Simplicíssimo

O Pássaro e o Dragão

Descia aceleradamente aquelas escadas, já se sentia tonta, mas não podia parar. Ele não poderia alcançá-la. Tinha uma grande parte daquela "espiral gigante" ainda pela frente, como poderia ser descrita aquela imensa torre  repleta de degraus mal conservados. Já há uns dois lances abaixo ouvia um barulho e aquela porta se fechava, até que ia se abrindo vagarosamente. Pra sua surpresa via uma criatura horrenda. Ouvia uma voz, voz? sim, podia-se entender o seguinte:
-Você conseguiu, não é? Mas terá que passar por mim, me convencer.
Isso literalmente, pois aquela monstruosidade tinha a largura da passagem. Só ela sendo deslocada dali pra que alguém pudesse passar.
– E quem é você? já não basta o que sofri com seu amigo ali de cima?
Depois de alguns breves segundos de silêncio, podia-se ouvir uma espécie de soluço.
– Bem, você me parece sincera, mas fale mais sobre ele, pois ele é o mais poderoso daqui e terei que me explicar depois o porquê de lhe deixar ir.
– Acho que não preciso contar muita coisa, você deve estar cansada de ouvir os gritos de todas que ficam presas lá. É incrível como pelo lado de fora tantas são seduzidas. Parece que eu fui apenas mais uma. Vi as marcações na parede.

Na parede se podiam ver em um canto discreto, feitos com giz, traços que comprovavam o que a atual vítima dizia.

– Pronto, você agora disse o que eu precisava ouvir, pode ir minha filha, mas tome cuidado pois quando você achar que está quase salva e bem lá perto da saída, pode aparecer alguém que queira te enganar.

Ouvindo isso, Beatriz correu sem olhar pra trás.

Enquanto isso o Dragão, em pele de príncipe tentava fazer mais uma vítima. Prometia uma vida eterna e poderosa em uma morada cheia de alegria. Olhos e mais olhos femininos brilhavam com o que ele dizia. Mentalmente ele agendava suas futuras investidas sem se esquecer que sua querida Beatriz ainda poderia lhe render um pouco mais.

Ao mesmo tempo que Beatriz vinha confiante, pois já via a luz do sol ao chão de uma pequena porta a sua esquerda, algumas dezenas de metros dali o dragão que já sabia de tudo se transformava. Já havia colhido da mente de Beatriz a imagem do homem de seus sonhos e então foi assim que se mostrou. Com fala doce assobiou e disse baixinho:
– Beatriz, Beatriz, pare um pouquinho e olhe pra mim.
Essa voz soava como algo hipnotizante. O cheiro também. Como resistiria? parecia obrigada a seguir aquele que estava a sua frente. E como parecia perfeito para ela! Já não pensava mais em sair dali. Até que um passarinho vindo de fora daquela torre pousou perto dela e cantou. Seu canto parecia anular toda aquela falsa perfeição emitida pelo dragão, que por sua vez começava a se irritar e ia com isso mostrando sua verdadeira forma. Cuspia fogo tentando acertar aquele pássaro intruso. Como ele ousou entrar ali? pensava. E a cada rajada errada a torre ia desmoronando, era então um amontoado de pedras que ia se formando. A estrutura ia ruindo enquanto Beatriz aproveitava para fugir. E de repente  já do lado de fora Beatriz já não conseguia distinguir mais nada além de pedras sobre pedras. via então aquele pássaro que a tinha salvado e estava quase feliz. Só se sentia pela perda daquela que primeiro a ajudou lá perto do topo da torre. E de repente o pássaro se transformava:
-Sou eu, estava feio lá em cima, né? mas foi de propósito, queria que você aprendesse a confiar no que vem de dentro, mesmo que aquilo que vem de fora te amedronte. Aquele Dragão não é o único ser que pode se transformar, na verdade todos podem, mas infelizmente nem todos usam isso da maneira certa. Vá minha filha, corra, seja feliz. Quando ela ia falar alguma coisa viu outra transformação e pode ouvir o canto daquele pássaro antes que ele voasse pra tão alto que ela já não podia mais vê-lo.

Frank Santos

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