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Contos Natalinos – Parte II

São Paulo, 20 de dezembro de 2005.

CONTOS NATALINOS – PARTE II

Ah, á Natal. O clima de confraternização está no ar. Já contribuí com mais de vinte reais para entidades beneficentes. Um recorde, mas o décimo terceiro ajudou, claro. Comprei muito. Para a família, alguns amigos, até a sogra terá presente este ano. Isso é o Natal…
Natal é tempo de festa. Natal é tempo de rever parentes que só vemos em casamentos e velórios. Natal é tempo de passar a mão na cabeça do marmanjo do meu sobrinho, que já está com dezessete anos, e dizer “como esse menino cresceu…”. Natal é tempo de ver que aquela priminha inocente já arranjou mais dois filhos de pais diferentes, e continua sozinha, me olhando com certa malícia. Mas é Natal, e eu não vou cometer maldades neste dia santo. Natal é tempo de perdoar, inclusive aquele primo de terceiro grau, que pegou dinheiro emprestado de quase toda a família, e nem tocou no assunto durante a festa.
A festa de Natal terá uma oração antes de atacarmos a mesa farta. Baixaremos nossas cabeças, de mãos dadas entoaremos famintos, às onze e meia da noite, as orações que o aniversariante nos ensinou. Antes mesmo do término, a sobrinha gorda já estará atacando o peru, o pernil, a farofa e o vinho, pois é Natal, e o pai deixa beber apenas neste dia. Depois de saciados os estômagos, com o champanhe quase no fim, virão as cervejas e caipirinhas, o que chamará ao aumento repentino do volume do rádio da sala, onde algumas tias fuxiqueiras ensaiarão alguns passos da dança da bundinha, ou o bonde da sacanagem, ou qualquer coisa que as faça esquecer que ainda estão solteiras, e o tempo está passando muito rápido…
Na entrega dos presentes, muita confusão, gritarias, presentes errados, choros de crianças, beijos dos novos casais, e papéis de presente rasgados tomam boa parte da festiva residência.
No meio da madrugada, com as crianças (nem tão pequenas) bebendo e fumando no quintal, acompanhadas de alguns vizinhos mal intencionados, acontecerá uma ou outra briga, algumas garrafas quebradas, cabelos arrancados, e quando a vovó perguntar, de sua cadeira de rodas, o que está acontecendo, as tias dirão que não foi nada, é só a diversão da garotada.
Pela manhã, corpos serão vistos por toda a casa, repousando em tapetes, cadeiras, sofás, no banheiro, na mesa da cosinha, enfim, qualquer lugar onde um corpo embriagado seja largado. As tias iniciarão a limpeza, acordando os bêbados, um a um, a cada cômodo a ser desinfetado. Os não-parentes vão-se retirando trôpegos, envergonhados, sujos, rumo às suas casas.
Fechando com chave de ouro as comemorações do nascimento de Cristo, o almoço de Natal, este bem mais comportado e silencioso, pois a ressaca elimina a euforia inicial. A vovó está feliz e emocionada, e chora mais uma vez, enquanto as crianças recolhem os pedaços dos brinquedos já quebrados no quintal, ao comando das mães exaustas…
Uma semana de descanso será o suficiente, pois vem aí o ano novo, e a família deve sempre estar junta, respeitando os conceitos de moral e decência que movem nossos corações nesta época do ano…

Marcos Claudino.

Marcos Claudino

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