Mãe por um dia

Era sábado, 3 horas da tarde. Saí de casa para juntar-me aos amigos, que todo final de semana jogavam futebol sete no campo do Seminário São Francisco de Paula. Fizemos mais uma partida dura, disputada e vencemos pela diferença mínima. O gol que abriu nossa vitória veio dos meus pés. Há vários jogos não marcava e, embora esta não fosse minha função, ficava insistindo a cada jogo e fracassando. Neste foi diferente, peguei um… Era sábado, 3 horas da tarde. Saí de casa para juntar-me aos amigos, que todo final de semana jogavam futebol sete no campo do Seminário São Francisco de Paula. Fizemos mais uma partida dura, disputada e vencemos pela diferença mínima. O gol que abriu nossa vitória veio dos meus pés. Há vários jogos não marcava e, embora esta não fosse minha função, ficava insistindo a cada jogo e fracassando. Neste foi diferente, peguei um rebote quase do meio campo e bati colocado, encobrindo a defesa e o goleiro adversário – um belo gol, tenho que dizer. Após a confraternização regada a cerveja e algazarra, voltei para minha casa. Seria mais um fim de tarde de sábado normal, não fosse amanhã o Dia das Mães e o primeiro que passaria sem a minha. Perdera meu pai, também, há pouco mais de uma semana, tudo no meu ano de formatura. Definitivamente esse estava sendo um ano difícil.

Fiz minhas obrigações de fim de semana. Lavei minha roupa, arrumei a casa e após o banho fui assistir TV e ler um livro (que não consigo lembrar o nome) como passatempo. Na TV todos os momentos lembravam o dia D, mas por algum motivo não me tocavam nem anúncios, nem matérias, nem pasmaceiras de novelas… Estava ali inerte, lendo, assistindo, respirando…

Deitei-me cedo naquela noite, não quis sair nem para comprar um lanche. Fiz meu próprio jantar e busquei na música um aconchego. Dedilhei meu violão por horas, passei por rock, sertanejo, baladas, reggae, etc. O adormecer foi tranqüilo e o sono reconfortante para quem trabalhara a semana inteira e tivera um jogo duro há poucas horas. A única idéia que tive foi ir no outro dia visitar o túmulo de minha mãe e prestar-lhe uma homenagem.

O ônibus demora um pouco mais no domingo, mas a beleza e a clareza de um dia límpido de outono, reforça a paciência. Ao chegar ao centro da cidade, comprei flores numa banca e peguei outro ônibus para o cemitério. Pela primeira vez, me ocorria a estranha analogia dos acontecimentos: dia das mães X cemitério. Embora não me sentisse bem com essa mórbida relação, embarquei rumo ao meu destino sem mais questionamentos. Durante o curso da viagem, sobressaltei e solicitei a parada. Desci e voltei algumas quadras até um asilo que acabara de passar pela janela do ônibus. Já era quase uma da tarde.

A cena que vi da janela do ônibus, me tocou de alguma forma. Três velhinhas sobreolhavam, por cima do portão, a rua como que buscando alguém que esperavam, enquanto uma quarta acenava com brados para elas, sentada à soleira em sua cadeira de balanço.

Cheguei à porta do asilo e a atendente veio solicitar meus intentos. Descrevi-lhe meu objetivo, por demais resumido. Esta nem pediu maiores detalhes, abriu o portão e imediatamente levou-me até o interior do asilo, onde mais 10 velhinhos aguardavam à beira da mesa (bem mais farta que de costume como ficara sabendo depois), não antes de ser recebido pelas quatro senhoras que já aguardavam no pátio.

Do ramalhete de flores que carregava tirei uma flor para cada senhora que estava no ambiente. Uma me disse que não era mãe e eu imediatamente solicitei que aceitasse e fosse minha mãe naquele domingo. A alegria que se espalhou no ambiente foi intensa e a emoção que viria foi interpelada pela solicitação da atendente para que logo iniciássemos a refeição. Tentei recusar a oferta, mas a mesma velhinha a quem solicitara a maternidade, interferiu e disse-me que aquele era o dia dos filhos irem almoçar com suas mães ou vice-versa. Algumas sortudas tinham ido almoçar na casa de seus filhos, com seus netos e demais parentes. Para aquelas que ficaram restava um único filho presenteado pelo momento.

Almoçamos e passei uma bela tarde, onde dançamos e colhemos frutas no pomar atrás do asilo. Mais tarde chegaram algumas visitas rotineiras de domingo. Fiquei até o início do entardecer e ao me despedir de todos os presentes, fui convidado a visitar um quarto. A senhora que me carregava pela mão não tivera a sorte de ser mãe durante os anos que passara nesta vida e quis me mostrar cada canto de seu arrumado quarto, contar um pouco de sua trajetória e declarar toda sua emoção com o acontecido. O inusitado ou o destino havia nos unido. Tive um dia especial e pude ser especial para alguém naquele dia.

Algumas semanas depois, liguei para o asilo para falar com minha amiga e fiquei sabendo que o inevitável tinha chegado para ela. Quis pedir detalhes, mas não tinha porquê os solicitar. No dia mais importante daquele ano eu estava lá. Se fora passageiro, assim o seria tudo na vida.