Simplicíssimo

Janela(s) da Alma

 

No documentário de João Jardim e Walter Carvalho, “ver o mundo” é muito mais que uma ação sensorial automática.

O ser humano possui cinco sentidos, mas o mais explorado na história das civilizações, sem dúvida, é a visão. A estética muda ao longo dos séculos, junto com a indústria da moda; a propaganda, “primeira filha” do capitalismo, seduz nossos olhos e nossas mentes, apelando aos nossos desejos mais íntimos para garantir consumidores; e as mudanças sociais, políticas e econômicas transformam nosso modo de ver o mundo que nos rodeia, gerando diferentes interpretações até mesmo das cenas cotidianas. O documentário “A Janela da Alma”, lançado em 2002, relata como diferentes personagens, entre celebridades e anônimos de diferentes graus de visão, enxergam a realidade.
O filme exibe uma ampla variedade de pensamentos acerca das mais diversas questões. O que é melhor, óculos ou lentes? O “enquadramento” da armação limita a visão no sentido da percepção? A ausência de um sentido aumenta a capacidade dos outros? Cegos sonham com imagens? Todas essas curiosidades comuns e antigas são discutidas por fotógrafos, escritores, cineastas, etc.
Para Agnêz Varda, diretora do filme “Jacquo”, a visão é alterada por sentimentos, e há uma grande diferença entre o reconhecimento visual e o emocional. Quando se ama alguém, não se enxergam rugas ou marcas de expressão; o ódio, por outro lado, ressalta todos os defeitos de um indivíduo. Do ponto de vista neurológico, é fato que nem sempre o que enxergamos é o que existe: nosso cérebro é “craque” em nos pregar peças e ativar memórias, existentes ou não.
Em “Desejo e Reparação”, filme de Joe Wright baseado num filme de Ian McEwen, uma jovem acusa o caseiro de ter estuprado sua prima, baseada em uma falsa imagem do rapaz. Cecília, sua irmã mais velha, acredita na inocência do amado, mas não pôde impedir a prisão do rapaz. Anos mais tarde, Briony ressente-se de sua mentira e de todo o sofrimento que causara, mas não há mais como reparar seu erro.
Ainda em relação à imaginação… Qual a criança que nunca experimentou andar pela casa de olhos fechados, explorando os quartos, salas e tateando as paredes para desvendar o “desconhecido”? Por mais trivial que seja a brincadeira, é um ótimo exercício para descobrir texturas e, diz-se, aguçar a audição. E experimentar alimentos de olhos fechados? Sempre me pareceu que as sobremesas eram mais doces, e a comida caseira mais temperada. O próprio cheiro que passava por baixo da porta da cozinha e se espalhava pela sala já deixava todos de água na boca… Quando o prato era posto à mesa, já estávamos o devorando com os olhos.
Explorar uma deficiência física que sempre encantou e afligiu a humanidade é uma proposta ousada, mas “Janela da Alma” apresenta de forma espetacular; seu roteiro é dirigido de forma fluente e estimula o raciocínio, abordando o tema de modo leve e agradável, até mesmo poético. Um exercício para a alma, não para os olhos.

Mariana Barbosa Ferraz Gominho

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