Simplicíssimo

Herança

Não pense que me vou por covardia. Talvez haja um motivo que eu mesma desconheço. Sou como tu, e com o passar do tempo, eu quis ser tão diferente. Talvez nem mesmo tu percebas. De ti herdei o ascedente, a mania e o cuidado. E também a propensão aos amores difíceis, complicados. Quem sabe também um pouco de coragem. Somos tão iguais, que não precisa perdão. Nem meu nem teu. Amor vai além disso, se é que amor é o que sentimos. Não te engano mais há muito tempo. E se enganei foi por sofrer demais e não querer mágoas tuas para guardar em mim. Mas somos iguais, e o que se lê nos olhos não tiramos da cabeça. Herdei de ti a falha nas coisas práticas e a propensão ao sonho. A diferença que existe é que minha armadura intimida, parecendo mais forte que a tua. Não tiro meu siso, atiro palavras ásperas. Não sei perdoar, ainda que me esforce para esquecer. Isso não consegui aprender com tuas palavras. Meu erro foi aceitar minha liberdade e abraçá-la por inteiro. Não herdei de ti o dom da fé e da esperança. Somente o da responsabilidade, o que implica em um pouco de solidão. Nunca mais te culparei pelas coisas que fizeste no passado. Não me cabe julgar tudo isso. E agora é tão tarde…, tenho sono. Sono que veio com a idade. Acho que envelheci. Ou talvez compreendi, com ferida na pele (pois só assim consigo aprender) que deixar passar é muito difícil. Tarefa árdua dentro de nós. Que nãoé preciso que nos lembrem as nossas quedas e maus-passos; já nos relembramos demais. Vem, minha mãe. Me abraça e confia. Tudo não passou de um pesadelo que deixou cicatrizes. Por isso evito o espelho. Não volto tarde para casa, mãe, a menos que eu me perca no caminho. Dorme em paz e traque a porta. Não temos culpa de nada. […]

Raquel A. Drummond

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