breakfast on Pluto (o único deles que é europeu). É a história de um garoto, representado de forma especial por Cillian Murphy, que percebe que não há outro destino para ele que ser não somente gay, mas um pouco, digamos, um travesti. Ele não é um cowboy sério. Ele não é garoto que precisa se vestir de mulher para atrair parceiros. Ele não é um executivo aidético e despedido. Ele é um garoto, pura e simplesmente, que sai para o mundo para descobrir quem eram seus pais, ou ao menos sua mãe. Mas é um garoto gay. É cômico e trágico: ele é filho do padre local e seus amigos estão envolvidos com o IRA – e levam o mundo a sério. Todos levam o mundo a sério. Mas o personagem de Cillian tem uma pergunta: “por que todos querem levar o mundo a sério?”. Ou seja: o mundo pode ser melhor se for gay. E “gay”, aqui, é exatamente isso: alegre, solto, despreocupado. E quando se chega a essa situação social e semântica, então “gay” pode ser o que foi: “bicha” ou “traveco” ou “fag” ou “viado” ou tudo que se queira, dependendo de como se fala, dependendo do tom; dependendo de como que ouve quer ouvir. “Gay” volta a ter a ver com humor: olhos para cima, gritinhos e desmaios. Nada disso é mais proibido como sendo “falta de respeito” ao retratar o gay. Nenhum gay inteligente que eu conheço ficou chateado com o filme ou negou que ele “tenha lá sua verdade”. Seja lá qual for o tom, ele, o garoto do filme, não se importa que o chamem de “fag”, pois ele está em um filme que já deixou o “politicamente correto” para trás, não por ser conservador, mas, ao contrário, por não ver nele mais nenhuma utilidade.

Uma das cenas diz tudo. Uma bomba explode num bar. Ele é pego e acusado de terrorismo, pois, afinal, está travestido e, então, é o único “com disfarce”. Ele é espancado por um policial. Torturado mesmo. Mas não perde o humor e, tendo na veia um pouco do masoquismo, que em geral é atribuído aos gays, ele resiste e então se mostra inocente do que foi acusado e até ganha a simpatia e proteção do policial. Quando o soltam, ele insiste em querer ficar na cadeia. Ele quer ficar ali, onde se sente protegido! Aí, então, o seu torturador procura um lugar para ele e, de modo bem sensato, lhe dá certa proteção – pois “a rua é perigosa”. É perceptível, então, que apesar da vida do gay não ter se tornado muito mais fácil, o sentimento das pessoas para os gays foi de fato alterado. Elas conversam de modo diferente sobre os gays e, no entanto, não deixam de usar algumas palavras que foram, na época do “Philadelphia”, proibidas. O “politicamente correto” é dispensado. Tudo que a revolução semântica podia fazer, parece que ela fez. Se ela pode continuar ou não, é questão de usarmos mais a imaginação do que já usamos. Mas ela teve certo término. Senão de todo, ao menos aquele tipo de revolução iniciada nos Estados Unidos, se completou.

Nos termos de Rorty: o modo de conversarmos ampliou o “espaço lógico” de possibilidades de nossas ações a ponto de termos, agora, se quisermos avançar mais, inventar novamente outra situação de busca de “autoridade semântica”. Pois aquela iniciada nos anos noventa, se esgotou – cumpriu seu papel.

Todavia, a história anda, e vai pegar o filósofo na contramão novamente! Não vai?

Paulo Ghiraldelli Jr. “O filósofo da cidade de São Paulo”
PS.1 Veja aqui o vídeo feito para acompanhar este texto.
PS.2 Veja aqui para onde temos de olhar: a barbárie

Paulo Ghiraldelli Jr.

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