Para ti

Para ti, forjarei o real em minha mente, não em minh’alma. Pois não posso prometer-te mais que o paraíso e a perdição. E que minha inumanidade me acompanhe, pois preciso dela para sobreviver. Posto que não é virtude, mas razão. E é azar que ela venha sempre depois do arrebatamento.

Para ti, forjarei o real em minha mente, não em minh’alma. Pois não posso prometer-te mais que o paraíso e a perdição. E que minha inumanidade me acompanhe, pois preciso dela para sobreviver. Posto que não é virtude, mas razão. E é azar que ela venha sempre depois do arrebatamento. Sou feliz quando inumano. O que significa que a presente existência não é mais que a busca do desconhecido.
Por ti, e não por outra coisa, que me tornarei, novamente, estúpido. Abdicarei do pensamento, da covardia. Contudo, nossa parcela humana sempre volta. Cruel e rindo-se de nós. Não parecemos mais que um bando de desesperados a abraçar o vazio. Somos tão devotos ao passado que, ironicamente, nos deixamos por ele dominar. E o novo está à porta e bate. Ignorá-lo não é a melhor maneira de se manter são. Se abrimos apenas por respeito, tanto pior. Recairá sobre nós toda a maldição dos imprudentes. Cautela é palavra bonita e sedutora. Mantra dos fracos de espírito, como eu. Se há algo de intrinsecamente inesgotável, é a capacidade de ferir o próximo. E quem nos protegerá de nós mesmos?
O egocentrismo é do tamanho da estupidez. E que outra forma de saborear o intenso? Minha espontaneidade é passionalmente calculada. Mas o amor é tema proibido. Não se fala nem divulga. Tenho demasiada filosofia e sentimentos em escassez. A liberdade que almejo é a mesma do não-nascido.

 

Queremos apenas sermos abençoados pela moderação. Todavia, não a desejamos em verdade. Temos mais apreço por manter a meticulosa desordem de nosso microcosmo particular. Coloque um espelho à tua frente. Terá o mesmo efeito. Desculpe-me pela mentira cretina. Texto fragmentado para pessoas fragmentadas. Só para loucos, diz o alemão. Encontro-me sem forças para discordar. De quem é a culpa, que culpa há? Como disfarçar o impossível?

 

Fez-se. Fundiu-se. Criou-se. Somos os monstros de nossos próprios tormentos. Negá-lo é regredir. Eivado de dúvidas, cambaleante, acuado e arredio. A volúpia de palavras disfarça o vazio do cotidiano. A aparência autenticada torna-se real. A vida, sabiamente vivida, infla-se de significação. Com pathos. Com sangue. Impulsos, instintos, digressões, carne, espírito, neurônios. Somos inteligentes demais para hesitar ante o inevitável. Só encontro uma resposta: humanos, subitamente humanos.