Simplicíssimo

Do nada para o nada?

No início, não tinha nada. E o nada, assim, é muito vazio, e muito chato. Deus ficava andando de um canto pro outro, mas o mundo não tinha cantos, porque não era plano, nem quadrado: era infinito, em todas suas direções. Já cansado de vagar pela escuridão plena, Deus começou a criar pontinhos de luz, e chamou esses pontinhos de estrelas. Criou muitas, muitas, muitas! E então se desencantou de novo.

Se ele podia criar estrelas, por que não coisas maiores? Tipo umas bolas grandonas, de cores e tamanhos diferentes, com um monte de outras bolinhas girando em volta. E assim, saiu criando os planetas, que giravam em torno de estrelas grandes, e maiores, e maiores ainda. E vieram sistemas e galáxias, e o mundo foi ficando diferente, colorido, movimentado. Deus, cada vez mais feliz, sempre criava um desafio novo para si mesmo. Ficou tão feliz que queria alguém para compartilhar aquela felicidade todinha que tava sentindo… Onde ele iria colocar esse alguém?

 

Não existia ainda química, nem física, nem vestibular; mas Deus sabia que para algum bicho, algum ser qualquer viver, precisava de água. Não sabia nem bem o que era água ainda, mas decidiu que esse tal elemento seria fundamental na composição do… Do mundo, digamos assim. E então ele começou a fazer o mundo, desenhar bem bonito, e com muitas cores. Construiu florestas, bosques, áreas quentes e frias, desertos e mares. Criou animais, e saiu inventando nomes para eles. Criou na quantidade certinha, bem equilibrada, uns se alimentavam de outros e outros se alimentavam de uns, e alguns outros, esses se alimentavam de plantas.

 

Os animais tinham uma coisa chamada instinto: uma força da natureza dentro dele, que dizia quando era hora de comer, dormir ou reproduzir. Deus criou o mundo todo em seis dias, e no sétimo descansou, porque ninguém é de ferro; ademais, precisava contemplar toda sua produção. Sentiu-se orgulhoso de si mesmo: seu poder não era apenas grande, era belo, era de uma bondade infinita, como o universo (o mundo ainda maior que esse planeta em que resolvera ficar).

 

Sim, ele controlava tudo. Sim, Deus podia fazer o que quisesse… E para quebrar a monotonia, aquela falta de fazer, a solidão que sentia… Deus resolveu criar um bicho diferente, um bicho mais inteligente que todos os que ele tinha criado até então: o homem. Criou o homem em um dia que ele não estava assim, muito empolgado, mas precisava testar para saber se o juízo ia ficar no lugar certinho. Dois olhos, duas pernas, dois braços, um nariz… E um órgão reprodutivo, nem muito grande pra atrapalhar, nem muito pequeno, que era pra se divertir. Mal sabia ele que ainda haveria uma espécie de “hierarquia” com base no tamanho… Dele, lá embaixo.

 

Acontece que quando Deus terminou o projeto do homem, e deu-lhe vida e uma inteligência, um tantinho de pensamento… Ele cansou, e como teste que o homem era, Deus deixou-lhe sozinho. Criaria a fêmea da espécie tão logo tivesse certeza que o homem teria futuro. Afinal, havia tentado dinossauros enormes, e se distraiu tanto com eles que acabou tendo que destruí-los, por conta de desavenças internas. E então o homem ficou sozinho, andando de um lado para o outro.

 

Cresceu, andou, descobriu algumas ferramentas que facilitavam sua vida, descobriu o fogo que melhorava a comida e viveu em cavernas. E Deus lá em cima, assistindo tudo, Senhor de si. Aí enjoou, e precisava ver o homem interagindo. Criou uma réplica. Eles se estranharam no início, mas depois entenderam que era melhor cooperarem um com o outro. Ajudaram-se para conquistar mais comida, melhores cavernas, melhores condições.

 

Deus ficou muito, muito feliz, e criou a mulher. A mulher seria diferente: seria redonda, com curvas, com fendas, com tudo de charme a mais. Colocou belos seios, belos olhos. Em geral, os machos das espécies eram mais bonitos que as fêmeas, para que pudessem atraí-las; ali seria diferente. E colocou a mulher no mundo. As brigas começaram.

 

Não estou dizendo que a mulher causou as brigas; de maneira alguma acusaria um ser tão… Divino. Porém, coincidência ou não, os conflitos surgiram. O homem se revelou ciumento, possessivo. Reprodução a três era um absurdo. Negócio vai, negócio vem, ela ficaria com cada um dia sim, dia não.

 

Ela engravidou. De quem era o filho? Os dois criariam. Pelo bem da espécie. E estava dando certo, e Deus criou mais homens, em outro ponto do mundo; e outros em outro ponto. Mudava as cores, os tamanhos, os cabelos, mudava tudo. Deus achava muito bonito tudo colorido, alegre. Pensou que a diversidade era o ideal.

 

Século 21. Onde está Deus? Com certeza, muito ocupado, tentando descobrir onde foi que ele colocou o juízo no homem. Em que parte ele tinha guardado mesmo? Na cabeça ele não encontrava; alguns só usam as partes íntimas e os hormônios para guiar sua vida. Outros se preocupam com dinheiro, poder, e esquece-se de dividir o pão com o próximo. Próximo mesmo, porque a pobreza está bem perto, em cada esquina, em todo bairro.

 

Máquinas. Barulho. Dinheiro. Lucro. Mais máquinas. Guerras. Muito barulho, e daquele bem chato, bem estridente. Deus criou o metal para que os homens se protegessem de animais, e caçassem para ter comida. Aquilo de metralhadoras e aviões (aves sem penas, que brilham!) com bombas não estava nos planos. Isso aí de mulheres venderem seu corpo para sobreviver, também não. E crianças fazendo isso, imagina! Os homens se tornaram outros, bem diferente do que Deus imaginou…

 

É claro que aqui e ali há exceções. O bom filho que honra os pais, o estudante determinado, o líder popular que luta por melhorias. Entretanto, esse quadro de perversidades, de exploração, Deus não gosta nem de ver. Prefere, sim, escutar aqueles que oram, que regram sua vida por Sua palavra, Seu exemplo, a realizar os desejos de pessoas mesquinhas e corruptas. Ainda luta pelas Suas ovelhas, manda mensagens, avisos de cooperação, de amor; indica mensageiros da paz, opera milagres e proporciona alegrias. Contudo, convenhamos: não temos – nós, a raça humana – colaborado muito para retribuir Suas graças. Precisamos escutá-Lo mais.

 

 

Mariana Barbosa Ferraz Gominho

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