Simplicíssimo

O primeiro piolho a gente nunca esquece

 
 
Fomos transferidos para Salvador de mala, cuia e com a filha recém- nascida, Marina. Para uma terra distante, diferente, longe da família, com apenas um casal de amigos residentes na cidade. Valia a pena. Era a terra abençoada pelo Senhor do Bonfim, pelas baianas, a terra do acarajé, do elevador Lacerda, do Caetano, Gil, Gal e Caimi. Terra da praia de Itapoã e da Lagoa do Abaeté. Chamá-la de cartão postal do país é pouco. É muito mais!
 
Cheguei com os cabelos até os ombros. Cacheados à custa de um bem feito permanente (encrespamento artificial). Estava muito bonito. O ar frio do Rio Grande do Sul, mais especificamente de Porto Alegre, foi perdendo força à medida que subíamos pelo país. Era o mês de agosto. O calor era intenso. Tanto que o bebê quase não usou as roupas do enxoval de inverno. As mudanças foram tantas e tão rápidas que eu não tive tempo de observar nos hóspedes indesejados.
De início, uma coceirinha começou na nuca próxima ao pescoço. Não dei importância. Afinal, eram tantas novidades, impossível dar valor a algo tão insignificante. A coceira aumentou dia a dia. Comecei a coçar a cabeça com a mão direita, depois, com as duas.
Eu via uns bichinhos caminhando, tranquilamente, pela cama, mas imaginei que chegavam com o vento baiano. Não dei bola. Na pia do banheiro, eles transitavam da mesma forma. Faceiros e displicentes. Pensei que não ia agüentar o verão baiano, pois coçava a cabeça a noite inteira.
 
Um belo dia recebemos duas amigas de Porto Alegre. Estávamos tomando sol e uma delas me olhou fixamente e perguntou-me: Tere, que bichinho é este que passeia no teu rosto?
 
_ Não tenho a menor idéia, disse, com um ar da mais pura perplexidade. Ela levantou da cadeira, dividiu os meus cabelos na nuca e ficou muda por alguns instantes. Recuperada do susto, ela me falou sem dó e nem piedade.
_ Tu tá com piolho!!!! A tua cabeça tá branca que nem farinha! Eu fiquei pasma e falei indignada.
_ Eu com piolho? Mas como?
Bateu o pavor e a impotência. Logo na nuca! Como vou tirá-los? Fiquei em transe. Passei numa farmácia e comprei um kit poderoso contra os invasores da cabeça alheia. Lavava a cabeça três vezes ao dia. Os cabelos cacheados viraram uma palha. Não entrava nem o pente fino. Dividi as tarefas. A minha sogra ficou com a parte detrás da cabeça e eu com a da frente. Passávamos o dia em atividade. Para quem é iniciado sabe que o piolho é fácil de combater, o problema é a lêndea (os ovos).  Elas não saem com o pente, precisam ser puxadas à unha.
A minha mãe mandou de Porto Alegre três pentes finos e uma infinidade de receitas de combate . Quem disse que o pente passava pelos cachos? E pela dureza dos fios? Bateu o desespero. Fui até o espelho, dividi o cabelo ao meio e cortei um pedação. Ficou um chanel. Mas a minha sogra sentenciou:
 
_ Mesmo assim não vencerei limpá-la, a tua cabeça ainda está que nem farinha de trigo!
 
Nesta altura, nós já tínhamos feito amizade com o Tristão, um gaúcho radicado na Bahia. Ele me socorreu:
_ Deixe comigo. Vou falar com o Serginho, um cabeleireiro que está acostumado com moçoilas piolhentas!
 
Eu fiquei vermelha que nem pimentão só de pensar em chegar num salão cheia de lêndeas multiplicando-se que nem chuchu na cerca. Não tive escolha. Ou isso, ou a convivência por um mau tempo com os horripilantes ovinhos. Me enchi de coragem e fui. Não conseguia falar com o Serginho, de vergonha. Para mim, piolho era sinônimo de relaxamento e porquice!
 
Como é que os santos da Bahia permitiram uma coisa destas comigo?  Pensava. Que recepção foi esta? Será que estou pagando algum pecadilho? Fiquei sem resposta e sem cabelo.
 
As poucas pessoas conhecidas brincavam comigo. Deu piolho na cabeça, Tere? Um calorão tomava conta do meu rosto denunciando a verdade. Depois de quase pelar a cabeça, ainda passamos tardes inteiras a puxar lêndeas e mais lêndeas. Já nem sentia mais o couro cabeludo de tantas puxadas. Passada a experiência, não posso ver uma pessoa coçar a cabeça que fico louca para perguntar. Não é piolho?  Olhe, cuidado! Comigo, aconteceu em Salvador,… em 1983……. Começou com uma coceirinha… depois,….um coceirão.
 
04.11.08
 

Terezinha Pasqualotto

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