O Pecado da Influência

“Eu sou um outro”. (Arthur Rimbaud)

 

Começar este texto com uma citação é uma clara afronta a todos os exegetas covardes e pseudo-suficientes que infestam a intelligentsia brasileira. A todos aqueles que se fazem donos da razão e não enxergam a própria mediocridade. Não sinto raiva. Sinto pena. Sou invadido por uma intensa sensação de absurdidade e compaixão.

“Eu sou um outro”. (Arthur Rimbaud)

 

Começar este texto com uma citação é uma clara afronta a todos os exegetas covardes e pseudo-suficientes que infestam a intelligentsia brasileira. A todos aqueles que se fazem donos da razão e não enxergam a própria mediocridade. Não sinto raiva. Sinto pena. Sou invadido por uma intensa sensação de absurdidade e compaixão.

 

Se criei alguma coisa de “original” até hoje, foi por sorte. Inclusive – oh! que ironia! – foi um amigo que me inteirou da fantástica concepção grega de “originalidade”. Para eles, “original” não é aquilo que ocorre de inédito, que é feito pela primeira vez e não imita nada nem ninguém. Original é a capacidade humana de chegar ao ápice de algo já existente. Sob este prima que obras eram classificadas como “originais” ou não. Não importando se traziam algo de novo.

 

O homem nasce da relação. O eu emerge no contato com o outro. O eu não tem substância própria. Todos estes são aforismos clássicos da filosofia e psicologia. Se não me engano, Winnicott disse coisa semelhante. Somos os animais mais dependentes dos pais quando nascemos. Sem eles, não sobrevivemos. Todo nosso mundo e necessidades convergem para eles. Ou seja, a influência, a mimese e a absorção derivada do convívio com entes semelhantes, mais do que naturais, são fundamentais para nossa sobrevivência. Constituem, na verdade, a base da condição e da natureza humana.

 

Ora, tudo influencia. A família, o local onde nasceu, o bairro em que vive, as crenças e a moral de tua época, o que lê, vê, come, toca, sente, critica, ouve. As pessoas de seu círculo social (e o própria classe onde se encontra), a tecnologia, a natureza, a cidade, as conversas casuais, a mídia, a atividade sexual, o tipo de exercício físico que pratica (ou não), as relações afetivas, as hostilidades, o animal de estimação, a saúde, o conforto, a higiene, o vizinho, o professor, o canalha, o ladrão (…) enfim. Tudo isto gera aquilo que chamamos de “experiência”. Lembrando que, sempre, experiência não é o acontecimento em si, mas o que fazemos com aquilo que nos acontece. Como bem disse Aldous Huxley (já leram “Contraponto”? Deveriam.). Nós, por exemplo, nunca aceitamos a opinião de alguém em determinada coisa se este alguém não passou pelo mesmo sofrimento que passamos. *Obrigado Emile Cioran*

 

Nossa própria gênese física – a gestação – envolve a dualidade, a relação entre dois seres distintos (que por sua vez, já são resultado de algo anterior). O que chamamos de inato é, no fundo, artificial. Não somos nada, até que nos criem. A palavra “criar”, aliás, diz muito por si mesma. Se querem dar a alguém a responsabilidade pelo sentido primordial das coisas, dêem a Deus. Bela metáfora da incompetência em compreender a nós mesmos, a clássica transferência de responsabilidade.

Mesmo todos os magníficos experimentos, as invenções que são ícones da “supremacia” humana (para resumir a questão, bote aí tudo que puderes imaginar advindo dos homo sapiens) se originaram de acontecimentos prévios, da junção de coisas existentes, tanto no campo das ciências humanas quanto das exatas.

 

Eu, se adquiri alguma inteligência, capacidade, destreza, raciocínio e crítica nestes quase 19 anos de existência, sem dúvida isso não se deveu a alguma epifania qualquer. Maurício Gomes Angelo é apenas um amálgama das mais variadas coisas que tive contato até hoje. Se, bem entendido, possuo alguma personalidade própria, se posso declarar-me um idiossincrático (e acredito poder fazê-lo) trata-se, apenas, da maneira particular pela qual vivo e interpreto o mundo a minha volta. O que, invariavelmente, todos acabam fazendo. Uns com consciência e riqueza de o fazer, outros nem tanto.

 

Desprender-se da influência não significa, necessariamente, renegá-la e/ou anulá-la. O fato de vivermos na parcela majoritariamente cristã do mundo, com valores e conceitos bem definidos (como a família nuclear burguesa, etc, etc) que, sem tom pejorativo, nos remonta à época medieval, certamente deixa marcas indestrutíveis em nosso ser. Só passamos a renegar aquilo que nos é imputado desde o nascimento a partir duma certa idade. E isto, para alguns, nunca chega (reflexo direto da aura sagrada e inviolável que o sistema cria para si próprio).

 

Em algum momento, temos a oportunidade de renascer. De assumir a condição de autor de nossa personalidade. E esta emancipação é representada pela escolha. Quando possuímos as ferramentas para a construção das escolhas, e passamos a ver com clareza o que somos até aqui, aí sim iremos formar o nosso casulo, a nossa gênese. Oxalá se pudéssemos nos desprender inteiramente de características ensinadas previamente. Para nosso azar, não é o que acontece. E aí surgem conflitos de diversas naturezas.

 

Daí que é engraçado constatar as reprimendas veementes que surgem toda vez que toca-se na lingüística-egocêntrica questão de “até que ponto usar citações e referências em nossos escritos é algo válido e necessário?”. Coisa que não sei, e que não me preocupa. O certo, pra variar, é usar o bom-senso. Que pode ser bem peculiar de cada um, diga-se. E quem somos nós para imaginar o quão cara e significativa dada citação foi para a pessoa que escreveu?

 

Não cito alguém para dar provas de minha “inteligência” e para dizer que conheço este ou aquele autor. Cito apenas porque acho justo dar crédito a quem me ensinou. Poderia fazer de outra forma e usar palavras diferentes ou coisa do tipo? Naturalmente. Contudo, tal artifício, às vezes, me é muito suspeito. Se vamos extirpar referências dos textos que fazemos, pode enterrar todo o meio acadêmico. E boa parte do legado literário, filosófico, psicológico, sociológico, biológico, matemático… Ademais, não tenho vergonha (risos) nenhuma de minhas influências. Não é pecado algum. Não qualifica minha produção, não me torna melhor ou pior. A frase introdutória de Rimbaud define com maestria a questão (e, a propósito, para satisfazer aos desocupados, conheço muito pouco do poeta).

 

Eu sou um outro. Que se faça um ótimo e riquíssimo uso do que este aforismo sugere.