Simplicíssimo

POBRE BRASILEIRO

Lendo o jornal de sexta-feira [início de Março], a Folha de S. Paulo, não pude deixar de me indignar com a coluna intitulada "Lula e a lei do mínimo esforço", de uma tal Barbara Gancia. Não pela crítica que ela faz ao nosso comandante em chefe, dizendo que ele prefere "tegiversar" ao invés de dar uma resposta concreta com relação ao problema da segurança pública no Brasil. Isso é verdade. Mas pela forma como a tal da Bárbara vê como se resolve o problema da violência. Para ela, resolveríamos a questão da falta de segurança à curto prazo se instrumentalizássemos a nossa polícia com os recursos tecnológicos mais modernos. Vocês verão melhor o absurdo se lerem as próprias palavras dela: "… Bastaria que a que já está aí (polícia), fosse informatizada, equipada e melhor remunerada." (sic). Ah! Agora sim estamos salvos. Eis que surge uma expert na questão da segurança pública propondo uma solução que nunca ninguém antes havia pensado. Vamos lá moçada, se a solução é essa, vamos dar equipamentos novo pra polícia e aumentar o salário deles em 10x para resolvermos de vez esta questão. Como é que ninguém nunca pensou nisso antes, não é?

Barbaridade, Sra. Bárbara. É por causa de colunistas com esse tipo de visão que a mídia brasileira está com a fama que está. Reduz-se um problema complexo, com profundas raízes sociais, a uma mera questão de distribuir mais tecnologia e melhores salários para a polícia, como se não houvesse problemas na formação profissional do policial, como se não houvesse problemas educacionais no Brasil, como se não houvesse problemas no sistema judiciário e penitenciário brasileiro. Por favor, alguém tem que avisar para a doce e preconceituosa Bárbara que a violência é um problema crônico da sociedade brasileira, com diversas e complexas raízes. Para resolvê-lo, não "basta", como ela diz, tomar uma única ação.

Mas isso não foi tudo, o pior ainda estava por vir. Não bastando o tremendo absurdo citado acima, ela ainda teve a coragem de concluir sua coluna com a seguinte mensagem ao presidente Lula: "… É muito mais fácil atrelar a violência ao fraco desempenho da economia em governos anteriores do que peitar a Igreja, que força mulheres pobres a conceber filhos indesejados, não é mesmo?".

Bom, se bem entendi a mensagem, e acho que a entendi muito bem, a senhora Bárbara Gancia dá a entender que os filhos de mães pobres são os responsáveis diretos pela violência que assola o Brasil de norte a sul. Mais do que isso, com a intenção deliberada de esterilizar as mulheres pobres deste país, ela demanda que o presidente da república tome ações contra a Igreja Católica com o fim de impedir a Igreja de pregar livremente sua doutrina (que se opõe ao uso de anticoncepcionais), que, segundo a idéia desta energúmena, é uma das causas da violência no Brasil, já que aumenta a população de pobres do Brasil. Isto sim, foi o que verdadeiramente me indignou ao ler a Folha de S. Paulo.

Sra. Barbara Gancia, acreditar que a violência é proveniente dos filhos dos pobres deste país é, não apenas prova de sua mais completa ignorância sobre o assunto, mas um grande preconceito contra 1/3 da população brasileira, além de ser digno de um belo processo judicial. Portanto, recomendaria que antes de escrever suas asneiras em um jornal de enorme circulação, como é o caso da Folha de S. Paulo, a senhora deveria pensar melhor em quem toda esta sujeira oriunda de sua cabeça vai espirrar. Caso jamais tenha saído de sua jaula da classe média para olhar o mundo ao seu redor, maiores violências são cometidas contra os pobres diariamente. E, sem querer simplificar a questão, digo que em muitos dos casos a violência que se vê nas ruas é meramente uma reação de outras violências cotidianas que ocorrem contra os pobres e que tem origens no descaso das elites que governam este país e de suas políticas públicas para com seu povo oprimido. Como não reagir violentamente quando não se tem nada, e se vê um filho morrer nos braços por falta de atendimento médico? Como não reagir violentamente quando se assiste impunemente uma criança morrer de fome? A senhora, como boa representante da classe média, dirá que não tem nada a ver com isso, que você paga os seus impostos e a culpa é do governo. Pois bem, alguém tem que pagar a conta deste descaso, e se o governo não dá conta de atender as demandas deste povo necessitado, no mínimo que ele exige, parte deste povo vai partir para a violência contra os seus iguais. E assim caminhamos lentamente em direção a uma guerra civil.

É lamentável ter que terminar este texto concluindo que a média dos colunistas de nossa imprensa pensa da mesma forma que esta Barbara Gancia. Pior que isso, com seus artigos, acabam formando opiniões de seus incautos leitores que estão prontos a repetirem este absurdo em suas conversas de bar, escritório e com a família, aumentando, assim, a desinformação e o preconceito contra os pobres neste país. Não é raro encontrar pessoas repetindo, como verdadeiros papagaios de pirata, as palavras de uma colunista da Folha de S. Paulo. Pobre do país que tem a opinião pública na mão de formadores de opiniões tão despraparados e inescrupulosos quanto estes que temos em nosso país.

Roger Beier

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