Simplicíssimo

Maçã-Pústula…, ou “quando algo termina”.

Diziam que as frases dela eram mal estruturadas. E eram mesmo; porque tudo começa quando alguma coisa termina; se quebra para sempre, e por isso a morte era fascinante para os homens que não prestavam atenção, que não percebiam que viver é morrer um pouco todos os dias, assim como é também assistir a mil mortes por dia. As frases eram desconstruídas pelo fato de que ela não construía prédios. Não queria ser uma engenheira das palavras. Preferia ser uma terrorista de prédios vazios, e fazer desabar os conceitos, as idéias, a semântica, os fonemas.
Mas também não queria o silêncio; queria o momento em que tudo começasse a cair, a morrer. Queria roubar a morte para si e compreender. Queria destruir, desconstruir. Para que sobrasse apenas a essência; essa que não se diz. Que não se traduz. A essência que sequer conseguia chorar mais. O essencial das coisas não é aquilo que se vê, mas que se faz ver, que se impõe aos olhos, é o silêncio que ensurdece.
Tinha bolhas nos pés. E queria que todas as pessoas do mundo usassem sapatos de bicos finos. Assim saberiam de como é estar calçado em sapatos que são feitos para se ver, mas não para caminhar. Nem assim aliviariam as bolhas que ardem nos seus pés. Assim como dizem que uma maçã podre no cesto corrompe todas as outras. Corromperia todos; hindus, himalaios, judeus, japoneses, saxões, germânicos, sul-americanos, cubanos. Todos teriam de usar sapatos de bico fino. E assim eles viveriam para sempre, tentando se equilibrar.
No fundo, eram todos uma mesma coisa decrépita e encerrada em suas existências pobres, ricas, sujas, felizes, mórbidas, viciadas ou socialmente perfeitas. Todos nasciam, sofriam e morriam. Quando disse isso voltou de repente. Esqueceu-se: nasciam, amavam, sofriam e morriam. Não se conhece verdadeira dor se não se conhece o amar, o morrer-se sem se matar, e assim sofre-se por continuar a viver por egoísmo. Não quer ser finito para acreditar que seus olhos sempre a verão, linda e doce. Mas todos se enganam; sofrem ainda mais e depois morrem. Alguns corpos antes, alguns depois. Mas a alma estava morta.
Um dia, ela conseguiria se livrar dos mortos. Ou melhor, das mortes. Tinha dificuldades em lidar com isso, e costumava guardar as suas mortes. As mais tristes em armários e algumas outras no fundo da memória, que não falhava nas piores horas. Quem sabe se voltasse no tempo, poderia cuidar de flores vivas e abertas e então parar de regar um jardim de flores podres e pardas, que não se abriam mais. Mas é que algumas mortes ela guardava nos armários e na memória. Em pedaços, fragmentos. E as que mais ocupavam espaço e doíam não eram as de sofrimento, eram as de alegria. Nessas ela percebia que tinha deixado-se morrer, e se lembrava que morria um pouco todos os dias… E tentava esquecer-se de que todos os dias, todo mundo assiste a mil mortes, mesmo que não se faça enxergar. O essencial é sempre esquecido quando os olhos estão abertos.

 
A vida não é uma peça de teatro. Só algumas falas são improvisadas. Talvez seja isso aquela velha história de ir contra a maré e acabar morrendo afogado, porque o papel já estava, de certa forma, determinado pelos diretores sem nome e sem rosto. Resta-nos apenas a autoria, um nome vazio, anônimo. Quem sabe um esboço de roteiro. Milan Kundera dizia que a existência era uma peça de teatro sem ensaios; cujo o único ensaio era a própria apresentação. “E quem fez isso conosco, não nos dando a chance de ser muitos em um só, ou em ensaiar para não matar nosso jardim antes do tempo? Quem??”. O carro se aproximava devagar. Alguém a escutava? A culpa era dos homens. Deviam ter avisado antes, pois era tarde demais e como fariam aqueles que, assim como ela, não sabiam decorar as falas e não se conformavam com as mortes, e por isso mesmo colecionavam todas as que podiam encontrar em si? É que ela não aprendera a esquecer. E isso é tudo.

 
As espécies poderiam ser as mesmas, entretanto, não as mesmas flores. Aquelas que ela amava eram únicas. Estavam mortas. A borboleta que ela seria também se alimentaria de flores, levando um pedaço de cada uma das suas pétalas dentro do corpo, colado à alma. O dualismo já acabava, e tudo era um. Era fácil matar a alma. Bastava agredir-se um pouco no corpo. Era difícil matar sua alma. Morria aos pedaços. E eis que num raio de sol ou num pedaço de pão ela encontrava novamente um pedaço de alegria que fazia regenerar-se…, logo depois vinha o vazio, a melancolia que devorava os sentidos.
Andava pela rua sozinha e pediu que o sinal fechasse. Caso contrário, não pararia de andar. Nem de sorrir. Usava sapatos de bicos finos, que Gregório não notou. Era um moço sem nome, um rosto sem identidade que ela amou eternamente durante cinco segundos.
Olhou para Gregório e não saiu de onde estava. A roda do carro foi rápida e logo tudo começou; pois tudo começa quando algo termina. Para sempre.

Raquel A. Drummond

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